sexta-feira, 24 de agosto de 2012

Cinema e Educomunicação - 2


Violeta foi para o céu

Por Adilson Citelli
No ano de 1967 duas ocorrências marcaram fundo a geração que na América Latina, e em outras partes do mundo, encontrava-se envolvida com os movimentos libertários: as mortes de Ernesto Che Guevara e de Violeta Parra. Esta, chilena, cantora, compositora, ceramista, artista plástica, agitadora cultural, militante comunista, quando se suicidou, aos cinquenta anos, havia alcançado pleno reconhecimento pela sua obra. As canções de Violeta Parra correram o mundo e foram gravadas, em diferentes momentos, por cantores e cantoras populares: Milton Nascimento, Mercedes Sosa, Elis Regina, para ficarmos com alguns deles. Che Guevara já ganhou toda sorte de referências e várias cinebiografias. Agora é a vez de Violeta Parra. As telas da cidade recebem Violeta se fue a los cielos (Violeta foi para o céu) película ganhadora do primeiro prêmio do festival de Sundance, nos Estados Unidos, em 2012, na categoria de cinema mundial.
O filme é dirigido pelo também chileno Andrés Wood, que já havia realizado o excelente Machuca, um sensível retrato da vida do país andino atravessado pelo golpe militar comandado por Augusto Pinochet. Neste novo trabalho, Andrés Wood, em adaptação a partir do livro escrito pelo filho de Violeta, o também cantor e compositor Angel Parra, consegue a façanha de contar a história de um mito sem incorrer nos problemas comuns que espreitam tal tipo de realização: os apelos encomiásticos, o triunfalismo, a exacerbação idealizadora. O que vemos na tela é a trajetória dramática, humanizada, com tintas e cores que oscilam entre o envolvimento emocionado da artista com o seu povo e o vetor, às vezes patético, de uma personalidade depressiva, a caminho da autodestruição. Neste percurso, porém, acompanhamos os episódios afeitos a uma pesquisadora incansável das fontes populares da música andina, a autodidata que aprendeu cantar e a tocar longe das influências acadêmicas, a mulher capaz de se apaixonar, de se envolver com os problemas do seu tempo. De certa forma, Violeta Parra está em uma linhagem de músicos fortemente inspirados nos elementos do folclore, das tradições populares e, alguns, com tendência militante à esquerda, caso, primeiro, do cantor e compositor norte-americano Woody Guthrie (1912-1967) e, depois, com os devidos ajustes, de Boby Dylan (1941 - ).
O papel de Violeta Parra é vivido pela atriz Francisca Gavilán, em atuação notável, não apenas pelo seu empenho em representar a complexa personalidade de uma mulher que viveu a vida em seus limites, mas por se encarregar das interpretações musicais compostas por Violeta Parra. O que, sem dúvida, significou uma aposta arriscadíssima, da qual atriz emergiu com méritos.
Andrés Wood elabora a sua narrativa fílmica a partir de montagens que rompem com o esquema linear normalmente associado às obras de caráter biográfico. Em Violeta foi para o céu assistimos, contudo, à introdução de estratégias em flashback, com rápidos deslocamentos entre presente e passado. O esquema dos deslocamentos espacio-temporais tanto adiciona vitalidade ao filme como assegura o necessário nível de compreensão aos desdobramentos históricos implicados no percurso artístico e pessoal de Violeta Parra.
O filme, mais do que um apelo nostálgico para se reencontrar uma personagem que teve presença marcante na segunda metade do século passado, tanto na América Latina como no resto do mundo, é um convite para se mergulhar em uma forma de produzir música, em seus diálogos com os materiais gestados no cotidiano dos homens e mulheres simples, conquanto cifrados por rara qualidade estética, harmônica, melódica, e que marcaram definitivamente o imaginário sonoro, sobretudo, latino-americano. Andrés Wood não deixa de provocar o espectador ao reservar a canção mais célebre de Violeta Parra, Gracias a la vida para o final do filme. Após o desfecho trágico da artista, com os letreiros rodando e a plateia em uma espécie de frustração por não ouvir exatamente a composição mais conhecida de Violeta Parra, irrompe o canto exaltação, amoroso, reverencial da vida: “Gracias a la vida que me há dado tanto/Me Dio dos luceros que cuando los abro/Perfecto distingo lo negro del Blanco/Y en el alto cielo su fundo estrellado/Y em las multitudes el hombre que yo amo (...)”. Entende-se, afinal, porque a militante comunista, na voz de Francisca Gavilán, ganhou o caminho do céu.

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