sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

Jovens e produção textual

Em materia do suplemento Megazine do jornal O Globo (19/05/2009), a produção textual escrita da juventude deste final de primeira década do século XXI, foi colocada em xeque. Textos condensados, ultra sintéticos, abreviados, “econômicos” são questionados e seus suportes são, de certa forma, responsabilizados pelo fracasso da produção textual de jovens em exames como os vestibulares, ENEM e similares. Sem pretender satanizar ou santificar o MSN ou até mesmo o mais jovem e vertiginoso parente das novas ferramentas de comunicação – o Twitter – volto com uma reflexão que pode contribuir, ao menos, para que não nos desesperemos com a ideia de que a palavra escrita está morrendo: por que os sites de relacionamento não podem prescindir da palavra escrita?

Mesmo podendo estabelecer conversas com imagem e som (bastando uma webcam, microfones e caixas de som) ainda assim, o diálogo escrito é líder de audiência em sites de relacionamento. Creio que isso se deva a uma virtude ímpar da aliança entre a palavra escrita e a internet (e o MSN explora muito bem tal virtude): a capacidade de estabelecer conversas quase simultâneas. Isso é impossível por meio da voz. Falar com vários interlocutores ao mesmo tempo gera muita confusão (e incompreensão) Já no Messenger você conversa, ao mesmo tempo, com vários interlocutores.Você se torna um verdadeiro administrador de conversas. Isso é extraordinário: estabelecer diferentes diálogos, simultâneos, sem misturá-los, sem confusão.

Digo tudo isso para reafirmar que as novas tecnologias não eliminam códigos anteriores, mas antes, os reposicionam. A palavra reposicionada na internet é abreviada, sintética, quase consonantal, mas continua sendo a palavra escrita, baseada num código alfabético, linear, seqüencial, analógico. A geração web 2.0 parece desconhecer a idade desta senhora, mãe e avó da geração analógica e a trata como uma “bff” (best friend forever), explorando suas inúmeras possibilidades, criando novas abreviaturas, alguns neologismos, pouca rigidez gramatical e sintática além das heresias ortográficas que cometem.

Sem ter consciência de que a palavra regula e organiza o pensamento, esta nova geração usa e abusa da palavra escrita para enviar mensagens instantâneas, intensificando práticas dialógicas, restaurando o saudável hábito da troca de correspondências e contrariando uma previsão feita no início deste século de que a internet e os computadores suprimiriam a escrita ou estariam “atropelando-a”.

Enquanto não inventarem nada melhor para colocar no lugar, a palavra escrita, soberanamente, continuará comandando a comunicação interpessoal à distância. Resta-nos investigar com profundidade o que realmente muda e o que realmente permanece nesta relação entre a internet e a palavra escrita. Trata-se de um campo de pesquisa grande, pouco explorado e promissor.

Artigo de Marcos Ozório/Blog Humano

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