segunda-feira, 26 de março de 2012

O prazer da leitura e do silêncio da fruição

Por Cristiane Parente

A função do leitor/1
“Quando Lucia Peláez era pequena, leu um romance escondida. Leu aos pedaços, noite após noite, ocultando o livro debaixo do travesseiro. Lucia tinha roubado o romance da biblioteca de cedro onde seu tio guardava os livros preferidos.
Muito caminhou Lucia, enquanto passavam-se os anos. Na busca de fantasmas caminhou pelos rochedos sobre o rio Antioquia, e na busca de gente caminhou pelas ruas das cidades violentas.
Muito caminhou Lucia, e ao longo de seu caminhar ia sempre acompanhada pelos ecos daquelas vozes distantes que ela tinha escutado, com seus olhos, na infância.
Lucia não tornou a ler aquele livro. Não o reconheceria mais. O livro cresceu tanto dentro dela que agora é outro, agora é dela”.
Eduardo Galeano

Caros leitores, começo nossa conversa lembrando que o prazer de ler tem a ver com o prazer de ser também autor.

Cada texto, cada livro lido é um novo texto e livro construídos em cada leitor. Mas para que isso aconteça, é preciso que permitamos, pais e educadores, a fruição da leitura, o direito ao silêncio, para fazer com que texto e livro cresçam dentro dos leitores-autores que são nossos filhos e alunos.

No livro “Como um Romance”, Daniel Pennac faz uma série de provocações a todos nós que, em algum momento, questionamos porque os adolescentes/jovens de hoje não gostam de ler; a todos aqueles que culpam a televisão ou o computador – que nós mesmos não apagamos - pela falta de leitura. Pennac pergunta onde foi parar aquele pequeno leitor que nos pedia para contarmos a mesma história duas, três vezes à noite sob os lençóis, e que era ávido por aprender a ler.

Em que momento perdemos esse leitor-autor? Foi quando ele chegou à escola e ficou sobrecarregado de tarefas e perguntas: Quem é o personagem principal? Qual a história central? Sem que ao menos tivesse tempo de fruir a leitura e tomasse contato com os sentimentos que ela despertava nele? Ou foi quando, ao saber que nosso filho aprendeu a ler, nos desobrigamos de ser seu contador de histórias para termos um tempo livre para a televisão (justo ela!)?

De que maneira lidamos com a leitura em casa e na escola? Lemos juntos? Obrigamos a ler? Compartilhamos a alegria de ler, mas também mostramos que nem sempre a leitura pode ser um passeio sem obstáculos?

Pennac sugere uma nova maneira de lidar com a leitura e estabelece os direitos imprescritíveis do leitor. Imprima, leia e reflita sobre eles em família, em classe. Pode ser uma boa maneira de descobrir o leitor que existe em cada um de nós, sem cobranças, permitindo o prazer da descoberta.

1 - O direito de não ler
2 - O direito de pular páginas
3 - O direito de não terminar um livro
4 - O direito de reler
5 - O direito de ler qualquer coisa
6 - O direito ao bovarismo
7 – O direito de ler em qualquer lugar
8 - O direito de ler uma frase aqui e outra ali
9 – O direito de ler em voz alta
10 – O direito de calar.

Artigo escrito para a edição nº 3 do Jornal da Criança - JOCA, da Editora Magia/São Paulo. 

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