sexta-feira, 19 de outubro de 2012

Criança ainda ouve rádio?


Por Adriana Ribeiro
Doutoranda em Educação pela PUC-Rio, mestre em Comunicação, Educação e Cultura em Periferias Urbanas pela FEBF/Uerj. Atua em produção e pesquisa sobre rádio e educação desde 2000.
“O rádio é uma mídia acessada fundamentalmente por adultos”.“Crianças não ouvem rádio”.
Essas duas afirmações costumam povoar o imaginário em relação a audiência de rádio, em parte porque quase todas as emissoras do rádio hertziano – as que sintonizamos em AM e FM –   não produzem programas para ou com crianças ou adolescentes há muitas décadas. A ausência de uma programação destinada a esse público, no entanto, não é indício de uma ausência de relações das crianças com a mídia rádio. Pelo menos esta é a conclusão a que chegaram dois estudos recentes realizados no Brasil e na Espanha, que fizeram pesquisas de audiência com crianças de 6 a 11 anos, no caso brasileiro, e de 8 a 9 e de 12 a 13 anos, no caso espanhol.
A pesquisa brasileira foi realizada, em 2003, pelo Instituto MultiFocus (especializado em consumo de mídia na infância), em quatro capitais (São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte e Curitiba), com 1500 crianças. O instituto constatou que 86,5% das crianças de 6 a 11 anos, das classes A, B e C, escutam rádio regularmente; e que quase metade delas escolhe pessoalmente as emissoras.
Já a pesquisa espanhola foi realizada por um grupo de professores da Universidade Autonoma de Barcelona, entre os anos 2006 e 2007, com 212 crianças. O levantamento afirma que, pelo menos, 61% das crianças que responderam aos questionários ouvia rádio regularmente e que 100% da amostragem conhecia o veículo, sabia identificar como usá-lo e tinha conhecimento do tipo de conteúdo que poderia esperar das estações. ‘Audiência escondida’ foi o nome dado à pesquisa realizada pelos professores espanhóis. Escondida, explicavam eles, principalmente porque nenhum instituto de pesquisa sondava o acesso desse segmento ao meio rádio.
Um interessante contraponto a esse cenário, aqui no Brasil, de ausência de interesse das emissoras abertas em relação ao público infantil está nos projetos de montagem de rádios escolares. Segundo o professor cearense Edgar Patrício, das 9.995 escolas que  aderiram ao programa Mais Educação, criado em 2007 pelo  Governo Federal, para aumentar a oferta de atividades extra-classe ligadas a artes, esportes, meio-ambiente etc – 3.911 optaram, até o ano de 2010, pelo macrocampo Comunicação e Uso das Mídias. Desse total, 2.218 escolas fizeram opção pela rádio escolar. No Rio de Janeiro, das 658 que se dispuseram a trabalhar com mídias, 375 escolas escolheram o rádio.
A criação de rádios escolares, no contexto do município do Rio de Janeiro, como parte dos projetos pedagógicos de escolas do Ensino Fundamental já era uma pauta da Secretaria Municipal de Educação há alguns anos, estimulada por profissionais como o arte-educador Zé Zuca, que, durante algum tempo, ministrou oficinas para professores da rede municipal carioca. Essas oficinas resultaram em bons projetos, como o da Rádio Professora Luzinete, emissora da Escola Municipal Manoel de Abreu. A grade da programação da emissora é realizada por alunos da 3ª e 4ª séries. Em uma visita à escola, perguntamos aos empolgados radialistas mirins se, fora do espaço escolar, ouviam rádio. A resposta foi um unânime e retumbante sim, seguido dos nomes das emissoras que escutavam: as de maior audiência no Rio de Janeiro, cuja programação é feita apenas para adultos.
Retratos do dial
Entre as emissoras cariocas, as Rádios MEC AM e FM e a Rádio Nacional estão entre as poucas que apresentam programas dedicados ao público infantil. Um dos principais responsáveis por essa programação é Zé Zuca, há oito anos no comando do Rádio Maluca, programa veiculado ao vivo, aos sábados pela manhã.
Não só programas dedicados à crianças são raros nas emissoras. A programação radiofônica atual, mais voltada à musica e informação, começou a ganhar esses contornos limitados com a chegada da TV. A televisão herdou do rádio os programas de auditório, os humorísticos e a dramaturgia, entre outros gêneros, que até a década de 1950 encantavam ouvintes. Os programas para e com crianças também sofreram esse fenômeno – foram incorporados à programação das emissoras de TV e sumiram do rádio.
Antes disso, no entanto, emissoras educativas e comerciais dedicavam algum tempo de sua programação ao público infantil. Umas mais preocupadas com o caráter de formação das irradiações, outras apenas adaptando formatos adultos, como no caso do programas com talentos mirins.
A primeira emissora oficial brasileira, a Sociedade do Rio de Janeiro, tinha em sua programação os chamados quartos de hora infantil, no qual educadores como João Kopke e Heloísa Alberto Torres contavam histórias ao microfone. Na também carioca e educativa Rádio Escola Municipal, Marina de Pádua, Augusta de Queiroz e Ilka Labarthe criaram a ‘Tia Lúcia’, contadora de histórias. A Rádio Jornal do Brasil apresentava Viagem através do Brasil, programa idealizado por Ariosto Espinheira. A Tupi contava com  a Hora do Guri, programa no qual, entre outros quadros, crianças eram as atrações musicais, ou repórteres.  A Cruzeiro do Sul, assim como a Rádio Ministério da Educação, irradiava teatro para crianças. Na Nacional, Ismênia dos Santos  transformava-se na  ’Vovó da Rádio Nacional’, personagem do programa Hora dos Garotos. Esses e outros tantos programas foram pensados para essa audiência que hoje as emissoras, em sua maioria, ignoram.
Na internet
Para além do limitado universo das concessionárias de rádio AM e FM, quem navega na rede mundial de computadores pode ter acesso a programas feitos para o público infantil que lembram os formatos do rádio das primeiras décadas – com contação de histórias ou conteúdos de apoio pedagógico –  e a muitos outros, que aproveitam os recursos técnicos contemporâneos para reencantar o rádio.
Vale conferir, nesse sentido, os programas Rádio Maluca disponíveis em forma de podcast no siteRadiotube; as produções ganhadoras do Prêmio Roquette Pinto, na categoria infanto-juvenil e radiodrama (aqui, especificamente o trabalho do grupo gaúcho Cuidado que mancha); e a emissora on-line da MultiRio  (Empresa Municipal de Multimeios da Prefeitura do Rio), entre outros. Se a navegação for em direção a águas estrangeiras  as pedidas podem ser a premiada Radijojo, the World Children’s Radio Network –  uma estação de rádio on-line para crianças de 3 a 13 anos, onde elas mesmas fazem seus programas –, ou a Radiotekita, portal que reúne produções de diversos países da América Latina e Central.  Esses são alguns poucos exemplos perto do oceano de ofertas que a internet a todo dia renova. Nesse caso, navegar e explorar é preciso.
Nesta relação rádio e infância, podemos concluir que, no Brasil. o problema não é a ausência de programas de rádio para crianças  – o que pode nos levar a pensar, equivocadamente, que essa linguagem não as interessa –, mas sim a pouca disseminação dos programas radiofônicos infantis entre o seu público-alvo. Se a legislação que regula as concessões de emissoras se preocupasse em garantir que todos os públicos tivessem vez e voz no rádio aberto (AM e FM), talvez esse quadro fosse outro.
Sites:
Radiotube – programas Rádio Maluca e Blim, Blem, Blom: http://www.radiotube.org.brPrêmio Roquette-Pinto, mais de 60 horas de programas infanto-juvenis: http://www.arpub.org.brWebRádio MultiRio: http://www.multirio.rj.gov.brRadijojo: http://www.radijojo.de
Radiotekita: http://www.radioteca.net/radiotekita.php

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