sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

O peso da mídia na formação da criança

Artigo de Márcia Pimentel - Publicado no site da Multirio

Cresce, a cada ano, o número de reclamações da sociedade relativo à programação televisiva, segundo Domingos Sávio Dresch da Silveira, procurador da República da IV Região e membro do grupo de trabalho de Comunicação Social da Procuradoria Federal dos Direitos do Cidadão. A maior parte das reclamações recai sobre conteúdos e imagens considerados violentos, ou que abordam temas sexuais e de nudez tidos como incompatíveis com a programação infanto-juvenil prevista na Declaração dos Direitos da Criança e do Adolescente da Organizaçâo das Nações Unidas (ONU).

Tais reclamações sobre os conteúdos, que supostamente deveriam ser restritos ao público adulto, não parecem intempestivas. Em tese de doutorado, defendida em 2006, o procurador Domingos da Silveira contabilizou que os filmes com restrição, veiculados no horário reservado ao público infantil, superavam em mais de 50% os sem restrição, fato que indicaria "forte tendência de trivialização da violência na programação". Tal trivialização, ainda segundo ele, seria preocupante em função dos estudos, nas mais diversas áreas do conhecimento, que alertam sobre o impacto da programação das mídias na formação das crianças e adolescentes.

O fato é que a discussão que envolve os conteúdos da programação das mídias parece ficar cada vez mais na ordem do dia, já que elas funcionam como janelas do mundo abertas dentro dos lares e as famílias têm cada vez menos tempo de se dedicar à vigilância dos filhos. Quando se leva em consideração que família, escola e mundo são as principais forças que atuam na formação da criança e do adolescente, não é difícil de se chegar à conclusão que, hoje, a quantidade de mundo a interferir nesta formação - especialmente através da televisão e internet, tão presentes nos lares atuais - é muito maior que há 50 anos.

Consequências da banalização
Sobre o impacto das mídias na formação da criança, a psicóloga Angela Josefina Donato Oliva, professora da pós-graduação do Instituto de Psicologia Social da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), atentou para o fato de que crianças e adolescentes ainda não estão com seus aspectos psicológicos e biológicos inteiramente formados. "Uma criança ou um adolescente não tem capacidade de analisar as coisas por diversos ângulos. O discernimento deles é parcial. São mais fáceis de serem enganados que um adulto", disse.

Tal como o procurador Domingos da Silveira, a psicóloga também afirmou que a estimulação precoce da violência e da sexualidade leva à sua banalização, muito embora violência e sexo sejam dimensões latentes nas crianças e estejam em processo de descoberta por elas, por fazerem parte da natureza humana. "O risco da banalização é o da criança começar a agir da mesma maneira, porque acha tudo muito normal, antes mesmo dela ter capacidade de discernir as coisas e de amadurecer biologicamente. Uma criança não tem como lidar com essas questões em sua plenitude. Não tem sequer noção de seus direitos - tal como dizer 'não' se assediado sexualmente -, nem das consequências de seus atos", explicou.

Diante de tais riscos efetivos da programação, como então a família deve tentar conduzir a relação das crianças com as mídias? Tanto na opinião do procurador regional da República, Domingos da Silveira, como da psicóloga Angela Oliva, as famílias têm limitações no controle dos conteúdos que chegam até seus filhos. E não só porque têm cada vez menos tempo de se dedicar à vigilância deles. Mas também porque é impossível livrar as crianças de conteúdos recorrentes e massificados. Mesmo que um pai não permita que seu filho assista a determinada programação, mas vários outros permitem, tais conteúdos chegarão a ele no momento em que se sociabilizar com outras crianças.

Como proceder
Tais limitações significam que os pais nada podem fazer? Não. Tanto Domingos da Silveira como Angela Oliva convocam os pais a ficarem mais atentos à relação dos filhos com as mídias e a terem mais controle sobre os conteúdos que têm acesso. Para a psicóloga, a proibição expressa, contudo, não é a melhor estratégia, pois não costuma dar bons resultados. O melhor a se fazer, na opinião dela, é tentar conduzi-los a informações mais seguras, estimulando-os nas mais diversas direções. "Nenhuma super-exposição é bem-vinda ao desenvolvimento da pessoa. O melhor é oferecer-lhe alternativas, valorizar o estudo e estimular sua participação em diferentes atividades, como prática de esportes, brincadeiras, passeios, cursos... Quanto maior o leque oferecido à criança, melhor, porque o peso dos conteúdos indesejados tenderá a ser menor no contexto geral de sua formação", disse a psicóloga.

Para o procurador da República é também importante que as famílias reflitam e participem mais das discussões sobre as possíveis formas de governar, regular e controlar as fontes de informação, sem se perder a perspectiva de que é preciso preservar a liberdade de expressão e de criação artística. A questão, segundo ele, é conseguir se chegar a uma equação que também leve em conta a proteção da criança e o direito à intimidade. "Uma das características mais marcantes do constitucionalismo moderno é a importância da participação social na formulação, na gestão e no controle de políticas públicas", lembrou Domingos da Silveira.
Fonte: MultiRio

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