terça-feira, 5 de abril de 2011

A escrita dos nativos digitais

Os estudantes sentem falta de retorno para o que escrevem, reclamando que a maior parte dos comentários deixados pelos professores, quando constam, se limitam a correções gramaticais”, afirma Ilana Eléa, pesquisadora associada do Grupo de Pesquisa em Mídia e Educação, da PUC-Rio (GRUPEM).
Veja entrevista que Ilana concedeu a Marcus Tavares, da RevistaPontoCom que compratilhamos aqui.

Por Marcus Tavares

Qual é o papel da escrita entre adolescentes que, desde a infância, usam o teclado e a comunicação online de forma cotidiana? Esta foi a pergunta que norteou o trabalho de Ilana Eléa, em sua tese de doutorado em Educação, pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio), defendida em dezembro passado. Ilana acompanhou o dia a dia de cinco jovens cariocas de classe média.

Suas observações trazem um recorte de como os adolescentes usam a escrita para si, para os outros e na/para a escola. Os textos escritos na internet vêm recebendo status de ‘notícia’, sendo lidos e acompanhados por uma audiência cativa e interessada, o que faz os jovens se sentirem valorizados e em companhia.

O estudo aponta também para a escola. Afinal, de que forma os professores poderiam ou deveriam aproveitar o contexto da escrita na internet para favorecer a escrita na/para escola? Uma boa discussão.

Acompanhe a entrevista:

revistapontocom- Qual era o seu objetivo com a tese de doutorado?
Ilana Eleá -
Estava interessada em aproveitar este momento de boom da internet para analisar práticas e significados da escrita – tanto manuscritas quanto digitais – entre adolescentes. Afinal, em tempos de teclados, celulares e editores de texto digitais, de hipertextos, redes sociais online e imersões multimodais, qual seria o papel da escrita entre um público que desde a infância usa o teclado e a comunicação online de forma cotidiana?

revistapontocom – Como você produziu o trabalho?
Ilana Eleá -
Optei por fazer a pesquisa acompanhando cinco adolescentes. Decidi estudar nativos digitais em suas residências, com computadores ligados, em pelo menos quatro encontros com uma hora de duração, levando a câmera para registrar as entrevistas. Propus a instalação de um programa para ter acesso à maneira como digitavam na internet e fotografei quartos, livros, textos, cadernos, letras. Adicionei-os como amigos nos ambientes virtuais que participam, como Orkut e MSN, além de pedir que compartilhassem comigo o que tivessem escrito e considerado bom. Realizei web-etnografia dos espaços online que diziam frequentar diariamente.

revistapontocom – Afinal, qual é a escrita destes jovens?
Ilana Eleá -
Os adolescentes que acompanhei escrevem principalmente conectados. A participação em redes sociais se destaca como um potente motor para construção de identidades, publicação e leitura de mensagens híbridas e multimodais, exercício de sociabilidade e troca de afetos. A escrita na web aparece fortemente associada com a escrita-de-si através da composição de perfis pessoais online. Expressar o que se está sentindo “na hora” em ambientes online parece ser muito atraente para os jovens. Ao comunicarem publicamente o que estão sentindo em âmbito privado, podem receber comentários de vários contatos ao mesmo tempo (tanto por mensagens sincrônicas ou assíncronas), conotando prestígio social. Sentimentos e pequenos textos escritos por eles recebem status de ‘notícia’, sendo lidos e acompanhados por uma audiência de pares, o que os faz se sentirem valorizados e em companhia. Escrever no MSN não é tido como escrita e sim como “fala”: em nenhum momento os nativos digitais afirmam estar escrevendo e sim falando com os amigos. Costumam “conversar” pelo teclado diariamente enquanto realizam outras atividades simultâneas, utilizando este canal de conexão para contar sobre o dia, buscar dicas, obter conselhos e companhia. Também consideram importante não misturar canais: a escrita abreviada e oralizada do universo online precisa continuar se diferenciando da norma culta utilizada para textos escolares e formais. Escrever para o outro e receber a escrita do outro têm significado afetivo e necessário para habitantes de redes sociais. A estrutura de seus ambientes favorece e incita manifestações explícitas, imediatas, hiperbólicas e públicas do que se sente e pensa das pessoas que compõem sua rede, principalmente entre amigos próximos. A pressão pela reciprocidade, nesse contexto, fica mais urgente, abrindo espaço para a cópia de textos, num jogo de manifestações publicas e padronizadas de afetos. Os nativos digitais incorporam na escrita o uso do “te amo” e “para sempre” entre as frases e inserção de corações, símbolos, cores, formatações dos caracteres, o que parece indicar a padronização da manifestação afetiva.

revistapontocom – Pode-se dizer que – ao contrário do que dizem – os jovens escrevem muito mais do que se imagina?
Ilana Eléa -
Depende. Eles mesmos dizem que não escrevem tanto, mas que “conversam” pelo MSN. O recurso de cópia e/ou busca de inspiração em comunidades online que oferecem textos afetivos prontos apareceu com destaque. Mesmo quando escrevem suas próprias histórias, como as webnovelas no Orkut, se sentem inseguros quanto qualificar a escrita como “literatura”. Mas acredito que sim, que estejam escrevendo muito mais por estarem ocupando espaços de redes sociais nas quais a escrita de si e a escrita para o outro são fortemente valorizadas.

revistapontocom – E a escrita que acontece na escola?
Ilana Eléa -
Notei que há uma diferença entre a escrita para a escola e a escrita na escola. Como uma das adolescentes afirmou: “Eu gosto de escrever coisas que eu me interesso, mas coisas de escola eu não gosto não. (Isabella)”. Sugerem que a escola não se restrinja à solicitação de textos dissertativos, mas incorpore às atividades crônicas, contos de fadas, fábulas, poemas e músicas, além de temas de seu interesse. Isso não quer dizer que a escrita na escola não aconteça: pelo contrário. Troca de recados e cartas, margens de cadernos e até livros são iniciados na hora do recreio ou durante as aulas. A “escrita para si” indica que mesmo com a preferência da escrita em rede como forma de comunicação e sociabilidade entre jovens, a escrita íntima, secreta e privada tem sido preservada através do papel, da folha solta, da caneta, lápis e borracha. Esta escrita, predominantemente feminina, se dá por textos que precisam ser escondidos, guardados ?na gaveta para ninguém ler e algumas vezes, rasgados. ? “Quando é coisa particular minha eu prefiro escrever no papel” foi frase recorrente.

revistapontocom – Os jovens que você pesquisou são de um determinado extrato social. Você acha que a realidade deles não é tão distante assim de outros jovens?
Ilana Eléa
– O coração do meu trabalho é etnográfico e prefiro falar sobre as práticas e significados de escrita entre cinco adolescentes de camadas médias do Rio de Janeiro, que acompanhei de perto, em suas casas. Para esses, o fator de valorização da norma culta é distintivo: escrever com abreviações é permitido dentro do contexto online, não manuscrito ou oficial, como em redações escolares. Como meu trabalho também acompanhou comunidades online no Orkut nas quais jovens de diferentes extratos participam para a escrita de webnovelas, posso dizer que, pelo menos no universo de 200 respostas aos questionários aplicados, as categorias encontradas são recorrentes.

revistapontocom – O que mais lhe chamou a atenção na pesquisa?
Ilana Eléa -
A escrita em cartas, cartões, redações escolares, agendas, cadernos, murais, fichários e
folhas soltas manuscritas ilustraram colocações sobre a ainda importante representação do papel e do estilo da letra pessoal, em seus cotidianos. As meninas possuem um grau de afetividade que incutem no papel marcas de pessoalidade e intimização da escrita. Para escrever sobre sentimentos que não devem ser expostos sob nenhuma hipótese, o papel é espaço preferido de vazão. Também fiquei particularmente interessada em perceber o movimento de aproximação dos meninos às manifestações públicas de escrita – prática que acredito ser desdobramento da força das redes sociais para o cotidiano dos jovens. Um outro ponto alto foi a descoberta do universo da escrita de fanfictions e webnovelas, que desconhecia.

revistapontocom – A partir de seu estudo, de que forma a escola/professor deveria lhe dar com estes jovens, com a escrita destes jovens?
Ilana Eléa
– Ficou muito claro o abismo que tem separado as práticas de escrita propostas pela escola e a realizada pelos adolescentes na internet. Entre o interesse dos jovens entrevistados e as propostas escolares parece existir um considerável vale. Há queixas sobre o formato e temas das atividades para exercício da escrita. Segundo os entrevistados, no ano de escolaridade que estão cursando (início do Ensino Médio) predomina a produção de gêneros textuais dissertativos em redações, por isso buscam referências e memórias sobre momentos em que escreveram por prazer na escola nos anos anteriores. Os estudantes sentem falta de obter retorno sobre o que escrevem e a comparação com a internet parece inevitável. A possibilidade de ter audiência interessada para o que compartilham os mantém motivados, mas na escola seus textos não circulam entre pares nem são comentados em rede. As redações quando recebem correções de professores que se restringem ao apontamento de erros gramaticais causam desapontamento, pois esperam experimentar escritas criativas. Os estudantes sentem falta de retorno para o que escrevem, reclamando que a maior parte dos comentários deixados pelos professores, quando constam, se limitam a correções gramaticais. Desejam falar de temas de seu interesse de forma livre, sem seguir a padronizações estruturais, preferindo experimentar o exercício da linguagem com diversas nuances e liberdade. Entendem que a escrita para a escola não pode ser abreviada, precisando ter sua normas preservadas para a transmissão de conhecimento aos mais jovens, embora utilizem as abreviações em suas comunicações digitais. Querem partir de temas atuais, escrever livremente sobre suas preferências, compartilhar o que escrevem, recebendo retorno sobre suas criações, sentindo-se reconhecidos num ambiente em que a troca afetiva e o contato com pares seja permanente, envolvido por laços de amizade.

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