quinta-feira, 13 de outubro de 2011

Cinema e educação para além do arco-íris

Compartilhamos entrevista feita pelo jornalista Marcus Tavares à pesquisadora Monica Fantin, da UFSC, publicada no dia 6 de Outubro na RevistaPontoCom. O tema é cinema e educação e o livro "Cinema e educação para além do arco-íris", elaborado pela professora a partir de sua tese de doutoramento.




Por Marcus Tavares - RevistaPontoCom
Há cinco anos, a professora Monica Fantin defendia sua tese de doutorado, fruto de um árduo trabalho de quatro anos de pesquisas e trocas intensas com crianças do Brasil e da Itália sobre a magia do cinema. De lá para cá, a professora do Departamento de Metodologia do Ensino e do programa de pós-graduação em educação da Universidade Federal de Santa Catarina intensificou seus estudos na relação mídia e educação.
No final do ano passado, resolveu voltar aos seus escritos e publicar um livro relatando sua experiência do doutorado. “É um encontro entre crianças, cinema e educação que se abriu para outros universos: infância, mídia e cidadania; políticas de educação para as mídias; cinema como experiência escolar; cultura midiática e produção cultural”, destaca.
No lançamento do livro Crianças, cinema e educação além do arco-íris (Editora Annablume), durante evento da Sociedade Brasileira de Estudos de Cinema e Audiovisual (Socine), realizado no campus da Praia Vermelha da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), a revistapontocom conversou com a professora.


Acompanhe:
revistapontocom – O livro é fruto de sua pesquisa de doutorado. Do que se trata?
Monica Fantin – Sim, é resultado de minha pesquisa de doutorado que tinha o objetivo de entender qual é o significado que as crianças constroem a partir dos filmes que assistem. Afinal, como elas se apropriam das histórias e narrativas que o cinema traz? No primeiro ano, acompanhei a Mostra de Cinema Infantil de Florianópolis, com o objetivo de ver a relação da criança com o cinema em geral. No segundo ano, com a proposta de entender a relação da criança com uma obra cinematográfica, escolhi o filme O Mágico de Oz. Era um estudo de recepção. Trabalhei com cerca de 200 crianças de escolas públicas que assistiram à obra e responderam questionários que davam conta da percepção estética, da linguagem e narrativa. No terceiro ano, acompanhei um grupo que tinha participado da segunda etapa. Com uma professora, na sala de aula, pude intensificar o trabalho de cinema na escola. Trabalhamos com a análise, interpretação, gênero, roteiro, linguagem e fotografia. Desenvolvi todo um trabalho de linguagem audiovisual. E mais tarde, fui fazer um estudo de recepção na Itália. Lá também fiz essa mesma pesquisa de recepção, trazendo o olhar de outro contexto. Observando o que tem em comum entre as crianças brasileiras e italianas. O que as aproximam? O que muda? O que é da criança, o que é da cultura e o que é da escola? Quando voltei ainda retornei ao grupo e decidimos produzir um vídeo sobre a vida das crianças brasileiras para ser visto pelas crianças italianas que ficaram muito curiosas em conhecer a nossa realidade. Foi um percurso de apreciação, análise, fruição, interpretação e também de produção e expressão.


revistapontocom – As crianças italianas também viram o Mágico de Oz? Por que este filme?
Monica Fantin – Sim, elas também viram o filme. A escolha é justificada por vários motivos, mas, principalmente, pelo fato de Salman Rushdie ter afirmado que ter assistido ao O Mágico de Oz fez dele um escritor. Esta resposta foi muito inspiradora para mim. Fiquei pensando: como então uma experiência tão potencializadora poderia ainda mobilizar as crianças dos dias de hoje, considerando que a produção, a primeira voltada para o público infantil, é de 1939. Além disso, o filme fala sobre o mundo da criança, trabalha com arquétipos universais.


revistapontocom – Foram praticamente quatro anos de pesquisa. Muita informação, muito material. A partir de todos esses dados, o que a senhora concluiu?
Monica Fantin – Trabalhei com algumas categorias. Por exemplo: em representação, queríamos ver o que é um filme para a criança. O que o filme tem que ter para agradá-la. As respostas foram unânimes, tanto aqui quanto lá. Tem que ter fantasia, ser bem-humorado, ser divertido… Vimos também a experiência estética das crianças frente ao cinema e a questão da apropriação. Afinal, o que as crianças levam do filme? O que é possível aprender? Não no sentido da mensagem, mas que outras questões elas conseguem levar para a vida? Lembro de uma frase de uma menina que me chamou muita atenção. Ela disse que quando viu a personagem Dorothy caminhando pela estrada dos tijolos das pedras amarelas percebeu que não precisava mais sentir medo de ir sozinha ao mercado. Ela fez uma relação de apropriação da história do filme com uma situação da vida concreta dela. Uma coisa aparentemente banal, mas que a criança se sentiu fortalecida a partir das identificações e ou diferenciações que o filme promoveu. É claro que a apropriação é uma questão sempre contextualizada a partir da história de vida das crianças, do capital cultural, das condições de acesso, das mediações escolares, mas é perceptível que as crianças não só captam, às vezes, as mensagens explícitas dos filmes como também transgridem e constroem outras conexões.


revistapontocom – Poderíamos replicar essa apropriação para outras telas também audiovisuais?
Monica Fantin – Em geral, o processo de apropriação acontece, seja na tevê ou no cinema, por exemplo. Mas são formas diferentes de ver. O que a sala de cinema propicia em termos de imersão, de ritual, de tempo e espaço vai possibilitar um tipo de apropriação diferente de quando se assiste ao vídeo no DVD, onde a atenção está distribuída e com outras interferências, podendo parar quando quiser. Muda a experiência, mas, sim, ambas podem ser significativas. É possível construir significados e sentidos de qualquer forma, dependo, é claro, do sentido que se quer.


revistapontocom – Observa-se hoje que boa parte da população brasileira – criança, jovem, adulto e idoso – não tem o costume de frequentar as salas de cinema, por diversos motivos. E o que se constata muitas vezes é que o fato de não ir ao cinema não faz diferença alguma na vida destas pessoas. Para elas, o cinema não faz parte da vida e muito menos é essencial. Como a senhora avalia isso?
Monica Fantin – Ninguém ama aquilo que não conhece. Considerando que o acesso à cultura é direito da criança, acredito que cabe às políticas públicas oferecer e criar condições para promover essa aproximação, mas também é necessário pensar nas mediações da educação com a produção cinematográfica. Toda uma riqueza de experiência que poderia estar sendo construída não está sendo possibilitada. Toda essa diversidade de imaginário que o cinema traz – como arte, linguagem, indústria e entretenimento – está sendo tolhida. Não se está oportunizando a experiência estética, lúdica, participativa e também de aprendizado, de conhecimento de si e do outro, do mundo, de pertencimento.
revistapontocom – A visão de que o cinema proporciona experiências positivas está presente na escola? Monica Fantin – Infelizmente, muito pouco. Porque os professores também não têm essa formação, não vão ao cinema. O cinema na escola ainda é visto como tapa-buraco. Faltou professor, ele entra. Ou está na escola apenas para ilustrar conteúdo, como uma ferramenta. Ele pode ser isso, mas não é só isso. No livro, falo sobre esta questão. Sobre o cinema como objeto de conhecimento e também como ferramenta pedagógica. Na Itália, há uma disciplina de linguagem audiovisual junto ao ensino da arte. Afinal, a Itália possui uma tradição cinematográfica bem diferente da nossa.


revistapontoocom – Podemos dizer que o Brasil de certa forma ensaiou uma tentativa de iniciar uma tradição entre cinema e educação com a criação e a produção do Instituto Nacional de Cinema Educativo (Ince), na década de 30?
Monica Fantin – Sim. Houve uma perspectiva de trabalho, de projeto de educação e cinema, como política pública. Só que não teve continuidade, não se fortaleceu e se consolidou. Sobraram várias experiências e movimentos localizados. Não se consolidou como cultura nem na política pública, nem no cinema e nem na escola.

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