quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

Professores criam rede distrital de educação para a mídia em Portugal


Cerca de 40 professores de escolas de Castelo Branco, distrito de Portugal, criaram uma rede de colaboração no âmbito do Projeto Educação para a Mídia, na região de mesmo nome. A rede pretende ser uma espaço de discussão para troca de idéias para a melhoria dos jornais escolares, em cada escola, além de debates sobre estratégias pedagógicas de educação para as mídias com os alunos.

Em 12 das 24 escolas que aderiram ao Projeto Educação para a Mídia os professores consideraram que o DVD “Vamos fazer jornais escolares” - usado no projeto - teve impacto na produção do jornal escolar, pois os alunos tiveram uma maior preocupação com o nível da estrutura dos artigos, além de terem escrito mais, demonstrando mais entusiasmo, gosto pela descoberta e uma maior autonomia nas suas produções.

Os docentes apontam a falta de tempo como um dos entraves ao desenvolvimento do trabalho com os alunos, bem como o facto dos equipamentos informáticos nem sempre estarem disponíveis ou funcionarem corretamente. Apesar disso, Vitor Tomé, um dos mebros da equipe que pesquisou os resultados do projeto, considerou que o trabalho dos professores e dos alunos foi notável.

Ele disse ainda que a existência do DVD, validado por especialistas, professores e alunos, do manual de apoio, da plataforma de produção de jornais on-line e do site do projeto não são suficientes. "O trabalho dos professores é decisivo, desde o tempo que dedicam à produção do jornal, à auto-formação na área e apoio aos alunos, no sentido de que estes possam ser progressivamente mais críticos em relação dos conteúdos dos meios, além de serem produtores de conteúdos para publicar no jornal escolar e em outros suportes, seja em papel, seja on-line.

Já os avaliadores internacionais do Projeto, Pier Cesare Rivoltella (Universidade Católica de Milão) e Evelyne Bevort (diretora-delegada do Clemi, do Ministério de Educação de França), afirmaram que será decisivo o fato dos professores envolvidos no projecto estabelecerem objetivos claros a atingir com os alunos na área do jornal escolar e da Educação para a Mídia.

“Não é preciso definir muitos objetivos, mas sim um, dois ou três objetivos claros a atingir pelos alunos, em consequência do trabalho desenvolvido para o jornal. Os objetivos podem incidir na produção de texto, na leitura, no trabalho de equipe, na criação de um meio de comunicação da escola, na aprendizagem da cidadania. Podem incidir no desenvolvimento do sentido crítico através da análise de conteúdos da mídia também. Importa é que se possam avaliar os progressos no final do ano”, afirmou Evelyne Bevort.

O essencial é que os objetivos sejam progressivos, pois “é preciso passar das competências de produção às competências sociais”. E tal só será possível se os docentes, quer os do projeto, quer os das escolas envolvidas, façam a ligação dos conteúdos que lecionam à realidade exterior, ao que é atual e que é veiculado pelos meios de comunicação. “Esta ligação não se faz automaticamente. A análise crítica tem de ser potenciada, bem como a produção reflexiva”, ressaltou ainda.

Evelyne Bevort citou ainda duas avaliações da produção crítica de mensagens midiáticas (como acontece no projeto de Castelo Branco), uma na Bélgica (1996-2000) e outra na Inglaterra (2007), as quais concluíram que os alunos demonstravam maior interesse e motivação na produção, melhoraram o desempenho escolar e a relação com os colegas de turma, além de terem feito progressos na escrita e em termos de trabalho de grupo.

Alertou, porém, que é necessário estar atento ao trabalho desenvolvido pelos alunos, pois os mesmos estudos apontaram como pontos fracos a criatividade, por vezes insuficiente, dado que os alunos copiam muitas vezes os temas veiculados pelas mídias mais importantes. Por isso concluiu: “O desenvolvimento do espírito crítico é variável em função da ação dos professores. E se é verdade que a produção de mensagens midiáticas não chega, também é certo que ela é e será cada vez mais importante. Tem é de estar associada a um projeto de educação e ligada à cidadania. E importa dizer que os conteúdos são sempre mais importantes que a forma”.

O italiano Pier Cesare Rivoltella que visitou, em conjunto com Evelyne Bevort, três escolas do Distrito de Castelo Branco, considera que “o projeto Educação para a Mídia no Distrito de Castelo Branco deve contribuir para que a escola de hoje não seja a mesma que a escola de ontem, pois ela tem de ser capaz de habilitar os jovens a prepararem-se para a sociedade da informação e da comunicação, uma sociedade onde todos somos autores, onde todos podemos publicar e produzir mensagens”.

Ao contrário do que se pensa e se diz normalmente, Rivoltella acredita que os jovens de hoje lêem e escrevem muito, só que o fazem de forma diferente da tradicional, pois dominam os SMS, as redes sociais, entre outras. Nesse sentido, considera que é preciso captar os jovens, indo ao encontro dos seus interesses. Uma das possibilidades é através do jornal na sala de aula, o qual pode ser importante ao nível da didácica e da educação em geral.

Em termos de didática, refere à aprendizagem de línguas, da leitura, bem como o valorizar das competências dos alunos. “Há alunos que podem ser melhores na escrita. Mas outros podem preferir fazer fotografias ou trabalhar em termos do grafismo do jornal. Mas é possível chegar a todos, desenvolvendo diferentes competências”, diz. Na didática inclui ainda a introdução da atualidade na sala de aula, as trocas inter-professores e professores-alunos, o estimular da colaboração dos pais e de uma maior coordenação com todas as entidades ligadas à educação. Rivoltella destaca ainda a necessidade dos professores fazerem evoluir as suas práticas.

Em termos de educação, numa perspectiva de Educação para a Mídia, aponta como fundamentais o aprender que há uma diferença entre fato e notícia. Que a notícia é sempre uma contrução e nunca a realidade; que há uma enorme diferença entre informação e conhecimento, pelo que é necessário saber procurar, selecionar e avaliar informação. “É preciso saber avaliar criticamente o que se lê e o que se produz”.

Em conclusão, Pier Rivoltella considera que é urgente integrar a Educação para a Mídia nos currículos, formar professores em termos técnicos e na reflexão sobre as práticas, ligar a escola ao espaço informal, avaliar os alunos de forma diferente e fomentar a troca de experiências.

Fonte: Jornal Reconquista/ Castelo Branco (Portugal)

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