terça-feira, 12 de julho de 2011

O Narrador

Compartilhamos abaixo nossas primeiras impressões (não científicas) ou um pequeno resumo pessoal do texto "O Narrador", de Walter Benjamin. Boa leitura. Boas reflexões!

No texto "O Narrador", que pode ser encontrado no livro Obras Escolhidas, Walter Benjamin afirma que a arte de narrar está em vias de extinção, como se estivéssemos privados de uma faculdade que nos era absolutamente própria, que é a de intercambiar experiências.

E é justamente essa troca de experiências que vai pasando de pessoa para pessoa, a fonte de todos os narradores.

Benjamin diz ainda que as melhores narrativas escritas são aquelas que menos de diferenciam das histórias orais. E que as narrativas sempre possuem uma espécie de "senso prático", como se os narradores pudessem a partir do que dizem, dar conselhos.

"O narrador é um homem que sabe dar conselhos. Mas, se dar conselhos parece hoje algo de antiquado, é porque as experiências estão deixando de ser comunicáveis. Em consequêcia, não podemos dar conselhos nem a nós mesmos, nem aos outros (...)O conselho tecido na substância viva da existência tem um nome: sabedoria. A arte de narrar está definhando porque a sabedoria - o lado épico da verdade - está em extinção." (BENJAMIN, 1994, p.200) 

Benjamim enxerga como indício do fim da narrativa o surgimento do romance, que além de estar intrinsecamente ligado ao livro - portanto só surge após a imprensa - não tira da experiência pessoal e dos outros - como o narrador assim o faz - o que conta. Pelo contrário, o romancista segrega-se. "A origem do romance é o indivíduo isolado", afirma o autor, que cita Dom Quixote como exemplo de um romance com personagem nobre, generoso, mas que não curva-se ao conselho e não contém sabedoria alguma.

Mais à frente, ele critica novamente o romance quando afirma que quem ouve ou lê uma história, o faz em companhia do narrador, mas quem lê um romance, está só. Solitário.

A informação - gerada pela imprensa -, segundo Benjamim, seria a outra causa das "vias de extinção" da narrativa. E aqui é muito interessante observar a crítica que o autor faz à quantidade de informações do mundo todo que temos diariamente, mas a falta de grandes histórias, de narrativas impactantes.

Ao contrário da narrativa, a informação tem que ser plausível, dar explicações, deixar tudo às claras. Cabe ao narrador, porém, narrar o miraculoso, o extraordinário, deixando que as interpretações e que a psicologia fique a cargo de cada ouvinte. Dessa forma, a história ficará gravada mais facilmente na memória de cada um que o ouve.

"Quanto maior a naturalidade com que o narrador renuncia  às sutilezas psicológicas, mais facilmente a história se gravará na memória do ouvinte, mais completamente ela se assimilará à sua própria experiência e mais  irresistivelmente ele cederá à inclinação de recontá-la um dia." (BENJAMIN, 1994, p. 204)

Infelizmente, a nosso ver, não se ouvem mais narrativas entregando-se a elas. As pessoas buscam apenas informar-se, deixando pra trás uma riqueza em forma de histórias e trocas que esperam ser contadas.

Citando Paul Valéry Benjamin destaca o que pra nós é uma das mais profundas passagens do texto: "ja passou o tempo em que o tempo na contava. O homem de hoje não cultiva o que não pode ser abreviado".

Mas o texto não pára por aí...que tal você buscar para lê-lo e fazer sua interpretação? Que tal pensarmos em como sermos narradores do século XXI? Leia, reflita, compartilhe! 

Abaixo, compartilhamos trailer do filme Narradores de Javé, dirigido por Eliane Caffé. Vale a pena ver o filme na íntegra e refletir sobre o papel do narrador com a ajuda do texto de Walter Benjamim! E se você quiser fazer uma busca no YouTube, encontrará muito material sobre a obra.



SINOPSE: Somente uma ameaça à própria existência pode mudar a rotina dos habitantes do pequeno vilarejo de Javé. É aí que eles se deparam com o anúncio de que a cidade pode desaparecer sob as águas de uma enorme usina hidrelétrica. Em resposta à notícia devastadora, a comunidade adota uma ousada estratégia: decide preparar um documento contando todos os grandes acontecimentos heróicos de sua história, para que Javé possa escapar da destruição. Como a maioria dos moradores são analfabetos, a primeira tarefa é encontrar alguém que possa escrever as histórias.

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