quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

Bate-papo: dois experts debatem o uso da mídia na educação (parte 1)



Confiram a primeira parte da entrevista que o Monitor de Mídia, revista mensal multimídia da Universidade Vale do Itajaí, fez com Alejandra Bujokas e Manuel Pinto, dois especialistas em educação para a mídia. Por Gabriela Azevedo Forlin


Nesta edição, o MONITOR DE MÍDIA fez um chat debatendo o assunto “mídia e educação” com os professores Alexandra Bujokas e Manuel Pinto, duas referências no Brasil e em Portugal sobre o assunto. Alexandra é pós-doutora na área de Media Studies, pela Open University, Inglaterra e é líder do grupo de pesquisa "Mídia, educação e democracia". Ela coordena o projeto "Media Literacy no Ensino Médio: atividades de leitura e escrita com professores e alunos" e assina o blog MidiaLab . Manuel Pinto, professor da Universiddade do Minho, é doutor em Ciências da Comunicação pela mesma universidade com a dissertação “A televisão no dia-a-dia de crianças em idade escolar” e assina o blog Educomunicação .


MONITOR DE MÍDIA: Em seu livro "A Estrada do Futuro", publicado em 1995, Bill Gates coloca-nos a importância das Redes no processo educacional. A estrada, segundo Gates, permitirá a exploração interativa de estudantes e professores aumentando e disseminando as oportunidades educacionais e pessoais, inclusive daqueles estudantes que não puderam estudar nas melhores universidades e escolas. Vocês acreditam que ao longo desses 13 anos a mídia digital já evoluiu a ponto de educar pessoa de diferentes níveis sociais de maneira uniforme? Se não, porque isso não acontece?


Alexandra Bujokas: Eu não sou necessariamente pessimista, mas não consigo ver a tecnologia com todo esse potencial de "salvação". Para uma pessoa ser capaz de aprender pelas redes, ela precisa ter muita autonomia, senso de organização, dominar conhecimentos técnicos e ser capaz de ler também o contexto dos conteúdos disponíveis. Não sei se em Marte é diferente, mas, aqui no planeta Terra, só depois de um aprendizado básico (que, infelizmente, nem a escola tradicional está conseguindo realizar plenamente) é que as pessoas passam a ter as ferramentas cognitivas para acessar, avaliar e tirar proveito dos conteúdos disponíveis na Internet.


Manuel Pinto: Esta questão exigiria longas respostas, porque encerra várias temáticas. A minha resposta é que as redes estão abrindo novas oportunidades e dando espaço a experiências inovadoras, mas essas mesmas redes não são apenas um agente de mudança; são também produtos de uma mudança mais vasta, de natureza cultural. E, a este nível, as coisas são um pouco mais complicadas do que os cenários da Microsoft. Por isso, a minha resposta é não. Há sinais de que, em alguns planos, as desigualdades no acesso às redes e aos benefícios que elas podem abrir possam estar a ampliar-se. Creio que o que diz a Alexandra e o que eu digo são duas facetas de um posicionamento bastante próximo.


AB: Concordo com o Manuel, e enfatizo que precisamos pensar no contexto do discurso do Bill Gates, que é a voz institucional de uma empresa com interesses comerciais: quanto mais gente acreditar no tal poder transformador da Internet, mais capital (material e simbólico) a Microsoft vai acumular... Gabriela, em relação ao ponto de partida, vou um pouco além. Acredito que o começo está nas políticas públicas de cada país para lidar com a Internet. Este é um dos principais fatores para diminuir ou aumentar o abismo. Basta comparar a conduta dos serviços de comunicação em países onde o Estado garante mais chances de vida aos cidadãos e países onde o Estado se ausenta mais.


MP: Eu não me considero um tecnófobo, mas também me parece ter crescido, na última década, um discurso tecnófilo encantatório que me parece perigoso sob vários pontos de vista, porque tende a fazer-nos acreditar que dispondo de tecnologias e acedendo a elas, os nossos problemas (pessoais, educacionais, políticos...) se resolvem, como que por milagre.


AB: Concordo com o Manuel... É a visão redentora da educação, remodelada.


MP: Hoje, há uma pressão política e do mercado tremenda, nomeadamente sobre a educação e as escolas, procurando convencer-nos que não somos nada nem ninguém sem uma elevada performatividade tecnológica. Certamente que esta é uma componente fulcral dos tempos que vivemos, mas, reduzidas as coisas a esse aspecto, corremos o risco de criar um enorme vazio cultural e espiritual, deixando, ao mesmo tempo, os bolsos de alguns bem cheios.


AB: As corporações de mídia se encarregam de ensinar às pessoas o que elas precisam para serem consumidoras dos serviços de comunicação e informação. Mas fica defasado o aprendizado necessário para usar essas ferramentas como cidadãos.


MP: Exactamente, as políticas públicas, neste domínio, são um ponto nevrálgico. E com grande impacto num terreno que, pelo menos em Portugal, conheço bem. A um político é muito mais fácil e compensador inaugurar uma sala com computadores ligados em rede, convocando para o acto, os focos mediáticos, do que investir em programas que ajudem a compreender as redes e a saber tirar partido delas para a vida de todos os dias.


AB: A mim me parece importante saber usar o computador para resolver questões importantes da vida: adquirir informações úteis sobre direitos e deveres na vida pública, saber encontrar canais institucionais para ter voz como cidadão, saber localizar informações seguras para tomar partido frente a questões controversas, saber se preservar da exposição não desejada... Saber bloquear o assédio que não nos convém nem a nossos filhos, saber o que fazer quando se sentir de alguma forma lesado... Quem vai ensinar isso a todos os usuários? Quantos sabem isso?


MP: Concordo. Acrescentaria também a capacidade de verificar/validar informação e sítios informativos ou de outra natureza.


MM: Aproveitando então essas colocações, já lanço uma segunda questão, que tem a ver com o que vocês comentaram antes: Vocês concordam que a Internet é um meio que poderá conduzir-nos a uma crescente homogeneização da cultura de forma geral e é, ainda, um canal de construção do conhecimento a partir da transformação das informações pelos alunos e professores? Em geral vocês já responderam com os comentários anteriores. Se quiserem fazer alguma outra colocação só para deixar claro algo que ficou pendente.


AB: Quem sou eu para dizer se sim ou se não... Mas minha experiência e repertório me levam a crer que o papel da educação é se centrar nos instrumentos congnitivos necessários para tirar proveito das mídias, sejam elas os jogos em rede, os jornais que lemos todos os dias ou os clássicos da literatura. Se isso fosse feito, talvez nem fosse preciso discutir tanto isso e aquilo da vida com a Internet.


MP:Só diria, a esse propósito, que a Internet é um ambiente que nos é 'vendido' como 'espaço a ocupar', no qual alegadamente todos temos as mesmas oportunidades e possibilidades. No entanto, esse ambiente corre o risco de ser sobreocupado e hegemonizado por grupos poderosos que dispõem dos recursos econômicos e simbólicos para tal. Isso exige, de novo, políticas públicas, de âmbito não apenas nacional, e a mobilização de organizações da sociedade civil.


MM: Deixemos a Internet um pouquinho de lado, então. A pergunta 3 é sobre televisão: Raquel Paiva disse em 2000 que "a sociedade constrói prédios e ônibus cujos acessos não são para todos (...) O que diferencia um ônibus da televisão é o fato de que a mídia está em todas as instituições que nos tornam indivíduos." Como fazer, então, para que a formação das novas gerações seja baseada em sua maior parte no que a televisão tem de bom a oferecer?


AB: Em primeiro lugar, é preciso definir o "bom" e o "não bom"... E essa é uma questão extremamente complexa. Quem tem a autoridade para dizer que isso é bom e aquilo não? O caminho, a meu ver, está na condução de um sistema regulatório que garanta diversidade, pluralidade e equilíbrio na programação da TV... Que cada país tenha mecanismos institucionais representativos de todas as forças que competem na sociedade, e que, na medida do possível, a TV represente essas forças de maneira equilibrada... Assim, o MST e a Fiesp, a igreja católica e as associações que defendem os direitos dos homossexuais, os prós e contra o aborto, as patricinhas e os manos apareçam na TV. Tal diversidade, tratada com equilíbrio, em tese, daria às pessoas têm mais chances de formar posicionamentos informados. Completo meu raciocínio resumido dizendo que, para mim, a diversidade e o equilíbrio é que são "o bom" da TV... Mas poucos sistemas de televisão no mundo conseguem pôr isso em prática.


MP: Partilho dessa opinião. Ninguém gosta de comer todos os dias a mesma comida. Mas nós temos, em muitas sociedades, organizações de defesa do consumidor de comida ou de outros produtos 'materiais' e temos muito mais dificuldade de defender a qualidade do 'produto' da mídia. Temos ambientalistas cuidando da biosfera e da sociosfera, mas não temos ambientalistas da noosfera, do mundo do simbólico, do artístico, do religioso, do filosófico.


AB: Da mesma forma que ninguém gosta de receber em casa água contaminada. Então por que a televisão precisa enfatizar violência, intolerância e preconceito, se esses conteúdos poluem a convivência pública civilizada?


MP:Precisamente. Por isso, tenho defendido, nos anos mais recentes, que precisamos aliar o combate pela qualidade de vida dos nossos ambientes físicos e sociais à qualidade do ambiente simbólico, sendo que a componente mediática é hoje agente central dessa paisagem de produção simbólica.


MM: Pois é, digamos que o que falta seria um filtro, uma "fiscalização". E aí entra uma outra questão, que trata das características positivas desse mesmo meio e deixa aberta uma questão: as mensagens audiovisuais exigem pouco esforço e envolvimento do receptor. Suas narrativas usam uma linguagem concreta, plástica, de cenas curtas, com ritmo acelerado, multiplicando os pontos de vista, os cenários, os personagens e os sons, mexendo constantemente com a imaginação e delegando à afetividade o papel de mediação entre o sujeito e o mundo. Levando em conta essas marcantes características, não seriam os meios audiovisuais os melhores instrumentos de educação para as crianças, especialmente as das novas gerações? (Incluímos novamente a Internet aí). Lanço a pergunta considerando o fato de crianças e jovens se interessar mais por esses meios do que pelos livros; considerando que eles têm uma maior assimilação de conhecimento através dos meios audiovisuais.


AB: Cada mídia tem seus códigos próprios e todos os códigos permitem que certas idéias sejam expressas, mas outras não. Todo ser humano tem a difícil tarefa de lidar (ou duelar, como diria Roland Barthes) com os constrangimentos impostos pelas linguagens...Não concordo que a linguagem da TV exija pouco esforço, quem faz isso é o modelo comercial hegemônico. A linguagem audiovisual em si é potencialmente rica e difícil... Portanto, o uso da TV com propósitos educativos é um meio importante, desde que haja uma produção específica para esse fim. Essa TV educativa (ou didática) seria mais um código, junto com todos os outros que a escola utiliza. Privilegiar este ou aquele meio traz vantagem para a empresa que produz neste ou naquele... À escola, cabe a tarefa de lidar com os códigos do seu tempo.


MP: A partir da realidade de que falo, creio ser cada vez mais necessário colocar o meio televisivo num quadro de diversificação das plataformas, em que teriam de figurar também os jogos electrónicos e os celulares (que são tudo menos ...telefones!). Dito isto, é preciso considerar que, para muitas crianças e suas famílias, a TV continua a ser uma forma importante de abertura para um quotidiano de horizontes reduzidos. Em palavras mais simples: alarga a visão do mundo.

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