segunda-feira, 28 de março de 2011

Educar para os ecrãs

"A educação para os media serve para melhorar a nossa condição de cidadãos." A ideia é tão consensual entre especialistas e investigadores que merece as aspas. Como se fosse uma citação coletiva. Foi repetida vezes sem conta durante o primeiro congresso nacional de "Literacia, Media e Cidadania", que decorreu em Braga.

Se há em Portugal educação para entender a televisão, a publicidade, a rádio, a imprensa, os filmes, os videojogos, a Internet, as redes sociais, ou seja, a medioesfera, "resulta do empenho pessoal, da crença de que é importante", diz Sara Pereira, investigadora do Centro de Estudos de Comunicação e Sociedade (CECS), da Universidade do Minho. O que significa que "quando os dinamizadores das experiências deixam de existir, elas terminam". E, na "ausência de uma política pública" verifica-se que "no plano nacional não há uma prática continuada de educação para os media", conclui.

Estas são algumas das conclusões de uma investigação inédita em Portugal e que fez um inventário dos projetos e atividades desenvolvidas na área da educação para os media, nos últimos dez anos. Encomendado pela Entidade Reguladora para a Comunicação Social (ERC) ao CECS, o estudo mostra quem fez ou ainda faz, o quê, onde e como?

"A maioria das ações acontece na escola e é mais dirigida à criança enquanto aluno e menos ao ser cidadão que é", aponta Sara Pereira, uma das autoras do estudo. No entanto, "não existem projetos dirigidos à medioesfera como um todo". E, as iniciativas que acontecem, um pouco esporadicamente, "andam a reboque" das organizações internacionais.

São estas entidades "que surgem como elementos indutores das atividades, sobretudo pelo suporte financeiro que lhes concedem". Mas isso não é suficiente, adianta a investigadora, "é necessário vontade política para incluir a educação para os media na agenda pública ou daqui por dez anos estaremos a traçar o mesmo quadro".

O estudo, intitulado "Educação para os Media em Portugal - Experiências, atores e contextos", foi um dos pontos altos do primeiro congresso nacional de "Literacia, Media e Cidadania", que reuniu especialistas nacionais e internacionais em educação, literacia e ambientes digitais, nos dias 25 e 26 de março, na Universidade do Minho, em Braga.

Educar para a cidadania
"Sabemos que os media nem sempre se centram nos factos que importam conhecer", alerta Felisbela Lopes, pró-reitora de Comunicação e Imagem da Universidade do Minho. E, às vezes "consumimos produtos altamente perigosos", acrescenta.

Ora, estar educado para os media é ter a capacidade para compreender de modo crítico as mensagens dos meios de comunicação social e digital. A também designada literacia mediática, pressupõe ainda capacidade de criação de comunicação em diferentes contextos.

A sua importância está plasmada em várias diretivas do Conselho e do Parlamento Europeu. Mas também da Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (UNESCO). De forma geral, traduz-se na necessidade de "assegurar que os cidadãos sejam capazes de consumir criticamente, mas também produzir conteúdos mediáticos", resume Fernando Guimarães, embaixador da UNESCO. "A literacia para os media é condição sine qua non para uma cidadania plena", conclui.

Como e quem?
José Ignacio Aguaded, investigador da Universidade de Huelva, em Espanha tem a resposta: "O primeiro âmbito da educação para os media é familiar, porque o consumo se faz inicialmente na família, depois há que vincular a escola e as entidades de educação informal".

"Os ecrãs têm tanta importância que já não distinguimos o que conhecemos do mundo real e do virtual." O fundador do grupo Comunicar, que produz investigação nesta matéria, publica uma revista científica com o mesmo nome, assume que a sociedade é composta por múltiplos ecrãs mediáticos que são como "o ar que respiramos". Porque "os media vivem pelo fator emocional", lembra Aguaded.

"Se fosse pela lógica não veríamos muitos dos programas." E, no entanto, "onde estão as nossas crianças e idosos?", questiona o investigador. "A ver televisão!", responde. Por isso, é urgente dar às audiências "alimentos de formação para lidar com o que a sociedade lhes oferece". Porque "se consumirmos de forma inteligente, crítica e criativa, os media serão fantásticos, se não um desastre", conclui.

Ainda assim, a crescente atenção internacional dada à literacia no âmbito dos media, parece ter rumado em sentido contrário em Portugal. A começar pela sua retirada dos planos curriculares dos cursos de formação inicial de professores, inerente ao Processo de Bolonha. Este "retrocesso" foi objeto de crítica por parte de vários oradores presentes no congresso, a par da ausência de conteúdos atualizados sobre os ambientes mediáticos nos currículos do ensino básico e secundário foi outra das críticas.

Associada a esta critica, uma outra, sentida particularmente pelos professores do ensino básico e secundário: a falta de recursos pedagógicos e didáticos para uma abordagem efetiva sobre o papel dos vários meios de comunicação social no contexto da atual evolução tecnológica. Materiais para usar na sala de aula e abordar questões práticas como: as notícias enquanto construções da realidade, a transmissão de valores num filme ou os direitos de autor na Internet.

Manuel Pinto, investigador do CECS e autor de vários livros e artigos sobre a relação dos media na sociedade, diz ser "urgente apostar na formação de professores". "Não podemos ficar reféns de Bolonha", disse o também coordenador do estudo que fez o levantamento sobre o estado da educação para os media, em Portugal. "Temos de exigir do Estado que não nos impeça de fazer e, se possível, que incentive a fazer, se isso fosse feito já não seria pouco".

"A formação dos mediadores" da relação entre media e públicos foi apresentada como outra questão essencial para Vitor Reia-Baptista, investigador em estudos fílmicos, da Escola Superior de Educação e Comunicação da Universidade do Algarve.

A reflexão sobre a "dimensão pedagógica dos media" tem de ser feita ainda durante a formação dos "fazedores dos media", "sejam eles jornalistas ou cineastas", sublinha o investigador. "Não é depois de estarem a trabalhar que estes profissionais vão ter tempo para refletir sobre o tema", garante.

Inclusão digital
A apresentação dos resultados do "EU Kids Online", uma pesquisa europeia em 25 países sobre o modo como as crianças entre os 9 e os 16 anos e os seus pais estão a usar a Internet, foi outro dos momentos altos do congresso. Cristina Ponte, investigadora da Universidade Nova de Lisboa, que liderou a participação portuguesa nesta investigação, foi outra das vozes a insistirem na "necessidade de capacitação das crianças para lidar com a Internet".

Segundo o estudo, 93% das crianças acedem à Internet pelo menos uma vez por semana e 36% afirmam saber mais de computadores que os seus pais. Do lado dos adultos, a maioria dos pais afirma saber o que fazem os seus filhos quando estão online. No entanto, as ferramentas de controlo do acesso são pouco usadas. Note-se que, para este estudo foram entrevistadas cerca de mil crianças em cada país e um dos seus pais, durante a primavera e o verão de 2010.

Os dados recolhidos entre as famílias portuguesas mostram, por exemplo, que 67% das crianças acedem à Internet a partir do seu quarto, contra 42%, na vizinha Espanha, e os 49% registados na média europeia. Mostram ainda que são as mães as principais mediadoras da relação que as crianças estabelecem com a Internet. E "sublinham a importância da escola enquanto espaço de democratização do acesso", refere Cristina Ponte.

O facto de as crianças e os jovens cultivarem cada vez mais uma espécie de "cultura de quarto" foi um aspeto estudado por Rita Espanha, do Instituto Superior de Línguas e Administração, de Lisboa. "Portugal tem muitos jovens com computador no quarto, logo este deixa de ser um espaço privado", diz a investigadora posicionando este fenómeno "num contexto de autonomia existencial, mas de dependência económica em relação aos pais".

"Comunicar é o que os jovens mais fazem através do uso das Tecnologias da Informação e da Comunicação (TIC), e dos telemóveis, por isso, já não faz sentido a distinção entre o mundo online e o offline", diz Rita Espanha. Neste contexto, "vale a pena recordar que a geração Magalhães tem de merecer estudos de referência, porque vai ter consequências no comportamento dos jovens".

Estudar o impacto dos media digitais nas crianças portuguesas é o objetivo do "Navegando com o Magalhães", outro projeto de investigação encabeçado pelos investigadores do CECS da Universidade do Minho que está atualmente em curso.

Estes e outros estudos, desenvolvidos um pouco por todo país, como ficou patente pela diversidade de oradores no congresso, surgem numa altura em que a União Europeia se prepara para pedir aos Estados-membros indicadores sobre os graus de literacia e competências mediáticas dos seus cidadãos.

Os três "cês", de literacia
Em que ponto estamos? A resposta foi surgindo de diferentes contributos dos oradores presentes no congresso. Mas falar de literacia mediática, explica Vitor Reia-Baptista, impõe falar de três "cês": Capacidade de contextualização cultural, crítica e criatividade. São estes os degraus para alcançar uma "completa literacia para os media".

Mas para o investigador da Universidade do Algarve, é possível encontrar a sociedade dividida de forma geracional pelos três. "A nossa geração é boa na capacidade de contextualização cultural, mas ainda não desenvolveu formas adequadas de a transmitir aos jovens." Já no que diz respeito ao pensamento crítico "somos maus", provoca Reia-Baptista. Por último, é na dimensão criativa que os jovens mais se evidenciam: "Quando compramos um telemóvel novo, não lemos o manual, pedimos ao nosso filho que nos ensine a mexer nele", conclui o investigador.


Teresa Calçada, da Rede de Bibliotecas Escolares, reconhece que a criatividade é uma competência positiva na geração multimédia, mas reconhece também um sinal negativo: "Os jovens têm um menos, é o lado crítico que nos permite ter critérios de exclusão e são o lugar da destreza e da competência."


A fechar o congresso, Alexandra Marques, da Direção-Geral de Inovação e Desenvolvimento Curricular (DGDC), do Ministério da Educação, lembrou que a educação para os
media "tem destaque" na Lei de Base do Sistema Educativo.

A diretora-geral da DGDC sublinhou "a preocupação [ministerial] sistemática em realizar estudos para conhecer o desempenho do país ao nível das literacias, com enfoque na leitura". E a importância da iniciativa Magalhães, inserida no Plano Tecnológico da Educação. Alexandra Marques chamou a atenção ainda para o projeto "Metas de Aprendizagem", considerando-o "parte de uma estratégia global que pretende dar centralidade às questões da educação para os
media".

Fonte: Educare.PT/ Andreia Lobo/ 28-03-2011

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