domingo, 30 de outubro de 2011

Jornais usam redes sociais, mas faltam regras

Os principais jornais do país já usam as redes sociais — Facebook, Twitter e YouTube — como ferramentas para acompanhar notícias, buscar personagens e fontes e checar boatos. Mas a maior parte ainda não tem uma política para disciplinar o uso dessas redes pelos jornalistas. A conclusão é de pesquisa feita pelo Grupo RBS e divulgada no seminário de comunicação digital "Os Desafios Éticos e Legais das Empresas Jornalísticas", realizado pela Associação Nacional de Jornais (ANJ) na Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM) em São Paulo. O evento reuniu representantes de O GLOBO, Grupo O Estado de S.Paulo, Grupo Folha, Grupo RBS, Gazeta (do Espírito Santo) e Gazeta do Povo (do Paraná).
O diretor do Comitê Editorial da ANJ e diretor-geral de Produto do Grupo RBS, Marcelo Rech, destacou que a internet trouxe novas questões éticas:
— Temos questões difíceis. A quem pertence um blog: ao jornalista ou à empresa? Quando o jornalista twitta, é uma relação pessoal? A empresa pode intervir? Se intervém, inibe direitos individuais e de expressão?
Foram entrevistados representantes de 80 publicações brasileiras. A maioria (68,8%) disse usar as redes sociais com frequência, além de incentivar seu uso por repórteres. Acompanhar notícias (100%), buscar personagens e fontes (93%) e verificar rumores (75%) são os principais objetivos. Mas os jornalistas também as usam para divulgar o próprio trabalho (64%), manifestar opiniões (39%) e discutir assuntos pessoais (10%).
— A pesquisa mostrou que as regras para o uso das redes sociais pelos veículos de comunicação ainda são informais (55%) ou não existem (22,5%).
Mas 70% disseram ter um profissional para acompanhar as mídias sociais na redação. Isso mostra que os veículos tomam cuidado para não se exporem quando um jornalista faz um comentário pessoal, mas se policiam para não cercear o direito à liberdade de expressão — disse Elaine Lõsch, gerente-executiva de Pesquisa do Grupo RBS e responsável pelo levantamento.
Segundo a pesquisa, 9% dos entrevistados disseram já ter demitido jornalistas por uso inadequado das redes.
Diretor de pós-graduação em Jornalismo da ESPM, Eugênio Bucci ponderou que, apesar das questões por resolver, os veículos tradicionais têm conseguido a confiança dos internautas:
— Os veículos jornalísticos tradicionais ganham autoridade na era digital, porque o cidadão conhece a história de independência dessas redações. Isso só acontece porque os interesses religiosos, políticos e comerciais ficam longe das redações.
Comentários de internautas precisam de moderação
Para o diretor de Conteúdo do Grupo O Estado de S.Paulo, Ricardo Gandour, a qualidade é fundamental:
— Só teremos sucesso num modelo de negócios sustentável se nosso conteúdo for de relevância necessária e inimitável.
Na opinião do editor executivo de Plataformas Digitais
do GLOBO, Pedro Doria, a internet trouxe pressões novas, mas o respeito à notícia deve ser sempre mantido.
—Não deve haver duas éticas: uma para os meios tradicionais de comunicação e outra para o digital. Novas plataformas impõem pressões novas. Mas temos sempre de voltar para os mesmos valores que sustentam o jornalismo tradicional, como o respeito pela notícia.
Em debate mediado pelo diretor de redação do GLOBO, Ascânio Seleme, o jornalista Ricardo Feltrin, secretário de Redação de Novas Mídias do Grupo Folha, lembrou que os comentários de internautas é outra polêmica.
— Se não existe moderação, vira uma terra de ninguém.
Para o jornalista Caio Túlio Costa, um dos criadores do portal UOL e consultor de novas mídias, não se pode ter leis que impeçam a liberdade, mas é possível moderar comentários.
— As pessoas devem ser responsabilizadas pelo que escreverem.
Fonte: O Globo - Digital & Mídias 27/10/2011

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