terça-feira, 17 de julho de 2012

Os livros que não podem esperar

Por Alexandre Le Voci Sayad
Em tempos de excesso de informação e compromissos, quase tudo se apresenta como prioridade – o texto, para ser mais inteligente, o exercício físico, para viver mais tempo, ou o vídeo, para morrer de rir.  Há ansiedade pairando no ar.
Se não criarmos critérios que nos permitam uma curadoria de nossa atenção, é fácil enlouquecer. Afinal, há coisas que urgem; já outras têm um “tempo de validade” mais longo.  Muitas, não valem nem a atenção.
Mas a habilidade de selecionar e priorizar não é inata. Temos que desenvolvê-la ou confiar em ferramentas, como o Google, que, cremos, nos ajudam na tarefa de separar joio e trigo.
A criatividade tem tornado a curadoria do tempo alheio um excelente negócio. A editora alternativa argentina Eterna Cadência, por exemplo, conseguiu dar relevância a jovens escritores cujos livros geralmente estão no poço da lista de prioridade de leitores. Podemos até comprá-los, mas a leitura fica para depois, afinal, há tantos autores consagrados que nem damos conta!
No entanto, comprar um livro de um iniciante e mantê-lo na estante, ou seja, privá-lo de leitura, pode significar a morte profissional precoce do autor. Não haverá segunda chance ou segunda publicação para ele.
Por isso, utilizando uma tinta especial que se esvai na exposição à luz, esses iniciantes são lançados em livros com “prazo de validade” pela Eterna Cadência.  Ao abrir o lacre das capas, as letras duram apenas dois meses nas páginas. É preciso lê-los logo. Depois, as palavras simplesmente somem, deixam de existir e o livro está pronto para ser reciclado – em branco.
(Veja o vídeo do projeto “O livro que não pode esperar”)
Uma outra forma de selecionarmos informação relevante é confiar na curadoria de quem você considera importante. O botão “compartilhar” das redes sociais é uma maneira de dividirmos nossas escolhas.
Quando soube que o compositor Péricles Cavalcanti estava lançando um trabalho em que musicara poemas clássicos portugueses e brasileiros, coloquei-o no topo da minha prioridade.  Queria escutá-lo, lê-lo ou experimentá-lo. “Compartilhei” imediatamente em minha página do Facebook – era também um livro que não podia esperar.
No caso, o principal motivo do sentido de essencialidade e emergência é que, quando garoto, ouvi a gravação de Caetano Veloso de “Elegia” e minha noção do que poderia ser arte mudou. A tradução de Augusto de Campos para o poema do inglês John Donne foi transformada por Péricles num bolero rebuscado e irônico. Há ali uma mescla de erudito e popular cujas fronteiras são quase imperceptíveis – toques de mestre. A partir dessa experiência, tudo que o Péricles cria, me aguça a atenção.
Não errei na construção de minha curadoria. O livro/CD “O Canto das Musas” (Companhia das Letras, R$ 42) me arrebatou também porque presta um serviço para os jovens leitores: tem o poder de ressuscitar o prazer pela poesia, que as aulinhas de literatura assassinaram nas últimas décadas nas escolas, com seu conteúdo burocrático e vestibularesco.
“Mais Luz!”, por exemplo, de Antero de Quental, é apresentado como folk rasgado, que clama por razão e pelo sol, “amigo dos heróis”.
O belo livro, que acompanha o CD, apresenta análises interessantes dos textos.  Lá pelas últimas faixas, o grupo de músicos participantes (Tulipa Ruiz, Leo Cavalcanti, Juliana Kehl, entre outros) também lê poemas de forma simples e deleitosa.  Quando terminamos ainda a primeira audição, música, palavra e imagem fazem de “O Canto das Musas” uma experiência encantadora.
Mas o que a educação, tema dessa coluna, tem a ver com a curadoria? Acredito que as boas experiências vividas no ambiente escolar, como os projetos em que jovens desenvolvem comunicação, contribuem para construção desse filtro pessoal.
Talvez a característica mais importante da chamada educomunicação seja a capacidade de despertar nos estudantes a importância da seleção da informação relevante. Escrever reportagens e publicá-las implica necessariamente em dar relevância e contexto ao que se acredita – é o que acabo de fazer neste artigo.
O papel da escola hoje deve ser auxiliar o estudante a jogar informação fora; ou seja, deve estar voltada à construção do interesse do estudante e não entupí-lo com mais conteúdo desconexo e potencialmente virtual. O que comumente acontece é uma repetição dessa “educação bancária” tão criticada por Paulo Freire – o aluno torna-se repositório de informação.

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