segunda-feira, 16 de agosto de 2010

A censura moralista

Análise da professora Marisa Lajolo (*) sobre a distribuição de livros nas escolas brasileiras para o Estadão.edu
Boa leitura!

Há tempos que a leitura está em pauta. E, diz-se, em crise.

Comenta-se esta crise, por exemplo, apontando a precariedade das práticas de leitura, lamentando a falta de familiaridade dos jovens com livros, reclamando da falta de bibliotecas em tantos municípios, do preço dos livros em livrarias, num nunca acabar de problemas e de carências.

Mas, de um tempo para cá, pesquisas acadêmicas vêm dizendo que talvez não seja exatamente assim, que brasileiros leem, sim, só que leem livros que as pesquisas tradicionais não levam em conta. E, também de um tempo para cá, políticas educacionais têm tomado a peito investir em livros e em leitura. Vários são os programas que distribuem livros à escola pública e a seus alunos, realizando com este gesto, o velho sonho do poeta Castro Alves, que em meados do século XIX conclamava "Semeai livros, livros a mancheias, fazei o povo pensar".

A distribuição de livros a alunos, assim, segue na esteira de um grande poeta e, quando se segue um poeta, dificilmente se erra... Ou seja, tais programas são acertadíssimos.

O caso, no entanto, é que muitas vezes os livros distribuídos às escolas desagradam pais e educadores que acreditam que certas temáticas são – para dizer o mínimo – deseducativas. É claro que é ótimo que pais e mestres se preocupem com o que leem seus filhos e seus alunos. Melhor ainda seria que eles se preocupassem também – sempre e muito – que seus alunos e filhos lessem. Mas, de qualquer maneira, discutir livros e leituras é sempre importante quando a questão maior é a educação que se quer. O que não é nada ótimo é quando a discussão sobre o que leem os jovens passa a ser pautada pela censura moralista que vê, na temática de certos livros, riscos para... Para o que mesmo? Para a saúde psíquica? Para a moral? Para o comportamento dos jovens? Para tudo isso?

Certas religiões não admitem livros que falem de bruxas e de magos, algumas pedagogias expulsam dos contos de fadas a figura da madrasta malvada ou das cantigas de recreio a dona Chica-ca-ca que atirou o pau no ga-to-to. Mas campeões de reclamações, às vezes ásperas e estridentes, são os livros que trazem questões de sexualidade para linhas, entrelinhas e ilustrações.

É muito bom que os adultos responsáveis pela educação dos jovens – isto é, família e escola – se preocupem com os valores que, fazendo a cabeça da moçada, formatam a personalidade e inspiram atitudes e comportamentos. Mas é também extremamente ingênuo acreditar que livros, por si, são capazes de degenerar valores, ou induzir comportamentos indesejáveis. Se os livros tivessem toda esta força, estaríamos bem servidos: a Bíblia – livro acima de qualquer suspeita – é o grande best-seller do mundo ocidental.

Mas os livros (infelizmente?) não têm sempre esta força toda.

Livros, hoje em dia, quase nunca são o meio de comunicação que, com mais eficiência, faz a cabeça das pessoas. O otimismo de nosso poeta baiano – o livro caindo n´alma/ é germe que faz a palma/ é chuva que faz o mar – talvez não se aplique a nosso tempo. Hoje, o livro tem sérios concorrentes na tarefa de fazer o povo pensar.

O que a televisão transmite, o que se acessa pela internet e o que nos seduz em outdoors talvez tenham muito mais força do que as páginas do volume que lemos. E, face a todas estas mídia, somos mais passivos do que somos face a um livro, sobretudo um livro em torno do qual escola e família podem propor atividades, instigar discussão e reflexão.

Mas, por que um ou outro título, dentre os distribuídos a alunos de escolas públicas, causa polêmica? Porque lidam com a sexualidade e a sexualidade foi sempre um tabu. Na cultura brasileira, a forma de lidar com este tabu parece ser, preferencialmente, excluir a sexualidade do discurso dirigido a crianças e jovens. Do desacerto desta opção fala, por exemplo, o espantoso número de adolescentes grávidas e o assustador crescimento da prostituição infantil. E ninguém pode culpar os livros por esta situação: afinal, não se reclama que os jovens não leem?

A partir dessa constatação, pode ser interessante virar a questão pelo avesso, pensar se o que se precisa não é, exatamente, discutir à luz do dia – isto é, na sala de aula e nas salas de jantar – cenários de sexualidade. Pois sexualidade não é apenas uma questão de biologia, de aparelho reprodutor e de hormônios. É uma questão de como se orquestram os hormônios e o que a sociedade constrói em torno da reprodução.

A história parece mostrar que quando estas práticas da sexualidade não encontram espaço arejado de discussão – como pode oferecer a arte a literatura na escola e na família – elas migram para uma atmosfera viciada do interdito que nada ajuda a formação do jovem. Um trecho do diário de Gilberto Freyre ilustra o que quero dizer:
(...) quando eu tinha 8 anos, em vez de ler somente o Tico Tico, lia também, indevidamente, O Malho. Um dia encontrei n´O Malho, na legenda de uma caricatura, a palavra “meretriz”. Perguntei àqueles dois: “que é meretriz”? Nenhum deles respondeu. Mas os dois – meu Pai e meu Tio Tomás – riram alto, deixando-me atrapalhadíssimo.

Nós todos, pais e mestres, educadores em geral, precisamos escolher: vamos discutir o que é meretriz? Ou vamos esconder melhor os volumes de O Malho? Ou vamos até pedir que a publicação seja suspensa? Com a palavra, cada um de nós. E, para ajudar na reflexão, um belo texto do professor Antonio Cândido, parte de uma conferência feita na SBPC (Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência) em 1972, com o qual se encerram estas mal traçadas:
A literatura pode formar, mas não segundo a pedagogia oficial que costuma vê-la ideologicamente como um veículo da tríade famosa – o Verdadeiro, o Bom, o Belo – definida conforme os interesses dos grupos dominantes, para reforço de sua concepção de vida. Longe de ser um apêndice da educação moral e cívica (esta apoteose matreira do óbvio, novamente em grande voga), ela age com o impacto indiscriminado da própria vida e educa como ela, com altos e baixos, luzes e sombras. Daí as atitudes ambivalentes que suscita nos moralistas e nos educadores, ao mesmo tempo fascinados pela sua força humanizadora e temerosos de sua indiscriminada riqueza. E daí as duas atitudes tradicionais que eles desenvolveram: expulsá-la como fonte de perversão e subversão ou tentar acomodá-la na bitola ideológica dos catecismos. (...) Dado que a literatura, como a vida, ensina na medida em que atua com toda sua gama, é artificial querer que ela funcione como os manuais de virtude e boa conduta. (...) Ela não corrompe nem edifica, portanto; mas, trazendo livremente em si o que chamamos o bem e o que chamamos o mal, humaniza em sentido profundo porque faz viver.

* Marisa Lajolo, professora-doutora em Letras, curadora do Espaço do Professor na 21ª Bienal Internacional do Livro de São Paulo e organizadora de “Monteiro Lobato: livro a livro” (Prêmio Jabuti de melhor livro de não ficção, 2009)

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