quinta-feira, 13 de outubro de 2011

Professores nas telenovelas


Compartilhamos abaixo entrevista feita pelo jornalista Marcus Tavares à professora e pesquisadora Jô Levy, da Universidade Estadual de Goiás (UEG) e publicada no dia 11 de Outubro de 2011 na RevistaPontoCom. Sua dissertação de mestrado foi sobre o estereótipo do professor nas telenovelas. Confira e reflita!

Pergunte para qualquer brasileiro qual é o seu principal meio de informação e entretenimento. A resposta certamente é a televisão. O eletrodoméstico criado nos anos 50 tornou-se há muito tempo parte da família, numa relação de confiança, conhecimento, troca e pertencimento. Nesta relação, os brasileiros se veem e são vistos e muitas vezes é a tevê quem estabelece padrões de comportamento e estereótipos.


Na semana em que comemora-se o Dia dos Professores, a revistapontocom conversou com a Jô Levy, professora do curso de comunicação social da Universidade Estadual de Goiás (UEG) e coordenadora pedagógica do projeto Telinha de Cinema (http://casadaarvore.art.br). Em 2006, Jô fez as contas: das 567 telenovelas produzidas de 1951 a 2006, 31 apresentaram personagens professores. “Professores estereotipados”, afirma.
A pesquisa que deu origem à dissertação de mestrado O professor como personagem na telenovela: identidade docente e interação com a imagem da TV, defendida na Universidade Federal de Goiás. No estudo, Jô classificou sete categorias de professores: atrapalhado, arcaico, objeto de desejo, a pura e a casta, o show men, os malditos e os heróis e heroínas.

revistapontocom – Que tipo de professores encontramos na teledramaturgia brasileira? 
Jô Levy – Uma galeria de tipos. Especificamente nas telenovelas, de forma mais recorrente observo sete tipos: o atrapalhado, o arcaico, o objeto de desejo, a pura e casta, o show men, os malditos e os heróis e heroínas. Cheguei a esta classificação fazendo um levantamento num universo de 567 telenovelas brasileiras, produzidas desde 1951, quando foi ao ar a primeira, até 2006, ano da pesquisa de mestrado que realizei pela Universidade Federal de Goiás. A presença desses tipos confirma o que talvez supomos como espectadores, isto é, a presença de estereótipos na composição dos personagens.
Eis a descrição dos tipos que encontrei:
- O atrapalhado – Intelectual tímido e atrapalhado, tão dedicado aos livros que relega sua sexualidade a um plano secundário. Exemplo: Caio Szemanski, interpretado por Antônio Fagundes em Rainha da Sucata (Rede Globo/1990).
- O arcaico – São homens que demonstram erudição e austeridade. Postados no alto patamar do saber, são inacessíveis. O “arcaico” é um típico professor da pedagogia tradicional, em que a centralidade do ensino está no mestre. Exemplo: Professor Astromar, interpretado pelo ator Ruy Resende em Roque Santeiro (Rede Globo/1986).
- O objeto do desejo – São os que involuntariamente ou não despertam a paixão de seus alunos. Poderia ser identificada, nessa categoria, as seguintes personagens: Lu (interpretada por Leila Lopes, em Renascer. Rede Globo/1993), Mariquinha (interpretada por Carolina Kasting, em Cabocla. Rede Globo/2004), Clotilde (interpretada por Maitê Proença, em O Salvador da Pátria. Rede Globo/1989) e Raquel (interpretada por Helena Ranaldi, em Mulheres Apaixonadas. Rede Globo/2003). Não só mulheres se enquadram nesse perfil, mesmo personagens masculinos fazem esse tipo.
- A pura e casta – É o estereótipo da mulher bonita, meiga e feliz, indiferente ao contexto político e econômico do qual faz parte. Nessa perspectiva, a escola é uma extensão da casa e a docência uma consequência natural do “ser mulher”. Uma professora assim, dificilmente estará desenvolvendo algum trabalho científico, investindo no seu aperfeiçoamento profissional ou pleiteando melhores condições de trabalho. Exemplo: Márcia, interpretada por Malu Mader, em O dono do mundo (Rede Globo/1991) e Helena, interpretada por Gabriela Rivero, em Carrosel (SBT/1991).
- O show men – Esses professores tornam a aula um momento de mise-en-scène, personificando um ensino que visa muitas vezes ao espetáculo e nem sempre à reflexão. Na vida real, esse perfil encontra expressão entre os professores de cursos preparatórios para o vestibular e concursos. Exemplo: Rubinho, interpretado por Luís Melo em Cara & Coroa (Rede Globo/1995) e Afrânio, interpretado por Charles Paraventi em Malhação (Rede Globo/2005).
- Os malditos – Não é comum um personagem-professor fazer o “tipo maldito”, até porque se pressupõe que o docente represente um modelo de conduta a ser seguido pelos alunos. Exemplo: Santana, alcoólatra interpretada por Vera Holtz em Mulheres Apaixonadas (Rede Globo, 2003) e May, prepotente e antiética, interpretada por Camila Morgano em América (Rede Globo, 2005).
- Heróis e heroínas – São protagonistas nas tramas e o ofício da docência é um elemento constitutivo da caracterização do personagem, além de ser relevante no desenrolar do enredo. Exemplo: Fábio, interpretado por Nuno Leal Maia em A Gata Comeu (Rede Globo/1985), Clotilde, interpretada por Maitê Proença em O Salvador da Pátria (Rede Globo/1989) e Eduardo, interpretado por Fábio Assunção em Coração de Estudante (Rede Globo/2002).
revistapontocom – Na teledramaturgia brasileira e considerando os personagens professores, a ficção imita a realidade?
Jô Levy – Não, porque a realidade vivida por um professor brasileiro é muito mais complexa do que as composições estereotipadas de professores criadas na ficção. Entretanto, há um diálogo entre ficção e realidade, de tal maneira que é possível encontrar elementos de uma dimensão na outra. revistapontocom – A ficção da teledramaturgia ajuda a construção da representação social do que é professores pelos telespectadores? Jô Levy – Sim. E nisso reside a preocupação com o tipo de imagem de professores que circula em veículos de grande audiência como a televisão. Nosso imaginário é alimentado por imagens midiáticas, muitas delas tipificadas e classificadas segundo os parâmetros de relevância e visibilidade, próprios do mundo midiático. Do total de 567 telenovelas pesquisadas, apenas 31 apresentam personagem professor. Para levantar esse dado, considerei a sinopse das novelas e a relação dos personagens. Na classificação do material pesquisado, 13 protagonistas foram identificados como professores, entretanto, na trama, sua condição profissional se apresentava, na maioria dos casos, como assessória ou apenas como um componente dramático, ou seja, um elemento cuja função é complementar, não possuindo a profundidade que se requer de um personagem mais elaborado. Os poucos personagens identificados como professores não tornam relevante a categoria profissional docente, porque na lógica da mídia, o que é relevante é aquilo que é mais visto.
revistapontocom – De onde os escritores de novela buscam os personagens professores? 
Jô Levy – Creio que cada autor percorre um itinerário próprio para a elaboração de sua obra, contudo, quando não conhecemos profundamente uma realidade ou não a experimentamos, em geral, recorremos ao repertório compartilhado socialmente ou em outras palavras, aos clichês.
revistapontocom – Em sua pesquisa, como os professores de Goiânia avaliam os personagens professores da telenovela? 
Jô Levy – Primeiro é importante destacar que eles demonstraram certa aversão à televisão e às telenovelas. Observo que essa rejeição está enraizada no divórcio que ainda prevalece entre as áreas de conhecimento da educação e comunicação e mais especificamente entre os campos da escola e da mídia. Além disso, a identidade profissional é uma mediação importante na recepção, porque intervém na leitura, interpretação e produção de sentidos perante as imagens produzidas pela mídia. Sendo assim, professores não assistem à tevê do mesmo modo que um médico ou uma dona de casa. E qual é a particularidade desse olhar? É um olhar situado no cotidiano de seu ofício e na imagem que tem de si mesmo. Nos dados colhidos junto aos professores de Goiânia, foi possível observar que a identificação, o estranhamento e a idealização aparecem na leitura da representação de professor feita pelos docentes da vida real. As respostas dos pesquisados referente aos personagens revelaram que nem sempre o mais lembrado foi aquele com o qual mantinham uma relação de identificação, muitas citações demonstravam o oposto, que os personagens vinham à memória justamente pelo estranhamento. De qualquer modo, mais da metade dos professores pesquisados disseram não se identificar com a representação de professores da tela. Entre os motivos, alguns afirmam que eles denigrem a imagem do professor da vida real, estão fora da realidade vivida pelos docentes, são estereotipados e não possuem relevância na trama.
revistapontocom – De 2006 para cá, outros personagens professores apareceram nas tramas. Em Sete Pecados, um dos cenários era a escola, palco de violência. Hoje, inclusive, uma das personagens da trama das 21 horas é uma professora de ensino superior. Nas duas, vemos o retrato do estereótipo? Nada mudou?
Jô Levy – A personagem Letícia, vivida pela atriz Tânia Kalil, na novela Fina Estampa (Rede Globo/2011), é uma viúva, um pouco desajeitada e só pensa na profissão, ou seja, um exemplar do tipo “atrapalhado”. Diferente das novelas que pesquisei até 2006, em Sete Pecados (Rede Globo/2007) tínhamos uma escola pública. O ambiente da escola e seus personagens tinham relevância na trama, o que é bom. A diretora da escola, vivida por Gabriela Duarte, lembra o personagem Mark Thackeray, interpretado por Sidney Portier no filme “Ao mestre com carinho” (1966). A diretora tem uma relação “missionária” com a educação, afinal encontra uma escola caótica e vai trabalhar duro para que alunos e funcionários se “regenerem”. O problema de personagens assim é que nos levam a crer ingenuamente que as mudanças na educação brasileira, que é um sistema articulado (ou desarticulado) por políticas públicas, podem ser resolvidas apenas no âmbito da escola e pelos bons propósitos de alguns professores. Acho que na ficção ainda nada mudou.
Fonte: RevistaPontoCom (http://www.revistapontocom.org.br/destaques/professores-nas-telenovelas)

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