segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

Crítica: Livro "Folha Explica Folha" traz história do jornal


Sérgio Dávila - Editor Executivo 
Folha de S. Paulo

A editora Publifolha lança hoje em São Paulo o 86º volume da série didática Folha Explica, de título metalinguístico: "Folha Explica Folha".

Em 232 páginas, a jornalista Ana Estela de Sousa Pinto, editora de "Mercado", narra de maneira abrangente a história do jornal paulista, que chegou aos 90 anos em 2011.
Se o Projeto Editorial da Folha, documento que orienta a conduta do jornal, é sua Constituição, e o "Manual da Redação", o seu modo de usar, este "Folha Explica Folha" seria sua crônica.

Crônica sobretudo porque, diferentemente das outras publicações citadas, coletivas e anônimas, é autoral. E porque mergulha nas origens do jornal para contar, seguindo a cronologia, como e por que chegou aonde está.

O Brasil não tem a tradição dos países anglófonos de publicar livros sobre jornais. Mesmo a cobertura da mídia como negócio, costumeira em lugares como o Reino Unido e os EUA, engatinha aqui.

Sede do jornal em 1955
Sede do jornal em 1955 - FolhaPress

Raras são as obras como "Notícias do Planalto", de Mario Sergio Conti, lançada em 1999 e reeditada agora pela Companhia das Letras, que tratam claramente da história dos grandes veículos e de suas relações nem sempre claras com o poder.

"Notícias" é tributário de um dos principais livros do gênero, "The Powers that Be" (Os Poderes Constituídos, 1979), em que o jornalista David Halberstam (1934-2007) faz o panorama mais amplo da grande imprensa norte-americana de então.

"Folha Explica Folha" não tem a pretensão nem a abrangência dos títulos acima. Nem era essa a sua proposta.

Além de relatar os fatos sobre o jornal e seus proprietários ao longo de nove décadas, Ana Estela fala da linha editorial, faz um raio-X de seu leitorado, conta como a Folha é produzida no dia a dia, trata do grupo empresarial que o diário integra e traz números de almanaque --103 metros de texto são publicados por edição, 2,5 voltas no planeta dariam os diversos veículos que entregam os exemplares da versão impressa todos os dias.

Ainda assim, o livro não descuida do aspecto histórico. Desfaz alguns mitos e corrige imprecisões. Uma delas é o suposto empréstimo de veículos do jornal para órgãos da repressão durante o regime militar (1964-1985).

Ana Estela vasculhou durante pelo menos três meses arquivos do Deops, o extinto Departamento Estadual de Ordem Política e Social de São Paulo, órgão da ditadura, no Arquivo do Estado.

Leu uma dezena de livros sobre o período e diversas edições de periódicos clandestinos, portanto livres da censura oficial, dos grupos da esquerda armada entre os anos de 1968 e 1972.

Entrevistou ex-policiais do Deops, acadêmicos, historiadores e jornalistas do período e ex-guerrilheiros. Em resumo, não conseguiu encontrar provas de colaboração entre o jornal e a ditadura.

Ela conduz ainda apuração digna do repórter fictício Jerry Thompson, do filme "Cidadão Kane", que investigou a vida do magnata, mas não descobriu o significado da palavra "Rosebud".

A dela era saber a origem de uma mudança editorial aparentemente brusca do jornal nos anos de 1929/ 1930. De opositor bastante crítico do governo federal e do Partido Republicano Paulista, passou a defensor, em oposição ao movimento da Aliança Liberal de Getúlio Vargas.

A hipótese com que ela trabalhava era a de que a guinada tivesse tido motivos empresariais, e não editoriais. Como o Thompson do filme, também ela não chegou a uma conclusão definitiva. A jornalista pretende voltar ao caso. Talvez num "Folha Explica 'Folha Explica Folha'"?
Divulgação
FOLHA EXPLICA FOLHA
AUTORA Ana Estela de Sousa Pinto
EDITORA Publifolha
QUANTO R$ 19,90 (232 págs.)
LANÇAMENTO nesta segunda (10), às 18h30, na livraria Cultura (av. Paulista, 2.073, tel. 0/xx/11/3170-4033), em SP

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