quinta-feira, 8 de março de 2012

Ismar de Oliveira Soares (USP): uso educomunicativo do rádio pode trazer alegria e autoconfiança


Compartilhamos entrevista com o professor da USP, Ismar de Oliveira Soares, publicado na Edição 68 do Jornal do Professor/ Portal do Professor, do MEC. Boa leitura! Boas reflexões!
Professor titular da Universidade de São Paulo (USP), Ismar de Oliveira Soares coordena, desde 1996, o Núcleo de Comunicação e Educação da Escola de Comunicações e Artes. Coordena, também, a implementação da Licenciatura em Educomunicação junto à Escola de Comunicações e Artes da USP. Exerce, ainda, a função de supervisor do Projeto Mídias na Educação do MEC, no Estado de São Paulo.
Mestre e doutor em Ciências da Comunicação pela USP, com pós-doutorado pela Marquette University Milwaukee, WI, USA, é bacharel em geografia e em jornalismo e licenciado em história.
Em entrevista ao Jornal do Professor, Ismar Soares fala sobre os benefícios do rádio na educação. Em sua visão, a implantação de uma rádio na escola pode representar o primeiro passo para uma mudança mais profunda na maneira de educar e ser educado. “O uso educomunicativo do rádio pode trazer para a escola a alegria do pertencimento e a autoconfiança próprio do exercício do protagonismo infanto-juvenil”, defende.
Ele fala, ainda, sobre os equipamentos básicos necessários para a produção de programas de rádio em uma escola, o curso de licenciatura em Educomunicação criado pela Escola de Comunicações e Artes da USP, em 2009 e o Projeto Educom.rádio, em funcionamento, desde 2001, na rede municipal de ensino de São Paulo.
Jornal do Professor – Quais os benefícios que a utilização de uma rádio na escola pode trazer para o ensino e a educação?
Ismar de Oliveira Soares – Os benefícios são de duas ordens: didática e política. Para o processo de aprendizagem, numa perspectiva didática, uma rádio na escola abre a possibilidade de um tratamento diferenciado tanto para as atividades interdisciplinares e extraclasses, quanto para o desenvolvimento dos conteúdos curriculares, permitindo aos alunos lidar com novas linguagens. Favorece, especialmente, as propostas de ensino integral, como se constata pela preferência das escolas vinculadas ao macrocampo “Comunicação e uso de Mídias”, do programa Mais Educação do MEC, pela mídia rádio. Já numa perspectiva mais complexa, sob o ponto de vista da educomunicação, a prática da linguagem radiofônica é um excelente recurso na construção do que definimos como “ecossistema comunicativo aberto e democrático”. Em outras palavras, uma rádio na escola favorece o exercício de relacionamentos igualitários e colaborativos entre todos os membros da comunidade educativa, envolvendo professores e alunos. Isso ocorre, naturalmente, quando os educadores valorizam o trabalho em grupo e não as iniciativas isoladas deste ou daquele pequeno gênio. O grande benefício, no caso, passa a ser de natureza política: os alunos acabam aprendendo que existem outras formas de produzir comunicação, além do modelo clássico, pelo qual o direito de expressão é garantido apenas a indivíduos e grupos privilegiados política ou economicamente.
JP – Quais as habilidades que o projeto de uma rádio pode desenvolver com professores e alunos?
I. O. S. – Mais que desenvolver habilidades específicas, como a da expressão oral, uma prática comunicativa com o uso da linguagem radiofônica, quando assumida e utilizada pelos próprios alunos, pode favorecer o desenvolvimento de um paradigma diferenciado de educação: aquele identificado por Paulo Freire como sendo essencialmente dialógico e participativo. Trata-se de um paradigma que necessita, para ser efetivo, estar claramente explicitado na política político-pedagógica da escola, levando em conta que toda a comunidade, a começar pelo corpo docente, necessita afirmar a intenção de busca por este formato de relacionamento no interior do espaço educativo. No caso, um uso educomunicativo da linguagem radiofônica leva, ao final, ao fortalecimento coletivo de uma grande habilidade: a de ampliar os espaços de expressão nos ambientes de ensino, como propõem, por exemplo, os novos parâmetros para o ensino fundamental de 9 anos.
JP – De que maneira o professor pode utilizar essa ferramenta na sala de aula? Quais os conteúdos que podem ser desenvolvidos por meio dela?
I. O. S. – Podemos falar em “ferramentas” e em “conteúdos” quando pensamos no uso deste recurso no contexto da prática de ensino. No caso, a primeira disciplina a ser beneficiada é a língua portuguesa, favorecendo, por exemplo, a compreensão da diferença entre a língua culta e a linguagem popular. Através da produção de pequenos programas de rádio podem ser experimentadas as várias opções de expressão, do gênero descritivo ao opinativo, em formatos, os mais variados, enriquecidos com a mixagem de linguagens, em que a voz humana é associada aos cenários sonoros oferecidos pela música instrumental e cantada. Outras disciplinas, especialmente as que privilegiam as narrativas, como a história e a geografia, ou mesmo atividades interdisciplinares, como as voltadas para a educação em valores ou a educação ambiental, apresentam-se como espaços naturais para o uso da linguagem radiofônica. No entanto, entendemos que a presença de uma rádio na escola pode representar o primeiro passo para uma mudança mais profunda na maneira de educar e ser educado: a autogestão do conhecimento sobre o próprio processo de comunicação: o uso educomunicativo do rádio pode trazer para a escola a alegria do pertencimento e a autoconfiança próprio do exercício do protagonismo infanto-juvenil.
JP – Como inserir o projeto de uma rádio escolar no projeto pedagógico da escola? Há sugestões de projetos prontos bem desenvolvidos?
I. O. S. – A linguagem radiofônica pode entrar num programa de ensino em diferentes fases, dependendo do entendimento dos gestores ou dos professores sobre a relação entre educação e meios de comunicação: A primeira fase é a da aproximação, mediante oficinas sobre as características da linguagem e do uso dos diferentes equipamentos indispensáveis à produção de spots e de pequenos programas. Os alunos se aproximam desta primeira escala numa perspectiva lúdica: o que querem mesmo é brincar! É preciso levar em conta que, independentemente da idade (alunos do fundamental ou ensino médio), um equipamento de produção radiofônica aproxima o estudante de seu cotidiano e faz vibrar sua imaginação.
A segunda fase é a do uso do rádio como apoio didático, quando a linguagem midiática passa a ser usada para integrar os diferentes processos de ensino/aprendizagem sobre objetos específicos do conhecimento. Nesse momento, o papel do professor é essencial, não apenas para orientar os alunos sobre os conteúdos a serem desenvolvidos, mas também ajudá-los sobre as maneiras de empregar a linguagem radiofônica em seu tratamento. Como os professores, em geral, não têm familiaridade com as linguagens midiáticas, a assessoria de um especialista, como o educomunicador, passa a ser de grande valia, nessa etapa.
Já a terceira fase diz respeito à opção pela prática educomunicativa, quando o uso do rádio se associa ao de outras linguagens, integrando professores e estudantes em projetos interdisciplinares voltados expressamente para melhorar as relações de comunicação no interior no da escola. Em geral, a busca pela construção de ecossistemas comunicativos abertos e criativos se associa ao tratamento de outros objetivos relacionados com a prática da cidadania, como o envolvimento da comunidade com a educação ambiental, a redução ou eliminação do bullying, ou mesmo a promoção do protagonismo infanto-juvenil no desenvolvimento de ações de interesse da comunidade educativa.
Quanto a possíveis sugestões a partir de modelos já aplicados, podemos lembrar a prática educomunicativa nas escolas da rede municipal da cidade de São Paulo, iniciada a partir do curso Educom.rádio, oferecido às escolas públicas pelo Núcleo de Comunicação e Educação da USP, entre 2001 e 2004. Passados dez anos do início do projeto, em aproximadamente 300 escolas desta rede de ensino são encontradas atividades que correspondem às diferentes fases ou etapas de uso do rádio na educação, associando, nesse processo, outras linguagens, todas mediadas pelo computador e pela internet. Especialistas têm sido contratados pela prefeitura, desde 2009, para colaborar na manutenção do processo em todas as escolas que optam pela educomunicação. Informações sobre as ações da prefeitura nessa área podem ser encontradas no blog: http://blogandonasondasdoradio.blogspot.com/
JP – Quais os equipamentos básicos necessários para que uma escola possa produzir programas de rádio?
I. O. S. – Para produzir um programa de rádio, precisamos de poucos recursos: um gravador de mão digital para entrevistas e captação de matérias em externa (alguns telefones celulares vêm com esse recurso); um computador com microfone, para gravar as locuções; e um programa de edição de áudio que possibilite a edição final do programa. Pode-se usar um software livre chamado Audacity para essa atividade. Este software permite a inclusão de fundo musical e efeitos sonoros no programa que está sendo produzido.
O programa pronto pode então ser salvo em um formato de áudio como o MP3. Nesse formato, ele tanto pode ser reproduzido no local, para ser ouvido pela comunidade escolar, para o que será necessário que se tenha à disposição um amplificador e caixas de som, ou mesmo disponibilizado na internet. Para a disponibilização na ciberespaço existem várias alternativas. Uma delas é o Podomatic, um site onde pode ser criada uma página para a rádio, nela disponibilizando todos os programas produzidos.
JP – O senhor se referiu ao Projeto Educom.rádio, implantado em 2001, pela USP, na rede municipal de ensino de São Paulo. O que pode nos contar a respeito dessa experiência?
I. O. S. - É importante lembrar, inicialmente, que o projeto Educomunicação pelas Ondas do Rádio - Educom.rádio - foi desenhado a pedido da Secretaria de Educação como um programa especial, fora da área curricular, destinado a combater a violência nas escolas públicas. Entendiam a Prefeitura e o NCE-USP que, através de uma prática educomunicativa voltada a cultivar relações dialógicas entre professores e alunos, mediante uma gestão compartilhada dos recursos da comunicação, seria possível obter o que outras iniciativas não haviam alcançado.
Para tanto, a formação - oferecida aos sábados, ao longo de 12 semanas, em sete fases, correspondentes a sete semestres sucessivos, entre 2001 e 2004 - buscou atingir 25 pessoas de cada uma das 455 escolas matriculadas (aproximadamente 12 professores, 10 alunos e três colaboradores da comunidade).
Um total de 11 mil membros das comunidades educativas (sendo 6.600 professores, 3.500 alunos e 900 membros das comunidades) foram habilitadas a planejar o uso do rádio para melhorar as relações de comunicação em suas respectivas escolas. As formações ocorriam em polos, nas várias regiões da cidade, reunindo, cada um, entre 80 a 120 pessoas.
O que caracterizou a formação foi o fato de ter sido oferecida conjuntamente a professores e alunos, justamente para facilitar o exercício do convívio e da solução compartilhada dos problemas que afligiam suas respectivas unidades escolares. Um vídeo no Youtube apresenta os detalhes da proposta.
Ainda no final do ano de 2004, o Educom.rádio foi transferido da área dos projetos especiais para a área curricular, a partir do entendimento de que interessava à política da Secretaria de Educação que o tema da gestão da comunicação se convertesse em preocupação central para gestores e docentes.
No dia 12 de dezembro de 2011, a Secretaria de Educação celebrou, no CEU Aricanduva, na Zona Leste da cidade, no dia 12 de dezembro, os dez anos da prática educomunicativa nas escolas públicas do município, fato inédito, somente possível pelo compromisso assumido tanto pelas sucessivas administrações como por professores e alunos no sentido de manter os fundamentos da ação educomunicativa, voltada essencialmente para ampliar as habilidades comunicativas dos professores e alunos, assistidos pelo poder público através de uma coordenação central e de um programa de reforço na capacitação de seus docentes.
É comum encontrar alunos das escolas municipais entrevistando autoridades, intelectuais, especialistas e políticos em eventos como a Campus Party ou a Bienal do Livro, publicando suas produções nas web-rádios de suas escolas. O que mais chama a atenção, no entanto, é o convívio diferenciado nas escolas que optam pelo modelo educomunicativo do uso do rádio.
JP – O senhor coordena a implementação da licenciatura em Educomunicação junto à escola de Comunicações e Artes da USP. Qual é o objetivo básico desse curso? Que tipo de profissional ele irá formar?
I.O. S. – A licenciatura em Educomunicação foi criada, na USP, em novembro de 2009, depois de 10 anos de investigação científica e de assessoria a políticas públicas de educação por parte do Núcleo de Comunicação e Educação da mesma universidade. Foi, na verdade, em 1999, que o NCE concluiu uma pesquisa envolvendo a América Latina sobre a natureza das relações entre a comunicação e a educação, identificando, ao final, que um procedimento diferenciado marcava a prática dos sujeitos sociais que trabalhavam na interface entre a comunicação e a educação. Tais agentes culturais, que vinham trabalhando nessa linha alternativa ao longo de toda a segunda metade do século XX, entendiam que a comunicação, quando implementada de forma democrática e solidária, representava um eixo transversal para todo o processo educativo, transformando-o em seus procedimentos e resultados. Nessa perspectiva, entendiam os mesmos agentes que as tecnologias, mais que suportes ou ferramentas a serviço da educação, poderiam até mesmo influenciar os próprios paradigmas que regiam as práticas educativas. A opção destes agentes culturais foi denominada pelos pesquisadores do NCE-USP como Educomunicação. O termo, em si, já vinha sendo usado desde os anos de 1980 pela Unesco para designar os projetos de educação para os meios (media education). Ao ser ressemantizado pelo NCE-USP, o conceito passou a englobar outras áreas de trabalho, entre as quais as “mediações tecnológicas” a serviço das relações dialógicas nos espaços educativos, alcançada apenas quando a comunicação passa a ser uma ação compartilhada pelos sujeitos vivos do processo educativo, em igualdade de condições. É o que se denomina como “gestão da comunicação nos espaços educativos”, entendida sempre como necessariamente participativa.
O problema que se colocou para o NCE-USP foi o de levar à prática a teoria que havia elaborado a partir de suas pesquisas, provando, primeiramente para a sociedade e depois para a própria universidade, que era viável aplicar o conceito a realidades complexas, como as que se fazem presente em espaços como os representados pelas redes escolares, públicas ou privadas.
Nesse sentido, entre 1999 e 2009, uma série de experiências foram realizadas e documentadas, tanto no âmbito escolar como no âmbito das práticas sociais, envolvendo a educação não-formal. A rapidez com que o conceito se difundiu e o modo como alcançou dialogar com segmentos da sociedade, como os envolvidos com a educação ambiental, a mídia educativa e cultural e os sistemas educativos público e privado, acabou dando sustentação para que a USP aceitasse os argumentos da Escola de Comunicações e Artes e permitisse que um novo curso, em nível de graduação, fosse instalado, em seus campus, no Butantã, na cidade de São Paulo.
A licenciatura em Educomunicação formará, em primeiro lugar, um professor de comunicação para atender as demandas do Ensino Médio. Formará, simultaneamente, um assessor tanto para os sistemas educativos, presenciais e a distância, quanto para os demais segmentos sociais voltados para a relação entre a comunicação e a educação, como o Terceiro Setor e a própria Mídia.
No caso das linguagens da comunicação - como é o caso do rádio - no ensino infantil, fundamental ou médio, o novo profissional prestará consultorias e assessorias que facilitem o trabalho de seus colegas professores e dos próprios alunos, garantindo subsídios teóricos e técnicos que assegurem que a comunidade educativa seja beneficiada, como um todo, pelo emprego compartilhado e democrático destes recursos, colaborando, desta forma, para ampliar o potencial comunicativo dos sujeitos sociais.
Fonte: Portal do Professor

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