terça-feira, 28 de setembro de 2010

Especialista analisa o impacto da Educação nas desigualdades sociais

Em entrevista concedida à jornalista Simone Harnik, do Todos Pela Educação, o sociólogo e pesquisador do Instituto de Estudos do Trabalho e Sociedade (Iets), Simon Schwartzman, fala sobre o impacto da Educação nas desigualdades sociais a partir de uma análise dos dados da Pesquisa Nacional por de Domicílios (Pnad) 2009.

Ao longo da entrevista, são abordados temas como o acesso ao Ensino Infantil e seus impactos futuros; jovens de 15 a 17 anos em etapas inadequadas de ensino, entre outros.

Para Schwartzman, “a desigualdade na qualidade da Educação implica perpetuar as desigualdades sociais existentes”.

Dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) 2009 mostram que a renda familiar é determinante para que um jovem estude. Entre os 20% mais pobres da população, 32% dos adolescentes de 15 a 17 estavam no Ensino Médio em 2009. Já entre os 20% mais ricos, 77,9%. A média nacional gira em torno dos 50%.

O problema do abandono escolar afeta a distribuição de renda e o desenvolvimento do País. O sociólogo e pesquisador do Instituto de Estudos do Trabalho e Sociedade (Iets), Simon Schwartzman, analisou os dados da Pnad e é categórico: "A desigualdade na qualidade da Educação implica perpetuar as desigualdades sociais existentes", diz. Veja a entrevista completa.

Todos Pela Educação - Dados da Pnad 2009 mostram que o acesso à pré-escola é menor entre os 20% mais pobres do que entre os 20% mais ricos. A dificuldade no acesso à Educação Infantil tem impacto na aprendizagem ou na vida estudantil futura?
Simon Schwartzman -
Sim, existem muitas pesquisas que mostram que a pré-escola ajuda muito na aprendizagem ao longo da vida. Mas a pré-escola tem que ser de qualidade, e não pode ser simplesmente um lugar para depositar as crianças para que as mães possam trabalhar.

Até os dois anos de idade, não há nada que substitua a relação afetiva e os estímulos naturais que ocorrem na relação da criança com a mãe, e os melhores programas de pré-escola nesta idade são os que apoiam as mães e as ajudam em seu relacionamento com os filhos. Depois, a escola pode ser importante para ajudar na socialização e a desenvolver as competências iniciais que antecedem o aprendizado da leitura e da matemática, se ela for de qualidade.

Todos Pela Educação - Somente metade dos jovens de 15 a 17 anos está na etapa do ensino adequada. E a desigualdade de renda é um dos principais determinantes: entre os 20% mais pobres da população, 32% dos adolescentes de 15 a 17 estavam no Ensino Médio. Já entre os 20% mais ricos, 77,9% acompanhavam os estudos regularmente. Por que a renda interfere tanto no acesso? De que forma?
Schwartzman -
O problema neste nível não é de acesso, mas de abandono. Os adolescentes mais pobres abandonam mais os estudos porque, em geral, tiveram uma Educação de pior qualidade nos anos anteriores, e também frequentam escolas piores. Geralmente, quando a família é mais pobre, os pais são menos educados, o ambiente familiar é intelectualmente menos estimulante, as crianças não passam por uma pré-escola de qualidade, e frequentemente tardam em iniciar seus estudos.

As escolas a que estas crianças vão tendem a ser piores, porque podem estar em regiões mais empobrecidas, ou em áreas de conflito nas periferias das grandes cidades. Muitos destes adolescentes são reprovados, ou promovidos embora continuem funcionalmente analfabetos. Quando chegam aos 14, 15 anos de idade, não conseguem mais acompanhar as aulas, e acabam saindo. Existe também, em muitos casos, a necessidade de trabalhar, mas muitos jovens trabalham e estudam e, de qualquer maneira, o que podem ganhar no mercado de trabalho não é muito.

Todos Pela Educação - Além das desigualdades de acesso por renda, existe uma diferença gritante no acesso à escola nas diferentes regiões do País. O percentual médio de estudantes de 15 e 17 anos no Ensino Médio era de 50,9% em 2009. Mas no Norte e Nordeste apenas 39,1% e 39,2%, respectivamente, estavam nesta etapa do ensino. Já o Sudeste tinha 60,5%. Como tratar essas diferenças? Por que elas ainda ocorrem?
Schwartzman -
Essas diferenças estão relacionadas com a pobreza destes estados, o que afeta tanto o desempenho dos estudantes quanto a qualidade das escolas que eles frequentam. É preciso fazer um esforço adicional para compensar estas diferenças, sobretudo melhorando a qualidade das escolas e de seus professores.

Todos Pela Educação - O Nordeste e o Norte estão em situação pior do que o Sudeste há dez anos. Há como dar um salto no percentual? As duas regiões terão de passar por uma década até terem mais jovens na etapa de ensino adequada?
Schwartzman -
É possível avançar rapidamente organizando melhor as escolas, formando os professores de maneira adequada e fazendo com que eles utilizem métodos e materiais de ensino adequados, principalmente na etapa inicial de alfabetização. O exemplo de Sobral [cidade que obteve bons resultados de melhoria na Educação] mostra que isto pode ser feito. É menos uma questão de dinheiro do que de orientação firme e clareza em relação ao que deve ser feito.

Todos Pela Educação - Como as políticas públicas de Educação devem lidar com as desigualdades sociais?
Schwartzman -
O problema não é de acesso, mas de má qualidade da Educação e do abandono dos adolescentes. Os alunos que vêm de famílias mais pobres precisam de apoio adicional nas escolas, para compensar as limitações da família e do meio em que vivem. Isto requer professores bem qualificados, adoção de métodos de ensino e materiais didáticos apropriados, e inclusive um trabalho junto às famílias para que elas apoiem seus filhos nas escolas.

Todos Pela Educação - A Educação deve ter o caráter de política compensatória das desigualdades sociais?
Schwartzman -
A Educação é fundamental para aumentar a igualdade de oportunidades para as pessoas, e, com isto, reduzir as desigualdades sociais. A desigualdade na qualidade da Educação implica perpetuar as desigualdades sociais existentes.

Todos Pela Educação - Na sua avaliação, qual seria o problema mais grave: o acesso à Educação Infantil ou ao Ensino Médio? Por quê?
Schwartzman -
Os dois são graves, não se pode privilegiar um e deixar o outro de lado.

Todos Pela Educação - Entre a população de 6 a 14 anos, a frequência à escola é quase universal, embora existam diferenças no acesso dos mais ricos e dos mais pobres. Houve um maior investimento no Ensino Fundamental? Por que esta etapa tem indicadores que parecem melhores que os das outras etapas da Educação?
Schwartzman -
Não me parece que seja principalmente uma questão de investimentos. Até os 14 anos, é mais fácil para os pais manterem seus filhos nas escolas, e, havendo escolas, mesmo de má qualidade, eles fazem isto. Na adolescência é mais difícil, o jovem tem mais autonomia, e as consequências negativas da Educação de má qualidade começam a aparecer.

Um problema adicional do Ensino Médio é que, como ele cresceu muito no final dos anos 90, muitos cursos ainda são oferecidos à noite, usando as instalações das escolas do Ensino Fundamental, que funcionam durante o dia. Isto simplesmente não funciona. É necessário oferecer aos jovens ensino diurno, com o mínimo de seis horas diárias, dando inclusive apoio financeiro à família se necessário, e deixar o ensino noturno somente para adultos que precisam trabalhar. Isto requer, sem dúvida, mais investimentos.

Fonte/Textos: Todos pela Educação - Foto: Reprodução/ FGV / Marcelo Dau

Nenhum comentário:

Postar um comentário