segunda-feira, 5 de julho de 2010

Ensino personalizado ou orientação personalizada

Reproduzimos abaixo texto de TiagoDF, do Educomunicação, espaço virtual que sempre nos inspira e nos dá dicas maravilhosas!
A revista norte-americana The Atlantic na sua mais recente edição publica um texto extremamente interessante sobre um projecto ainda em fase de testes em Nova Iorque que tem como objectivo personalizar a 100% o ensino. Por agora apenas aplicado à matemática, mas no futuro, caso corra bem, o plano é expandir a experiência.

Intitula-se School of One e pretende ajustar o ensino a cada pessoa. Literalmente a cada pessoa numa escola. O processo, conforme explica o artigo da The Atlantic, é o seguinte:

"Primeiro, o estudante e os seus pais e professores são inquiridos sobre os hábitos deste na sala de aula. Depois, o aluno preenche um teste diagnóstico para verificar quão bem compreende matemática básica. Esses dados são enviados para a sede do Departamento de Educação de Nova Iorque, onde o algoritmo da School of One produz um plano de aulas preliminar. Esse plano é então enviado aos professores do aluno, que o revêem conforme acharem adequado. No fim de cada dia o aluno faz outro teste diagnóstico breve, usado para criar outro plano de aulas provisório que chega às caixas de correio dos professores pelas oito da noite".

O projecto está a ser testado numa escola no Bronx, em Nova Iorque, cuja maioria dos estudantes é proveniente de classes baixas. Podem visitar o blogue do director da mesma, Jason Levy, aqui. A escola tem Internet sem fios, foi dado acesso a um portátil a todos os jovens e os trabalhos de casa são enviados por e-mail.

Segundo o artigo, o actual director implementou um esquema básico de educação personalizada que agrupava professores para que dedicassem atenção em conjunto a alunos com problemas de aprendizagem. Os resultados foram estonteantes. De 9% de alunos que estavam ao nível do seu ano de ensino a matemática, passou-se para 62%.

O autor do artigo, que se descreve a si mesmo como alguém com problemas de aprendizagem que desistiu da universidade, retrata uma sala de aula da escola da seguinte forma: "À frente da sala, um grande monitor, como o painel de chegadas de um aeroporto, identifica cada aluno na sala e a mesa onde ele ou ela deve estar a trabalhar".

E assim chegamos à parte que me traz aqui. A dada altura no artigo, o jornalista explica que no liceu lhe foi dado a ler Macbeth de forma orientada, programada. Chumbou e acabou por sair da escola. Na secundária seguinte, o professor deu o livro aos alunos e disse-lhes para irem ler. Sozinhos. Depois falavam sobre o conteúdo. "Alguns alunos conseguem ficar sentados muito tempo numa sala de aula, outros não. Não é necessariamente uma dificuldade de aprendizagem. Talvez precisem de apreender a informação de forma diferente", diz Blair Heiser, um professor de matemática do programa.

Um académico citado no artigo, Daniel Willingham da Universidade de Virginia, explica que "geralmente só se tem uma oportunidade na escola. E se não se é bom a ler ou a fazer contas, desliga-se e escola transforma-se num local onde não se é feliz, onde se vai para se falhar".
O artigo acaba com o jornalista a dizer o quanto o aborrecia usar o computador na escola. Porque era usado da mesma forma que a caneta e o papel: "o(a) professor(a) à frente e todos nós a seguirmos".

Se há coisa da qual me tenho apercebido nos últimos meses é que não só temos um problema com a "marca" Educação, como dizia Kathleen Tyner há poucas semanas, mas temos um problema com a aproximação aplicada a essa educação. Como refere um professor no artigo, até os professores de música têm de passar a perceber que também estão a ensinar a ler.
Uma frase que ouvi da boca de várias pessoas nos últimos dias foi "as literacias complexificaram-se". E, a ser assim, o ensino tem de acompanhar essa movimentação, como devia acompanhar todas as outras. A literacia talvez continue a mesma, mas estilhaçou-se. Espalhou os níveis para os quais é preciso ser fluente, mas não diminuiu a exigência, pelo contrário. E se a escola não corre à frente dessa exigência, percebendo o seu caminho, então abdica da sua responsabilidade.

Fonte: Educomunicação/ TiagoDF

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