terça-feira, 3 de agosto de 2010

"Vida para consumo: A transformação de pessoas em mercadoria"

Confira a resenha do livro "Vida para consumo: A transformação de pessoas em mercadoria", de Zygmunt Bauman, feita por Roberta Nardi.

“Talvez não exista pior privação, pior carência, que a dos
perdedores na luta simbólica por reconhecimento, por
acesso a uma existência socialmente reconhecida, em
suma, por humanidade.”
Pierre Bourdieu, Meditações pascalianas

Analisando as relações humanas a partir da ótica do mercado consumidor, Bauman discute em “Vida para Consumo” aspectos centrais do fetichismo que as mercadorias passam a exercer sobre os consumidores, fazendo-os não só se sentirem, mas portarem-se como mercadorias. A facilidade de acesso à internet transporta o processo de produção de informações para um patamar instantâneo, que vai desde o simples ato de ler um jornal em formato on-line até compras dos mais variados produtos, realizadas com muito mais praticidade e segurança pelos exigentes clientes “plugados”.

Com conteúdo totalmente relevante à realidade atual, o livro aborda a questão do fenômeno das redes sociais que, numa onda avassaladora, apresentam-se como novos canais de mediação das relações sociais. Hoje, através de comunidades on-line, são estabelecidos novos padrões de contato, novas formas de obter informações diversas e estabelecer relações afetivas que transpõe a distância física, sendo suprida apenas pelo simples toque da tela. Sobre esta ótica, Bauman alerta para o problema da inabilidade social cada vez mais presente na realidade de países imersos na era digital. Onde os indivíduos após se acostumarem aos relacionamentos on-line, perdem sua capacidade autêntica e espontânea de socialização.

De forma intrigante, o autor apresenta o modo como, nos dias atuais, as relações sociais passam a ser mediadas pelo consumo. Consumo este, não necessariamente de produtos, mas de hábitos, valores e aparências. Os indivíduos, a partir da exposição aos padrões (de beleza, consumo, ideológico...) impostos pelo mercado, passam inconscientemente a portarem-se como objetos de consumo. Na sociedade de consumidores, ninguém pode se tornar sujeito antes de se tornar mercadoria. Seja pela posse de objetos de consumo desejáveis, ou pela sua própria transformação em padrões socialmente mais aceitos e destacáveis. A valorização excessiva do corpo e a cultura imediatista que impera sob o medo de tornar-se obsoleto e ser posto à margem da sociedade de consumidores, transpõe a razão dos indivíduos que buscam incessantemente meios de livrar-se de todo o mal-estar e insatisfação, provocados por tudo o que é visto como ultrapassado pelos demais.

Diferentemente da sociedade de produtores, onde os indivíduos eram treinados e doutrinados desde o nascimento para agir dentro de ambientes que lhes seriam fonte de subsistência, a sociedade de consumidores assume, como conceitua Bauman, a fase líquida da modernidade. Onde, teoricamente, não existe uma ideologia a ser imposta, mas posicionamentos intocáveis e dissolúveis que necessitam ser cumpridos, para que se consolide o sentimento de pertencimento social. A catequese dos novos consumidores começa desde o berço, quando o mercado visa conquistar crianças para garantir o consumo fiel quando adultas, envolvendo-as com seu discurso e passando a fazer parte do processo de construção moral de suas vidas.

“Tão logo aprendem a ler, ou talvez bem antes, a “dependência das
compras” se estabelece nas crianças. [...] Numa sociedade de
consumidores, todo mundo precisa ser, deve ser e tem que ser um
consumidor por vocação” (p. 73)

Aspectos como o desejo pela fama e o consumo excessivo, característicos da atual sociedade, apresentam-se como representações típicas da fragmentação social que vivemos onde obrigatoriamente é necessário se tornar notável e a posse de objetos ultrapassados passa a ser vista como sinônimo de estupidez pelos demais (p.51). O surgimento de necessidades incessantes e a promessa de felicidade e satisfação a cada nova compra movimentam a economia e transmitem aos consumidores “novas vidas” e novas chances de renascimento social a cada compra bem sucedida.

Bauman observa um fato interessante a respeito da sociedade de consumidores, como sendo talvez a única na história a prometer aos seus “membros” felicidade na vida terrena. A não aceitação da infelicidade, e a recusa de não gozar e buscar a plena satisfação a todo tempo, para a sociedade de consumidores é vista como atitude criminosa, passível de discriminação como forma de punição social pela não-adequação ao modelo imposto.

A construção de “Vida para consumo” apresenta-se como um enorme quebracabeça da forma como estão estabelecidas as relações sociais da atual sociedade. Para o autor, no modelo contemporâneo não existe um indivíduo “não-consumidor”, mas sim “consumidores falhos”. Exemplificando, analisa sobre as políticas internacionais e normas de imigração vigentes hoje. As restrições de imigração de países ricos que, de acordo com sua leitura, recusam imigrantes não apenas por aspectos raciais, mas principalmente pela condição marginalizada de maus consumidores que representam em seus países. O que não os tornaria ferramentas rentáveis para o sistema local, tornando-os então totalmente dispensáveis.

Ou seja, indivíduos que estão à margem do sistema, de modo a não exercer seu pleno dever de consumir e permitir-se ser consumido pelo mercado, devem ser “apagados” das relações humanas. E dessa forma, no último capítulo intitulado “Baixas colaterais do consumismo”, Bauman analisa em âmbito maior, principalmente a pobreza, grande chaga na perfeição da sociedade de consumidores. Expondo o medo, as discriminações raciais e a subclasse criada para abrigar os pobres, diante da necessidade de manter longe do campo de visão todo e qualquer infortúnio que possa colocar em xeque a ilusão cuidadosamente arquitetada pela felicidade de consumir.

BAUMAN, Zygmunt. Vida para consumo: a transformação de pessoas em mercadoria. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2008.

Um comentário:

  1. Seu discurso é bem frankfurtiano, coloca o ser humano como mercadoria. Um método eficaz, crítico da sociedade.

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