terça-feira, 14 de agosto de 2012

O poder educativo das imagens

Gravuras muitas vezes ignoradas são capazes de estimular o raciocínio, a leitura e até a escrita durante as aulas

Imagens não devem ficar restritas às aulas de Artes. Aquela foto em um livro de História ou Geografia é muito mais útil para o aprendizado de estudantes do ensino fundamental do que se imagina. Se bem discutido e interpretado, esse tipo de material ajuda a desenvolver o raciocínio e estimula a leitura e a produção de textos. Conhecida como leitura de imagem, a atividade faz com que as figuras deixem de ser percebidas como mera ilustração e sejam aproveitadas como recurso pedagógico.

Segundo a professora de Literatura da Universidade Federal do Pa­ra­­ná (UFPR) Marta Morais da Cos­­ta, a lin­­­­guagem visual tem um ritmo pró­­­­prio. Muitos aspectos podem ser analisados nela, como enquadramento, cores, formas, proporção, perspectiva e o que foi destacado. “Uma árvore é mais do que uma paisagem. Pode representar, por exemplo, abrigo ou destruição. Tudo isso tem um significado que precisa ser interpretado pelo aluno.”
Em casa
A partir de livros infantis, os pais também podem estimular os filhos a debaterem sobre as imagens, perguntando o que eles imaginam a partir do que veem. Confira alguns livros:
- Onde vivem os monstros, de Maurice Sendak. Editora Cosac Naify.
- Willy e Hugo, de Anthony Browne. Editora Martins Fontes.
- Willy, o mágico, de Anthony Browne. Editora Martins Fontes.
- Toupi Toca, de David MacPhail. Editora Globo.
Fonte: Yara Amaral, diretora do colégio Projeto 21.
Abrangência
Atividades com figuras são possíveis em diversas disciplinas
Em algumas escolas de Curitiba, a leitura de imagens consegue sair dos planos pedagógicos e ser praticada no dia a dia da sala de aula. Na Escola Anjo da Guarda, por exemplo, livros com figuras – de arte ou não – são deixados no pátio, durante o recreio, para a livre consulta das crianças. Elas podem folheá-los e discutir com os professores.
A diretora pedagógica, Luci Serricchio, conta que, em todas as aulas de Artes, os professores começam as atividades pedindo que os alunos analisem uma imagem. Da mesma forma, docentes de Literatura usam fotografias de jornais e revistas para praticar a interpretação.
No colégio Projeto 21, a interpretação de imagens faz parte das aulas de Filosofia da professora Flaviana Lima. É comum os alunos terem de analisar imagens e escrever uma redação sobre o que foi possível perceber e imaginar diante daquela figura. “A proposta é escrever, construir ideias. Não descrever simplesmente a partir de mera observação”, diz a diretora Yara Amaral. (AS)
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Entretanto, cabe ao professor esse papel. Para se chegar a um resultado, é preciso que ele estimule o debate da imagem em sala de aula, independentemente da disciplina. Em aulas de História, Geografia, Ciências e Português, por exemplo, a tarefa é mais fácil. Mas, até as figuras dos livros de Matemática podem trazer um significado.
Esse tipo de recurso é bastante usado na pré-escola, antes de a criança ser alfabetizada, já que o contato visual é o primeiro estímulo que a criança tem e é a forma de adquirirem habilidades pré-linguísticas. Porém, embora a leitura de imagens esteja prevista nas diretrizes curriculares do ensino fundamental, especialistas e pedagogos são unânimes em dizer que poucos professores estão preparados para conduzir a atividade com qualidade.
O que muitos ainda estão acostumados a fazer é uma leitura formal das figuras, sem explorar suas várias possibilidades e provocar os alunos a perceberem outros sentidos em tudo o que veem. Como a imagem é mais fácil de ser lida, ela chama mais a atenção do estudante e pode ser a porta de entrada para a leitura de textos, até maiores e mais complexos.
Apelo estético
É mais comum nas escolas a análise de imagens de arte por causa do apelo estético, embora todo e qualquer tipo de figura possa e deva ser analisado. Foi a partir dessa constatação que a professora de Artes Visuais da Universidade de Caxias do Sul (UCS) Maria Elena Rossi criou a coleção de livros didáticos As Imagens Falam, que traz um conjunto de 160 imagens de todos os tipos ao final de cada volume para que o professor estimule os alunos a analisá-las.
“Até os 12 ou 13 anos todos percebem as figuras da mesma forma. Com a mesma leitura ingênua. Conforme consolidam sua formação cultural e conhecimento de mundo, mudam a forma de ver. Se estimulados corretamente, conseguem perceber mais características, o que aumenta a perspicácia, atenção e a capacidade descritiva”, explica.
Auxílio na superação de dificuldades
Adriana Czelusniak
As figuras também são um recurso importante no processo de ensino de crianças que têm alguma dificuldade de aprendizagem. Várias abordagens da pedagogia e da psicologia baseiam-se em ilustrações e quadros de rotina com imagens. Esses materiais enriquecem e possibilitam o aprendizado de estudantes com diferentes diagnósticos, como o Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH), dislexia, autismo e outros distúrbios que interferem na comunicação.
No caso do TDAH, os recursos visuais são fundamentais, pois facilitam o entendimento e trazem aspectos mais atrativos para o conteúdo. “Essas crianças tendem a se distrair com muita facilidade. O uso de ilustrações para a transmissão do conteúdo pode prender mais a atenção delas, assim, o nível de concentração também aumenta”, explica a psicopedagoga Priscilla Santana Van Kan.
Segundo Priscila, quando o estudante apresenta dislexia e tem muita dificuldade para ler e escrever, as figuras o ajudam a compreender melhor sem depender tanto da linguagem escrita. “Aí ela verbaliza e, dependendo do grau de dificuldade, a escola pode colocar a prova oral como adaptação curricular para a criança. Estudar e aprender não são só leitura. Cada vez mais as próprias crianças precisam dos recursos visuais”, diz.
Pessoas com diagnóstico de autismo têm déficit na linguagem, mas boa parte delas tem memória e percepção visual bem apuradas. Essa característica faz com que métodos que usam figuras, como o Teach e PECs, sejam um importante canal de comunicação e ensino. “Os métodos usam uma habilidade que elas têm para compensar e estimular áreas deficitárias”, diz a psicóloga Manuela Christ Lemos.
Fonte: Jornal Gazeta do Povo (PR) / Ensino 14/08/2012

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