terça-feira, 3 de agosto de 2010

Lanza en astillero

Lanza en Astillero (“Lança no estaleiro”) é uma antologia de 20 curtas histórias que adaptam um episódio (ou o transformam) da famosíssima obra de Miguel de Cervantes, El ingenioso hidalgo Don Quixote de la Mancha. Apesar de ser editado pela Câmara dessa região espanhola, o louvor da acção recairá seguramente em Jesús Cuadrado, conhecido autor e paladino dos tebeos no país vizinho e, claro está, dos 28 artistas – desenhistas, ilustradores, escritores – que embarcaram no projecto (se aumentarem a imagem, conseguirão ver a lista completa na portada).


Um pouco dos preliminares do projecto: Cuadrado fez uma selecção muito directa nos convites que fez, considerando artistas específicos que, segundo o mesmo autor, “representam a autoria num estado puro, caracterizando-se pela forma como rompem com a linguagem convencionalmente industrializada, ao mesmo tempo que estão inseridos nos movimentos estéticos mais radicais da banda desenhada que surgiu e foi publicada desde os anos 80”. Se bem que estejam presentes artistas que de facto e claramente se inserem nessa descrição estética (o exemplo gritante de Stefano Ricci, por exemplo), há outros tantos que não me parecem se demarcar substancialmente de uma aproximação mais “classicizante”. Isso não quer dizer “trabalho fraco” ou “displicente”, de forma alguma; simplesmente há que recolocar os termos dos trabalhos apresentados.


Os artistas foram convidados, com toda a liberdade possível, a escolherem um “fragmento” qualquer das duas partes do Quixote, passando à sua reescrita em banda desenhada, com as seguintes restrições: “cinco páginas verticais, em tintas bitonais (tons terra ou siena)”, mas sob as técnicas mais habituais da banda desenhada, como e se preferissem. Pedia-se ainda que a selecção do episódio fosse mantida em segredo em relação aos outros autores, para que, no caso de coincidência, se pudessem prestar a diferentes interpretações do mesmo, acedendo-se assim a “uma riqueza acrescentada à obra colectiva ao surgir uma confrontação estética em si mesma e pelas possíveis dualidades ou coincidências”. E afinal, é o que acontece, com cinco instâncias do mesmo episódio da “Las cortes de la Muerte”, pela mão de Filipe Abranches, Miguel Calatayud, Denis Deprez, e ainda Miguel Ángel Ortiz com Álvaro Ortiz. A eles voltaremos mais adiante.


A obra de Cervantes é uma daquelas obras para a qual os adjectivos existentes não presta homenagem suficiente... magnífico, sempiterno, esmagador, parecem aquém; clássico parece banalizá-lo; genial um crime intelectual. Talvez a mais extraordinária maneira que alguém alguma vez se expressou sobre este(s) livro(s) tenha sido a do cervantista e poeta catalão Marti de Riquer que, face a uma pessoa que jamais tinha lido o Quixote, disse: “Felicidades, porque ahora tiene la. oportunidad de pasárselo muy bien”. E, realmente, não há provavelmente melhor leitura feita do Quixote do que a primeira – e aconselho que seja feita com vontade, sem demoras e interrupções. Para os que puderem (e não é difícil, os dicionários existem para isso), leia-se no original. O Quixote é uma daquelas obras literárias que consegue, ao longo dos tempos e das atitudes, receber qualquer nome, qualquer apodo, qualquer interpretação (um pouco, mas bem diferentemente, do que o nosso “clássico”, Os Lusíadas): inclusive a de “pós-moderno”. Afinal, é Cervantes quem inventa o romance moderno, e é lá que existem todas as raízes daquilo que fundamentaria a literatura do século XX: a “corrente de consciência”, a “transliterariedade”, o “experimentalismo de géneros”, a “dissertação metalinguística” e “metaliterária”, e tantas outras assombrosas torções artísticas. Por exemplo, para quem não o souber já, Cervantes não planeava escrever uma segunda parte, mas face à quantidade de obras, que não do seu punho, que surgiram na esteira da sua, colocando a sua personagem ora por episódios demasiado ridículas para Dom Alonso ou demasiado elevadas, mas todas descaracterizadoras, Cervantes resolveu atacar essa praga, escrevendo essa derradeira segunda parte, onde Quixote chega a encontrar-se com “outro Quixote”, e na qual o seu autor, provavelmente de forma dolorida, lhe põe fim à sua vida.


Para além disso, estou em crer que talvez a grande força desta obra seja a permanente dúvida que atravessa os livros – ou melhor, a dúvida que se vai insinuando e crescendo ao longo da obra: serão estas aventuras alucinações de Dom Alonso (e esqueçam as adaptações a cinema, mesmo as incompletas, as resenhas, as anedotas e, pior ainda, os desenhos animados) ou serão elas interpretações da realidade a que os restantes são cegos? Aliás, é esse o âmago do episódio que, na minha opinião, é o mais impressionante em toda a obra (fora amigos que já sabem, quem adivinhar, receberá um prémio). Por outro lado, há uma série de dados fundamentais que é preciso ter em conta antes de colocar sobre a obra sentidos ou valores que se “encaixem mal”. Por exemplo, Cervantes escolheu a Mancha precisamente por não se passar lá nada.


Agora é fácil construir discursos que elogiem Castilla La Mancha a partir da obra do escritor, claro, mas a escolha dele incidiu num espaço no qual jamais haveria uma escolha lógica para cenário de aventuras cavaleirescas. Depois, como no próprio livro é indicado, o patronímico de Dom Alonso, de várias grafias possíveis (Quijada, Quesada, Quejana, Quijano), não é castelhano, nem é associável a nada – independentemente das recriações posteriores -; ligar-se-á, dizem uns, à parte da armadura que protege o queixo (“queixada”), a outra parte um pouco mais a sul, asseguram outros. O importante é que não é um nome, à partida, de ressonância épica, nem heróica. Mais uma vez, não obstante o que se desejou fazer dele depois, sobretudo política e nacionalmente. Dom Quixote não é como Os Lusíadas, programado como um elogio e um canto épico, é uma obra mergulhada numa das mais subtis ironias e amores à literatura de que há memória. Daí que sejam possíveis todas as interpretações, reinterpretações, reinvenções e até sobreinterpretações (Eco), ainda assim criativamente aceitáveis (“Quixote no espaço”, mas também “Madame Bovary” ou “Pierre Ménard, autor del Quijote”).


Tal como se aplicará certamente a outras obras sob “adaptação”, face a esse poderosíssimo manancial, perante a força esmagadora dessa obra, o seu tratamento deve ser feito de uma forma confiante, directa mas reinventiva. Não se podem dar ao luxo de meramente ilustrarem um episódio, sem lhe dar nada de novo, correndo o risco da futilidade. Nesse aspecto, metade das colaborações deste livro pecam pela mera recriação das palavras de Cervantes, dando-lhes corpo gráfico, e até mesmo esse tão débil quando o corpo físico de Alonso – meras “bds”, quase feitas sob aquele signo da “adaptação passível de uso nas salas de aula”, cuja bitola obriga desde logo a simplificar e facilitar.
Vejamos, pois, a outra extremidade, aquelas que de facto atingem um ponto alto na e da banda desenhada, ainda assim com ou pelo material do Quixote. Em primeiríssimo lugar, há que apontar o trabalho de Anke Feuchtenberger (imagem 1), que mais uma vez prova que onde outros dão pontapés para o pinhal, ela descose a bola e retradu-la num tecido novo. Feuchtenberger recria todo o Quixote, plasmando-o nos seus temas particulares, numa alegoria concisa, chegando mesmo a mesclar o corpo de Don Alonso com o da sua Dulcineia (“...surge em mim o mesmo odor que parecia existir na minha doce senhora Dulcineia”), e demonstrando que as fronteiras do homem e da mulher, do humano e do animal e do objecto, da vida e da morte, não são abruptas, mas se imiscuem uns nos outros como duas substâncias viscosas. Stefano Ricci está logo a seguir, tendo eleito Rocinante como sua personagem principal, e o modo como se relaciona com a morte “de su amo”, numa espécie de curtíssima peça do teatro absurdo de um acto: é como se Rocinante, o Quixote, a sua morte na sua casa, fosse uma desculpa para falar do modo como nós, hoje, nos afastamos da experiência da morte (dos outros) – relegando-a para os hospitais, por exemplo, e não a aceitarmos como parte da nossa vida, dentro de um círculo íntimo (Micharmut tenta fazer também uma reapropriação do episódio escolhido para o transfigurar numa experiência contemporânea, mas não me parece que tenha atingido um nível feliz de criação; a analogia feita é um pouco primária).

Depois, seguem-se as adaptações competentes e que trazem prazer ao olhar, mesmo que não nos recoloquem a questão do Quixote. Nesse grupo, também restrito, apontaria a Filipe Abranches (imagem 2) e a Denis Deprez (imagem 3), tendo ambos trabalhado o mesmo episódio (v. acima) e ambos preferindo reduzir ao mínimo as informações – personagens, cenário “despido”, concentrar as imagens sobre as máscaras dos actores como se nelas residisse todo o significado da ilusão (novamente: de quem?). O despojamento de Deprez passa pelo uso da aguarela, de cinzentos disseminados, e o de Abranches é o branco intocado, o qual rima ainda com o “silêncio” de algumas das vinhetas, concentrando antes o início num complexo jogo de olhares entre as personagens, interrompendo o diálogo com o roubo do asno, e terminando como que num arco completo da acção e humor de Quixote. Outro artista igualmente interessante é Pablo Auladell, que me recorda alguns aspectos de um Markus Huber, com uma geometrização absurda dos corpos, e condensando redondamente o episódio do Clavileño, o cavalo de pau, o qual termina (aqui) precisamente numa das frases que sublinha para quem tem olhos de ver a grande questão do livro de Cervantes – quem se ilude com o quê?
Algumas das restantes participações conseguem ser prazenteiras até certo ponto, mas algo desiludidas em relação a trabalhos anteriores dos autores mais conhecidos (Max, Miguelanxo Prado) ou curiosas superficialmente mas pouco mais dos menos famosos (Carlos Nine, Jorge González). Outras não são mais do que exercícios de redução gráfica, infelizmente. Ainda assim, a convivência de todos estes trabalhos pode ser fruto de uma concessão (livro apoiado por uma instituição política, discursos sob uma vontade de elogio de La Mancha, em contrário do profundo significado de Cervantes), e não deixa de ser um exercício salutar de edição, também pela qualidade geral atingida, e que podia ser entre nós imitado, já que as experiências locais/camarárias, afora um ou dois exemplos felizes de livros ilustrados por um artista, não se têm verificado da melhor forma. E não se deve à falta de “Quixotes”...
do site português Ler BD

Fonte: Blog Nona Arte (Parceiro do blog culturmamidiaeducacao)

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