quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Palavras de Saramago

Compartilhamos abaixo matéria da Folha de S. Paulo sobre a coletânea "As palavras de Saramago", de Fernando Gómez Aguilera.

Livro reúne revela intimidade e opiniões de José Saramago

Há quase 20 anos José Saramago intriga Fernando Gómez Aguilera.
O escritor e ensaísta espanhol de 48 anos conheceu o Nobel português em 1993.
A partir daí já dedicou ao autor uma biografia ("José Saramago: A Consistência dos Sonhos", 2007), uma exposição e críticas literárias.
Além disso, é membro do conselho de curador da Fundação José Saramago.

Não bastasse, dedicou os últimos quatro anos a vasculhar centenas de reportagens, declarações e entrevistas concedidas por Saramago para jornais e revistas de vários países.
O resultado está na coletânea recém-lançada
"As Palavras de Saramago", reunião de frases e pensamentos.

O livro está dividido em três partes. A primeira é dedicada à vida íntima. A segunda tem como tema a literatura. A última traz o Saramago "cidadão", o feroz crítico do capitalismo, da globalização econômica e das desigualdades.

Fernando Gómez Aguilera e Saramago, em Lanzarote

"Saramago é uma das escassas referência intelectuais com alcance universal em nossa época", diz Aguilera. Na entrevista abaixo, ele comenta o livro.
Folha - O que a coletânea acrescenta à obra de Saramago?
Fernando Gómez Aguilera - As declarações fornecem chaves complementares para entender o autor e para conhecer suas opiniões. Constituem, no fundo, um tratado de sabedoria.
Saramago reclamava que as entrevistas pareciam "comida requentada". Porém, era presença constante na mídia.


Que papel tinha para ele essa exposição pública?
Saramago era um escritor dominado por seu rigoroso sentido de dever, incapaz de dizer não quando requisitado. Por isso se entregava a fundo na comunicação pública, de modo que foi capaz de construir uma sólida imagem de intelectual disposto a combater a inumanidade e a injustiça.

Saramago dizia que "aonde o escritor vai, vai o cidadão". Dizia não separar o artista do ser social. Nos últimos anos o lado político não teria sobrepujado o artístico?
Nos dez últimos anos, ele escreveu livros extraordinários. Desde 'O Homem Duplicado' a 'Caim'. O grande escritor e o cidadão comprometido conviviam sem causar dano ao outro, pelo contrário, reforçavam-se. Eram partes de um mesmo humanista ilustrado que combatia e irracionalidade e a crueldade.

Saramago gostava de dar entrevista? Certa vez ele disse que "amarga-me a boca a certeza de que tantas coisas sensatas que pude dizer durante a vida não terão, no fim das contas, nenhuma importância".
Saramago foi generosíssimo com os meios de comunicação, mas não deixava de reconhecer o cansaço que lhe produzia cumprir com essa parte de seu dever, tão exaustivo. Confessava, porém, que as entrevistas terminavam por parecer-lhe comida requentada. Mas era um escritor e um ser humano dominado por seu rigoroso sentido de dever, incapaz de dizer não. Pilar del Río o sabe melhor que ninguém. Por isso se entregava a fundo à comunicação pública, de modo que foi capaz de construir uma sólida imagem de intelectual incômodo, sério, para quem nada lhe era estranho, disposto a dizer sua verdade, a combater a injustiça e a assinalar com o dedo o poder que merecia ser censurado.

Saramago era bastante crítico em relação aos meios de comunicação. Acreditava que os jornais nada tinham a ver com a realidade e serviam aos interesses de grupos econômicos e políticos. Apesar disso, também foi jornalista e, principalmente, era presença constante na mídia, deu inúmeras entrevistas. Como o senhor avalia que ele encarava essa contradição?
Ele nunca se considerou um jornalista, apesar de sua relação com os meios de comunicação e de haver sido diretor adjunto do jornal 'Diário de Notícias' por um breve tempo em 1975. Sua vinculação com a imprensa como colaborador se produziu antes de ter fama como escritor. Por outra parte, não vejo contradição entre criticar os meios de comunicação e aparecer neles, se, como é seu caso, se faz isso sem renunciar a sua própria visão da realidade.

O período como jornalista teve alguma influência na obra de Saramago?
As crônicas jornalísticas constituem uma peça fundamental em sua literatura. Ele mesmo dizia que ali estava todo o que era como escritor. Lá está, em seu espírito, a atitude moral. Temos que retornar a suas crônicas, sobretudo as literárias, selecionadas em "A Bagagem do Viajante" e em "Deste Mundo e do Outro". Por outro lado, Saramago reconhecia que o jornalismo lhe envia ensinado a escrever 99 palavras onde só cabiam 99 palavras.

Acredita que o lado polemista, a atitude política de crítica ao sistema vigente, prejudicou a avaliação crítica da obra literária de Saramago?
A literatura de Saramago é melhor compreendida à luz da complexa personalidade do autor. O homem que escreve "Ensaio sobre a Cegueira" e "O Evangelho Segundo Jesus Cristo" é o mesmo homem polêmico que ataca a religião e a democracia. Quem escreveu "Ensaio sobre a Lucidez" e "A Caverna", empregando o romance como veículo de reflexão e investigação, é a mesma pessoa que censurava o mercado e o capitalismo autoritário.

É possível perceber, por meio das declarações, uma evolução no pensamento do escritor ou ele sempre teve as mesmas ideias?
Em geral predomina um pensamento muito coerente, se bem que ao longo dos anos, especialmente a partir da década de 90, se manifesta uma maior intervenção pública e também um maior alcance geográfico, já que Saramago se universaliza. Mesmo assim, manteve as mesmas ideias sobre os temas fundamentais, evoluindo, talvez, para uma maior radicalidade em suas concepções e na expressão dessas ideias. Neste sentido, não estranha que Saramago chegara a definir-se, nos últimos anos de vida, como um comunista libertário.

De que forma o Prêmio Nobel contribuiu para essa mudança?
O Nobel deu a ele um meio formidável de expandir suas palavras pelo mundo. Saramago era consciente e não teve dúvida em aproveitar essa circunstância para participar da criação da opinião pública, para reforçar suas denúncias e fazer mais influentes seus pontos de vista e solidariedade.
Fonte: Folha de S. Paulo/ Foto: Divulgação

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