segunda-feira, 10 de setembro de 2012

No mundo da tecnologia, a diferença é o capital humano

Por Instituto Porvir
Paulo Blikstein é um engenheiro que se apaixonou por educação. Não é que ele tenha resolvido colocar a graduação na USP de lado e se dedicar a uma área completamente diferente na sua vida acadêmica. Decidiu, antes de tudo, colocar seu talento na engenharia a serviço da educação e estudá-la a fundo. Hoje, professor assistente da School of Education de Stanford, no coração do Vale do Silício, região norte-americana onde a inovação é mais pulsante, ele e sua equipe tentam contribuir com a melhora dos processos de ensino-aprendizagem pelo mundo. Para tanto, criam tecnologias que tornam o aprendizado uma experiência mais enriquecedora e se esforçam para torná-las baratas; desenvolvem formas de avaliação que buscam entender como os alunos aprendem; e, além disso, tentam convencer a sociedade de que tornar as escolas mais inovadoras é uma decisão política pela qual vale a pena lutar.
Como é possível desconfiar, a tecnologia está no cerne dos trabalhos do brasileiro. Contudo, Blikstein critica o uso irrestrito desses recursos. Num momento em que muitas possibilidades tecnológicas emergem na educação, o pesquisador faz um alerta: a tecnologia é importante, mas o diferencial para qualquer país que queira transformar sua educação é o capital humano. “Educação se faz de pessoa para pessoa”, afirma ele.
Em conversa com o Porvir, Blikstein contou sua experiência em Stanford, falou da sua aposta no aprendizado baseado em projetos e defendeu que a criatividade e a inovação sejam desenvolvidas desde cedo nas escolas. Confira.
Divulgação

Temos visto a educação estar cada vez mais nas rodas de discussão. É possível dizer que o assunto virou uma preocupação geral?
Você sabe essa piada que o Brasil tem 190 milhões de técnicos de futebol. Todo mundo acha que entende e dá palpite. Na educação é parecido. A educação virou um assunto-chave porque a maioria dos países percebeu que capital humano é o mais importante. O resto você pode comprar: recursos naturais, até tecnologia. As pessoas são as que fazem a diferença. Você olha os países que realmente tiveram boom de desenvolvimento. Sem gente boa para sustentar a inovação, o desenvolvimento das tecnologias e ensinar as novas gerações a coisa acaba. As pessoas estão percebendo isso e a questão virou um issue. Por um lado, é bom porque mostra que as pessoas querem ajudar a educação. Mas o lado ruim é que você precisa de um filtro.
Como diferenciar uma boa ideia de uma ideia inovadora?
A profissão do educador deveria se voltar para ser um filtro de todas essas invenções antes de chegar à criança. A pergunta fundamental que faço é: o que essa nova invenção está propondo é um jeito de otimizar um sistema falido ou é um jeito novo de fazer educação? 90% são um jeito de otimizar um sistema falido. E que sistema é esse? É aquele onde a educação é um processo de transmissão de conhecimento. O conhecimento está pronto e a gente precisa enfiá-lo na cabeça das crianças. As pessoas sugerem vídeos on-line, animações superdivertidas, cinema. Mas é sempre o mesmo paradigma. Um paradigma, mais alinhado com o século 21, é admitir que parte desse conhecimento está pronto, mas para aprender, o aluno precisa gerar sua própria versão das coisas. Ele tem que olhar o mundo e reconstruir isso tudo na cabeça. O conhecimento é sempre construído. Tudo o que se puder facilitar, melhorar, otimizar, enriquecer essa reconstrução, será educação para o século 21.
Qual é o papel do professor num contexto de inclusão das tecnologias em sala de aula?
Eliminar o professor da educação é um projeto recorrente e que consistentemente vem dando errado. A escola ajuda a entrar em contato com o conhecimento, a organizar o tempo, a se disciplinar. As crianças, que ainda estão em formação intelectual, afetiva e das suas habilidades não cognitivas, precisam de adultos, de pessoas que diagnostiquem o que elas sabem e o que elas não sabem, receitem o que precisa ser feito. Educação é uma atividade de pessoa para pessoa.
crédito koszivu / Fotolia.com

O senhor considera o aprendizado baseado em projetos uma tendência?
Tanto acho que um dos principais projetos que eu estou fazendo, o Fablab at School, leva o aprendizado baseado em projetos para escolas do mundo todo. É um laboratório de fabricação digital que fazemos nas escolas. Levamos uma impressora 3D, uma cortadora a laser, robótica, eletrônica – máquinas que só estão disponíveis para engenheiros e de empresas de design – a crianças de 12 anos. Os projetos que elas conseguem fazer não são diferentes dos de alunos de engenharia do terceiro ano. A gente dá as mesmas ferramentas e as crianças tendem a ser mais criativas. Mas um dos problemas do aprendizado baseado em projetos é que não existem boas formas de avaliá-lo. Então estamos desenvolvendo, usamos sensores biológicos, colados no corpo da criança, que conseguem ver seu nível de empolgação em uma atividade; eye trackers, que indicam para onde a criança está olhando e a dilatação da pupila para saber se ela está interessada; algoritmos que olham padrões de colaboração. Analisamos se o tipo de raciocínio que ela usa evolui na medida em que participa do projeto.
E dá para fazer esses laboratórios em grande escala?
É uma questão de se decidir o que é importante. Se você acha que invenção, inovação, criatividade é menos importante que futebol, então você vai ter uma quadra e não vai ter um laboratório. É uma questão de vontade política. Quando a gente, como sociedade, decide que alguma coisa é importante, a gente faz essas coisas acontecerem, a gente cria toda uma ecologia e um aparato.
E o Brasil já fez essa opção pela inovação?
O Brasil é o país perfeito para a inovação porque estamos inovando o tempo todo, achando soluções supercriativas para as coisas. Não entendo por que não se explora essa vocação na educação. Tem que começar cedo e perder o medo de que, se dedicar 20% das horas na escola para coisas mais criativas, você vai aprender 10% a menos de matemática. Essa é a matemática que todo mundo vai esquecer de qualquer jeito.
Isso implicaria numa flexibilização nos parâmetros curriculares, certo?
Se você tem 16 disciplinas no ensino médio e cada uma tem 45 minutos, não dá tempo de você fazer nada. Você pode flexibilizar de forma que as crianças possam escolher o que elas querem fazer – você não precisa forçar todo mundo a aprender a mesma coisa. Se você tem um supertalento em matemática, mas não tem um curso que possa fazer, você está desperdiçando um talento. Todo talento alocado no lugar errado é uma ineficiência do sistema.
Qual é a escola que você quer?
Uma escola onde as crianças encontrem sua paixão intelectual desde cedo, que tenham professores que saibam alimentar isso de uma forma produtiva, tenham ferramentas apropriadas para expressar esse talento. Escolas onde as crianças aprendam a aprender, aprendam a ensinar outras pessoas, onde se crie o espírito cívico e democrático como uma coisa endêmica. O jeito como a gente ensina é a imagem do que a gente é como sociedade. O que eu faço como professor e pesquisador é criar novas formas de avaliação, novas tecnologias, tecnologias de baixo custo, convencer a sociedade de que essa é uma decisão que vale a pena abraçar.

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