domingo, 30 de dezembro de 2012

Aprovados projetos que proíbem publicidade de alimentos dirigida a crianças e brindes em fast food


Créditos: Fotolia
Dois projetos de lei fundamentais para proteger as crianças da epidemia de obesidade foram aprovados pela Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp) na terça-feira. O primeiro deles, PL 193, de 2008, de autoria do deputado Rui Falcão (PT), regulamenta a publicidade dirigida ao público infantil de alimentos e bebidas pobres em nutrientes e com alto teor de açúcar, gorduras saturadas ou sódio no estado de São Paulo. Fica proibida a propaganda no rádio e na TV entre as 6 e as 21 horas, e em qualquer horário nas escolas públicas e privadas. E, durante o horário permitido, a propaganda deverá ser seguida de advertência pública sobre os danos à saúde provocados pela obesidade. Os projetos seguem para sanção ou veto do governador Geraldo Alckmin (PSDB).
Está vetado também o uso de celebridades ou personagens infantis na publicidade e comercialização, além da inclusão de brindes promocionais, brinquedos ou itens colecionáveis atrelados à compra do alimento. Em caso de descumprimento dessas determinações, o infrator estará sujeito às penas de multa, suspensão da veiculação da publicidade e imposição de contrapropaganda. A multa, dependendo da gravidade, vai de 200 a 3 milhões de vezes o valor da Unidade Fiscal do Estado de São Paulo (Ufesp). 
Segundo justificativa de Rui Falcão, o projeto está de acordo com o que prevê o artigo 37 do Código de Defesa do Consumidor (CDC), que proíbe qualquer publicidade enganosa ou abusiva que se aproveite da deficiência de julgamento e experiência das crianças. E foi inspirado por uma denúncia do Instituto Alana à Fundação Procon de São Paulo contra a rede de fast-food McDonalds, que, ao associar brinquedos com alimentos, está incentivando a formação de valores distorcidos, bem como a formação de hábitos alimentares prejudiciais à saúde. A denúncia resultou, em abril de 2010, em multa à rede de lanchonetes de R$ 3,2 milhões por vincular brinquedos nas promoções de seus produtos. 
Outro projeto aprovado é o PL 1096/2011, de autoria de Alex Manente (PPS), que proíbe a venda de alimentos acompanhados de brindes ou brinquedos em todo o estado de São Paulo. Na proposição, o parlamentar argumenta que a obesidade infantil é um problema de saúde pública no país e que o fato do alimento estar acompanhado por brinquedo induz a criança a solicitar o lanche sem que esteja necessariamente com fome.
Na avaliação de Pedro Hartung, assessor do núcleo de Defesa do Instituto Alana, os dois projetos são de grande importância contra a pandemia de obesidade, em especial entre as crianças. Autoridades de saúde estimam que 30% de toda essa população seja afetada pela doença. Segundo especialistas, a obesidade está diretamente associada ao assédio abusivo da publicidade direcionada às crianças. 
"O governador tem a obrigação de sancionar a lei porque tem de considerar, em primeiro lugar, o interesse da criança. Tanto a Constituição Federal, em seu artigo 227, como a estadual, em seu artigo 277, colocam os direitos da criança como prioridade absoluta. Nesse caso, o direito é de defesa contra os apelos abusivos da publicidade de produtos que colocam em risco a sua saúde", disse Hartung.
Embora o comum tenha sido governadores tucanos vetarem projetos aprovados por parlamentares do PT, mesmo que de interesse da sociedade, a expectativa é de aprovação. "Toda a sociedade civil quer que se regule esta matéria", disse o assessor do Instituto Alana.
Fonte: Pró-Menino (http://www.promenino.org.br/Default.aspx?TabId=77&ConteudoId=d2651e81-c576-4f18-b11b-fefc68707ae8&boletim) 26/12/2012

E os meus direitos?

Internet para Crianças
E os Meus Direitos?
Por Marcus tavares


Nos últimos dois meses, fui convidado a desenvolver com crianças do 4º, 5º e 6º anos da Escola Eliezer Max, em Laranjeiras, no Rio, uma espécie de guia do uso responsável e seguro da internet. A proposta era ouvir as crianças e, com elas, pensar e refletir sobre temas presentes no dia a dia, como o bullying que acontece nas redes sociais. Além de constatar que os alunos acessam todos os dias a web, na maioria das vezes sozinhos, e que dizem se sentir seguros no meio on-line, um ponto chama bastante a atenção: a questão da privacidade como direito.
Em um dos tópicos do guia, intitulado como os pais devem ajudar as crianças na navegação, os estudantes pontuaram, entre outras coisas, que os responsáveis precisam acompanhar e fiscalizar o que os filhos fazem na internet e ter acesso à senha das contas pessoais. Mas as regras, segundo os alunos, não valem para eles, que têm entre 9 e 11 anos. Valem para as crianças menores. Os pequenos formuladores dizem que já têm responsabilidades e mais ainda: direito à privacidade.
Como é forte o posicionamento das crianças neste sentido. Elas são capazes de argumentar com lógica e persuasão. O antigo e simples “eu quero” passa a ser complementado por “eu tenho direito”. Sim, elas têm direitos, que são, cada vez mais, ratificados em legislações nacionais e internacionais. Isso não se discute.
O trabalho está apenas começando
O que merece uma reflexão – conjunta de pais/responsáveis, professores e estudantes – é quais são os limites destes direitos. Quais são os limites da privacidade, da liberdade? As crianças estão preparadas para assumir as consequências de tal privacidade/liberdade? E quais seriam os deveres? Até que ponto este raciocínio – crianças portadoras de direitos – pode servir como justificativa para os adultos não se posicionarem/envolverem de forma positiva e efetiva na educação das crianças? Qual é o lugar do adulto nesta relação?
O documento não teve o objetivo de ditar regras e formas de conduta, mas de disparar exatamente um diálogo entre família e escola, mostrando inclusive o potencial positivo e criativo da atual geração frente à internet. A escola deu passo importante: trouxe o tema para a sala de aula, ouviu as crianças, envolveu professores e pais e despertou a reflexão, o que é mais importante. O trabalho não acaba por aí. Está apenas começando.
Marcus Tavares é professor e jornalista especializado em Educação e Mídia
Artigo publicado originalmente no jornal O Dia (15/12/2012)

Babá eletrônica

Por Marcus Tavares
2012 não foi diferente dos outros anos. Pelo menos, no 
que diz respeito à produção audiovisual para crianças, 
no contexto da TV  aberta comercial no Brasil. Poucas 
realizações de fato foram pensadas para o público infantil. 
Algumas que já existiam foram inclusive retiradas da 
programação diária, como a TV Globinho, da Globo, que, 
na verdade, exibia apenas desenhos animados enlatados. 
A justificativa de não produzir conteúdo próprio brasileiro 
para a criança foi a mesma de sempre: altos custos 
combinados com a falta de anunciantes/patrocinadores 
diante de um contexto de pressão legislativa pelo fim 
da publicidade infantil na tevê.
Na contramão, o SBT talvez tenha sido o canal que 
mais se destacou, ao reeditar a novela infantil Carrossel. 
No ar às 20h30, a trama ganhou a atenção das crianças e 
aumentou o lucro da emissora, mostrando que o filão 
infantil não morreu e que pode ser um bom investimento. 
Tivemos também, neste ano, a série animada do Sítio do 
Pica Pau Amarelo (26 episódios de 11 minutos cada), 
lançada aos sábados pela Globo, e o programa Conversa de 
Gente Grande, na Band, mas que saiu do ar depois de sete 
apresentações. Segundo a emissora, o programa não 
decolou por conta do horário: aos domingos à noite. 
De resto, apenas os desenhos animados enlatados 
já conhecidos.
No Brasil de hoje, criança só tem melhores opções na TV 
por assinatura. Mas que criança? De acordo com a Anatel, 
somente 16 milhões de domicílios brasileiros têm acesso 
à tevê fechada. Ou seja: não é a realidade de muitas 
meninas e meninos. Fato muitas vezes ignorado pelas 
emissoras e pelo próprio governo federal, que poderia cobrar 
e investir mais na produção audiovisual para criança na tevê
aberta comercial e na TV Brasil, vinculada à Empresa Brasileira
de Comunicações. Em 2012, apenas o programa TV Piá, uma 
produção terceirizada, fez diferença na programação da TV Brasil. 
Que tal, em 2013, pressionar os canais e o poder público?
Lembrando: os canais são concessões públicas. Exigir 
produções/programas para crianças, com bom conteúdo, 
diário e em horário compatível é um direito.
Marcus Tavares é professor e jornalista especializado em Educação e Mídia
Artigo originalmente publicado no jornal O Dia (http://odia.ig.com.br/portal/opiniao/marcus-tavares-bab%C3%A1-eletr%C3%B4nica-1.530149)

Literacia mediática associada aos princípios do jornalismo


«Os princípios do jornalismo nascem da função que a informação representa na vida das pessoas. Neste sentido, são uma declaração de direitos dos cidadãos, ao mesmo tempo que uma declaração de responsabilidades dos jornalistas. Na medida, porém, em que a difusão de informação própria e do comentário a assuntos de actualidade e às opiniões de outros aumenta, crescem também as responsabilidades éticas dos que intervêm no processo, do lado da cidadania. O conhecimento e exercício destes direitos e responsabilidades devem integrar a formação não apenas dos jornalistas mas também dos cidadãos, no quadro mais vasto e desejável de uma literacia mediática que proporcione o uso crítico, esclarecido e criativo da informação jornalística e dos media».

Este é o teor do Princípio nº 11 e derradeiro do documento "Para Uma Carta de Princípios do Jornalismo na Era da Internet", recentemente apresentado em Lisboa. É talvez a primeira vez que, entre nós, se estabelece, de modo claro e formal, a relação entre as responsabilidades éticas do jornalismo e "uma literacia mediática que proporcione o uso crítico, esclarecido e criativo da informação jornalística e dos media».

Recomenda-se uma leitura atenta do documento (AQUI). Transcreve-se, de seguida, a súmula de cada um dos 11 pontos:

  1. A primeira obrigação do jornalismo é a busca da verdade e a sua publicitação.
  2. O jornalismo deve manter-se leal aos cidadãos, estimulando o debate e a construção de opinião
  3. A essência do jornalismo assenta na verificação da informação e no confronto de fontes e de versões
  4. O jornalismo deve escrutinar os diferentes poderes. Aqueles que o exercem devem ser independentes em relação às pessoas, organizações e acontecimentos que cobrem
  5. O jornalismo deve tornar interessante o que é relevante e procurar no que é interessante ou mobiliza a atenção dos cidadãos o que é importante e significativo
  6. A produção jornalística deve seguir princípios de rigor, isenção, clareza, abrangência e proporcionalidade, e deve empenhar-se em dar voz e visibilidade a cidadãos, grupos e comunidades mais esquecidas
  7. Os jornalistas devem ser livres de seguir a sua consciência
  8. O jornalismo deve ser transparente e favorecer o debate público das suas opções e práticas e o escrutínio das ligações, interesses e poderes que o suportam
  9. O jornalismo deve adaptar-se às diferentes plataformas informativas e interagir com a diversidade de actores presentes no ambiente comunicacional, integrando as suas vozes no processo de produção profissional de narrativas noticiosas e de opinião
  10. Inovações empresariais e tecnológicas no ecossistema informativo devem ser feitas com respeito por padrões de exigência profissional e no quadro ético e deontológico em vigor numa imprensa livre e democrática
  11. Os cidadãos têm direitos e responsabilidades, no que diz respeito à informação noticiosa.
Fonte: Educomunicação/ Profº Manuel Pinto

E-Book: Compêndio Recursos Educacionais Abertos


 

O e-book Compêndio Recursos Educacionais Abertos: Casos da América Latina e da Europa na Educação Superior foi lançado há pouco. A iniciativa foi do Projeto OportUnidad e o trabalho foi organizada por Andreia Inamorato dos Santos, Cristóbal Cobo e Celso Costa. A versão trilíngue, acima, está disponível nos idiomas inglês, espanhol e português.

O livro apresenta estudos de caso de iniciativas de REA em duas regiões: América Latina e Europa. A versão apenas em português pode ser baixada a partir desse link.

Via Blog REA

Fonte: Blog Mídias na Educação (ECA/USP)

sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

Estudos em Comunicação

A Revista Estudos em Comunicação nº 12, do LabCom - Laboratório de Comunicação e Conteúdos Online Universidade da Beira Interior / Portugal pode ser baixada no link:
http://www.ec.ubi.pt/ec/12/

Os artigos são:
Online Coverage of the 2010 Brazilian Presidential Elections
por Heloiza G. Herscovitz

PDF
  • Ayatollah Khomeini: The changing face of Islam
    por Rob Leurs
    PDF
  • O lugar da participação dos cidadãos nos media: o caso do programa ‘Banda Ampla’ da TV3 da Catalunha
    por Fábio Ribeiro
    PDF
  • Signs, Systems and Complexity of Transmedia Storytelling
    por Renira Rampazzo Gambarato
    PDF
  • O papel do design no estabelecimento de contratos de leitura de jornais impressos: um estudo sobre a reforma gráfica de 2010 da Folha de S. Paulo (Brasil)
    por Ana Gruszynski
    PDF
  • The Greek Indignants through the domestic TV news bulletins
    por Anastasia Veneti, Stamatis Poulakidakos, Kostas Theologou
    PDF
  • Convergência, transmídia e excedente cognitivo na Ocupação da USP
    por Thiago Soares, Allysson Viana Martins
    PDF
  • Radiodifusão pública: um desafio conceitual na América Latina
    por Nelia R. Del Bianco, Carlos Eduardo Esch, Sonia Virgínia Moreira
    PDF
  • Renacer: análisis sobre un periódico de la comunidad boliviana en Argentina
    por Gerardo Halpern, Luciano Beccaría
    PDF
  • Big Data, Jornalismo Computacional e Data Journalism: estrutura, pensamento e prática profissional na Web de dados
    por Walter Teixeira Lima Junior
    PDF
  • La idea de objetividad de los periodistas dentro de la cultura periodística de España y Suiza: Objectivity in journalistic cultures of Spain and Switzerland
    por Martín Oller Alonso, Katrin Meier
    PDF
  • O poder simbólico e argumentativo do discurso em programas jornalísticos de televisão
    por Paulo Eduardo Silva Lins Cajazeira
    PDF
  • Internet e Cidadania nas periferias do Rio de Janeiro
    por Marco Schneider
    PDF
  • As políticas tecnológicas para a educação e a literacia digital: o caso do programa governamental ‘e.escolinha’
    por Sara Pereira, Ana Melro
    PDF
  • Avenida Brasil: o popular como pós-modernismo televisivo
    por Maria Beatriz Furtado Rahde, Roberto Tietzmann, Cristiane Finger Costa, Beatriz Dorfman
    PDF
  • Identidades Nacionais e Cinema: Uma recensão crítica do livro Directory of World Cinema: Spain
    por Isabel Macedo
    PDF
  • Marketing, recepção e crítica cinematográfica na era digital
    por Liliana Pacheco
  • La competencia mediatica: propuesta articulada de dimensiones e indicadores


    La competencia mediatica: propuesta articulada de dimensiones e indicadores
    Artigo de Joan Ferrés e Alejandro Piscitelli na Revista Luciérnaga. Facultad de Comunicación Audiovisual. Politécnico Colombiano Jaime Isaza Cadavid. Año 4, Edición 7. Medellín, Colombia. 2012. ISSN 2017 - 1557. Págs. 72-79.



    Para acessar o artigo: http://www.politecnicojic.edu.co/luciernaga7/pdf/7_competencia_mediatica.pdf

    terça-feira, 18 de dezembro de 2012

    EU Kids Online: Perspetivas Nacionais (Portugal)

    Por Cristina Ponte e Ana Jorge

    Este artigo consiste na tradução para língua portuguesa da secção relativa a Portugal do relatório "EU Kids Online: National perspectives":, da autoria de Leslie Haddon, Sonia Livingstone e da rede de investigadores do projeto EU Kids Online, no qual se incluem as autoras deste artigo que gentilmente autorizaram a respetiva tradução e publicação no site do Projeto MiudosSegurosNa.Net.

    Acesso e Uso
    • As crianças portuguesas são as líderes Europeias ao nível do acesso à Internet através de computadores portáteis, o que é consequência direta de políticas nacionais, particularmente as desenvolvidas após 2008: 65% dos inquiridos têm os seus próprios computadores portáteis, sem diferenças significativas entre famílias. O crescimento rápido e recente da democratização do acesso à Internet também é demonstrado pelo fato do país ainda apresentar uma das médias mais altas na Europa em termos etários para o primeiro uso da Internet: 10 anos de idade.

    • As crianças usam os computadores portáteis sobretudo em casa e particularmente no quarto. 93% das crianças Portuguesas acedem à Internet a partir de casa e 67% fazem-nos nos seus quartos de dormir. Apenas na Suécia e na Dinamarca há mais crianças a aceder à Internet a partir dos seus quartos.

    • Para além da escola, onde 72% das crianças referem ter acesso à Internet, as bibliotecas públicas são usadas como ponto de acesso por 25% das crianças e jovens, o dobro da média Europeia. Considerando que 53% das famílias são de baixo ESE, esta prática pode ser uma forma de compensar o custo de aceder à Internet a partir de casa.

    • Apesar de terem os seus próprios computadores portáteis, as crianças Portuguesas encontram-se entre as que usam a Internet com menor frequência, o que pode explicar o nível de risco relativamente baixo relatado (7% das crianças experimentaram um ou mais riscos sobre os quais foram questionados). 53% das crianças dizem que usam a Internet diária ou quase diariamente.

    • Contudo, em Portugal as crianças mais velhas relatam um dos níveis mais elevados de utilização excessiva (49% em jovens com mais de 11 anos), o que pode estar mais relacionado com a ansiedade causada pelo facto dos pais limitarem o seu acesso à Internet do que com a quantidade de tempo que eles próprios efetivamente gastamonline.

    • O acesso através de telemóveis é ainda marginal, dado que apenas 7% dos rapazes e 2% das raparigas, especialmente os de famílias da classe média, dizem usá-los para aceder à Internet.
    Atividades e Competências
    • As crianças portuguesas usam a Internet principalmente para trabalho escolar (89%) e jogos (83%). Ver vídeos, trocar mensagens instantâneas e mensagens de correio eletrónico também são populares (respetivamente 70%, 69% e 66%). Apenas um em cada três lê/vê as notícias na Internet (32%).

    • Os usos produtivos, participativos e criativos são os menos prevalecentes: apenas 11% publicaram uma mensagem num website, 10% passaram tempo num mundo virtual e 7% escreveram um blog ou usaram sites de partilha de ficheiros.

    • Existem diferenças em termos de género entre as crianças/jovens dos 9-12 anos de idade: os rapazes têm mais acesso nos seus quartos e mostram um uso mais diversificado da Internet, enquanto as raparigas usam a Internet sobretudo para trabalhos escolares. Para os 13-16 anos de idade, contatar com outros tornou-se mais prevalecente, quer entre rapazes, quer entre raparigas.

    • As crianças portuguesas relatam uma média de 4.9 competências, colocando o país em oitavo lugar entre os 25 países analisados. A competência digital mais mencionada é adicionar um website aos favoritos (76%), seguida de mudar as definições de privacidade (62%), números acima da média Europeia (64% e 56%, respetivamente). Estes dados escondem diferenças consideráveis em termos etários, com os 14-16 anos a mostrarem mais experiência acumulada.

    • Em termos gerais, comparar websites é uma das competências menos relatadas, e mais de metade das crianças e jovens dos 9-11 anos afirma não saber como pesquisar informação sobre segurança online.

    • Enquanto as crianças e os jovens de classes sociais mais elevadas relatam mais competências em termos da criação de oportunidades e minimização de conteúdos indesejados (favoritos, bloquear mensagens indesejadas e spam, encontrar informação sobre segurança), aquelas de famílias mais desfavorecidas reivindicam maiores competências relativamente à salvaguarda da sua informação online (isto é, mudar definições de privacidade e preferências).

    • Duas em cada três crianças de ESE baixo consideram ser muito verdade quando se diz que sabem mais sobre Internet do que os seus pais.
    Riscos e danos
    • Há um baixo nível geral de incidência de risco online entre as crianças e jovens Portugueses utilizadores da Internet: apenas 7% afirmam ter sido incomodados por um ou mais riscos referidos no questionário. As crianças mais jovens, as raparigas e aqueles de famílias mais desfavorecidas parecem ser mais incomodadas pelos riscos que encontram, enquanto também tendem a usar menos a Internet.

    • 13% das crianças portuguesas viram imagens de cariz sexual online e 3% de todas as inquiridas sentem-se incomodadas pela experiência. Embora mais adolescentes e rapazes relatem terem visto estas imagens, as raparigas, as crianças entre os 11-12 anos de idade e as crianças de famílias das classes baixas parecem ser as que mais se sentem incomodadas por elas. Relativamente a mensagens de cariz sexual, 15% dos 11-16 anos de idade dizem terem-nas recebido, mas só 3% admite tê-las enviado.

    • Apenas 2% das crianças diz ter sofrido bullying online, enquanto 9% relata ter sido vítima de bullying presencial, o que segue o padrão Europeu, mas em percentagens significativamente mais baixas. Relativamente a encontros presenciais com pessoas contactadas primeiro online, 16% das crianças relata ter tido esta experiência; a maioria teve apenas uma vez; 2% do total dos inquiridos diz ter-se sentido incomodado pela experiência.

    • A tendência para os rapazes se exporem mais ao risco é inversa no caso do visionamento de conteúdos potencialmente danosos gerados pelos utilizadores e da experiência do mau uso de informação pessoal. Entre os 11-16 anos de idade, as raparigas representam uma percentagem maior: 15% das raparigas e 6% dos rapazes disseram que foram expostos a ambos os riscos referidos.
    Mediação parental e segurança
    • Entre os pais europeus, os pais Portugueses são dos que menos usam a Internet: 78% das crianças e jovens em Portugal usaram a Internet em 2010, enquanto 66% dos pais o fizeram. Além disso, apenas cerca de um terço destes pais usam a Internet frequentemente, o que, ligando ao uso prevalecente das crianças no quarto, explica a baixa proporção relativamente à média Europeia de pais que usam a Internet juntamente com os filhos (apenas 43% dos pais o fazem).

    • Em Portugal há ainda um tabu cultural à volta dos riscos sexuais, na medida em que os pais, especialmente de raparigas, resistem a admitir que os filhos têm contacto com imagens ou mensagens de cariz sexual.

    • Crianças e pais Portugueses declaram que gostariam de receber mais informação de professores do que a que recebem (hoje em dia, 28% dos pais dizem obter informação sobre segurança online através das escolas, enquanto que 65% gostariam de receber essa informação).
    Implicações para as políticas nacionais
    • A baixa incidência de risco entre crianças e jovens que usam a Internet em Portugal pode ser um sinal de baixo nível de uso frequente e da fraca captação das oportunidades disponíveis online.

    • Apesar da baixa incidência de risco, as crianças de lares mais desfavorecidos aparentam ser mais incomodadas pelos riscos que possam encontrar.

    • A inclusão da educação sobre segurança na Internet nos curricula escolares, desde tenra idade, beneficiaria as crianças e os jovens.

    • Embora a idade média de iniciação seja tardia quando comparada com o resto da Europa, as crianças Portuguesas estão, não obstante, a começar a usar a Internet cada vez mais cedo.

    • Os pais também precisam de desenvolver mais capacidades para ajudar os filhos, dado que são percebidos pelas crianças como sendo incapazes de dar apoio social quando os filhos experimentam riscos. Isto acontece, em grande parte, porque o uso da Internet pelos pais é menor do que o dos seus filhos, especialmente entre as famílias de classes mais baixas.

    • Esta conclusão também sugere a necessidade de uma maior atenção da parte de adultos fora do ambiente familiar para apoiarem e enriquecerem a utilização da Internet por crianças e jovens. Uma vez que as crianças e jovens Portugueses se encontram entre as que mais acedem à Internet a partir de espaços públicos como bibliotecas e centros juvenis, funcionários das bibliotecas, outro pessoal técnico e trabalhadores "sociais" e de juventude deveriam estar preparados para apoiar as crianças e os jovens no seu uso da Internet e também para os ajudar quando experimentam riscos ou estão perturbados por estes.

    • A prontidão dos professores para lidar com as questões de segurança na Internet e para apoiar as crianças e os jovens e suas famílias é uma questão urgente. Assim também é o investimento nas competências digitais de crianças e jovens: apesar das crianças e jovens Portugueses reivindicarem um nível mediano de competências, parecem menos capazes de usar essas competências quando lidam com os riscos.
    Foto de Cristina PonteCristina Ponte
    Doutorada em 2002, leciona Estudos dos Media na FCSH, UNL. Entre os seus livros contam-se Crianças e Internet em Portugal (MinervaCoimbra), que co-editou, e Crianças e Media (Imprensa de Ciências Sociais), ambos de 2012. Vice-presidente do Grupo Children, Youth and Media, da Associação Europeia de Pesquisa em Comunicação e Educação (ECREA) coordena o Grupo de Trabalho Audience Transformation and Social Integration na COST Action IS0906. Coordenou também o projeto internacional Digital Inclusion and Participation e o projeto nacional Crianças e Jovens nas Notícias (2005-2007). Áreas de especialização: crianças e media; media e gerações; inclusão digital; discurso dos media.
    Foto de Ana Jorge
    Ana Jorge
    Doutorada em Ciências da Comunicação, com tese sobre a relação dos jovens com a cultura da celebridade. Os seus principais interesses de pesquisa são a cultura popular e o consumo, género e receção. Integrou projetos de investigação sobre a representação das mulheres em jornais e revistas, e na inclusão digital e participação.

    UNESCO launches online course in Media and Information Literacy and Intercultural Dialogue



    © UNESCO

    UNESCO supports the Media and Information Literacy (MIL) and Intercultural Dialogue University Network in the launch of an online course in MIL and intercultural dialogue. The course is designed for teachers, policy makers and professionals. It is led by the Queensland University of Technology (QUT) and will be offered over 13 weeks, from 25 February to 31 May 2013.

    “We live in a world where the quality of information we receive largely determines our choices and ensuing actions, including our capacity to enjoy fundamental freedoms and the ability for self-determination and development,” says Janis Karklins, UNESCO’s Assistant Director-General for Communication and Information. Therefore, this course will assist teachers, policy makers and professionals to become agents of change through the development of MIL competencies in their communities and through enhancing intercultural understanding.
    The course will focus on the following subjects:
    • Intercultural dialogue and citizenship;
    • Freedom of expression, freedom of information and understanding the news;
    • Representation and languages in media and information;
    • Advertising and citizenship;
    • Information literacy and library skills;
    • Communication;
    • MIL and teaching/learning;
    • MIL policies and strategies;
    • Citizens and the media and technologies;
    • Global media/technologies in an increasingly connected world; and
    • Internet opportunities and challenges.
    The course will be offered through QUT’s online learning system, Blackboard, and via Blackboard Collaborate. Most sessions will be self-directed, with ongoing interaction with the course presenters in the online space. There will be four ‘live’ sessions presented globally by international guest lecturers.
    Participants will be able to complete the programme at basic, intermediate or advanced levels. Participants who successfully complete the basic and intermediate levels will receive a certificate of completion.  Participants who successfully complete the advanced level of the course will be eligible to receive advanced standing towards a Master of Education or Graduate Certificate in Education at QUT.
    Queensland University of Technology is an Australian and world leader in the provision of media and information literacy courses for students at undergraduate and postgraduate levels. QUT’s Faculty of Education is Australia’s largest one and in the top two faculties for educational research.
    In order to successfully complete this course participants will need regular access to a computer and Internet access to download documents, listen to podcasts and view online videos.
    To apply, please download and complete the application form by 18 January 2013. There are no associated fees to participants who wish to follow this course.
    This online course is part of UNESCO’s strategy to foster media and information literacy in societies, which includes:

    Educação para os Media


    Conheça as diretrizes da "Educação para os Media" segundo a Direção Geral de Educação do Governo de Portugal:

    A Educação para os Media pretende incentivar os alunos a utilizar e decifrar os meios de comunicação social, nomeadamente o acesso e utilização das tecnologias de informação e comunicação, visando a adoção de comportamentos e atitudes adequados a uma utilização crítica e segura da Internet e das redes sociais. Neste âmbito, a Direção-Geral da Educação desenvolve as seguintes iniciativas.
     Logo RTEN

    Rádios e Televisões na Net
    Iniciativa que tem como objetivo o apoio à implementação de projetos de Rádio e Televisão nas escolas bem como a divulgação de boas práticas. Os docentes interessados têm ao seu dispor um espaço Moodle onde encontram recursos diversos e podem partilhar experiências.

     Seguranet
    Seguranet
    Este projeto surge no âmbito do Programa Safer Internet Plus e da Rede Insafe para a promoção da segurança na Internet nas escolas portuguesas, do 1º ciclo ao ensino secundário, sob o lema “Tu Decides por Onde Vais!”.
     Media Smart

    Media Smart
    A DGE colabora desde 2008 com o Media Smart, uma iniciativa da Associação Portuguesa de Anunciantes. O Media Smart é um programa sem fins lucrativos, de literacia sobre a publicidade nos diversos media (meios de comunicação social), destinado a crianças entre os 7 e os 11 anos de idade e que visa fornecer-lhes gratuitamente ferramentas que as ajudem a compreender e interpretar a publicidade, preparando-as para fazer escolhas informadas, refletindo criticamente sobre a publicidade no contexto das suas vidas diárias. A DGE é responsável pela adequação do programa ao currículo dos 1.º e 2º ciclos do Ensino Básico e pela sua disseminação nas Escolas portuguesas.
    Jornais escolares no Portal das Escolas
    A área dedicada aos Jornais escolares no Portal das Escolas (em preparação) pretende, não só apoiar, como fazer a divulgação de boas práticas de utilização de jornais em contexto educativo, dando conta do trabalho realizado pelos docentes, nas escolas, com os seus alunos. Pretende-se ainda, no contexto atual, dotar os docentes, os alunos, as Escolas, de conhecimento e ferramentas que os habilitem a fazer a edição digital dos seus jornais, dando origem a novos formatos ou, até, a novos projetos.
    Referencial de Educação para os Media
    O Referencial de Educação para os Media (em preparação) pretende ser o documento orientador que define quais os conhecimentos e capacidades a desenvolver nos alunos, desde o pré-escolar ao ensino secundário no que respeita a uma utilização consciente dos meios de comunicação, nomeadamente em meio digital.

    IV Encontro Brasileiro de Educomunicação - Entrevista Profª. Rosane Rosa



    IV Encontro Brasileiro de Educomunicação, que aconteceu em outubro de 2012, em SP, entrevista Profª. Rosane Rosa, da UFSM.

    segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

    Novo sistema de ensino investe no tablet


    Cidade do México - A partir do ano que vem, 150 escolas particulares do Brasil vão iniciar as aulas com um novo sistema de ensino já presente em alguns países da América Latina. Ancorado no emprego de tablet, bilinguismo, capacitação de professores e avaliações, o sistema Uno Internacional, da Santillana, chega à rede privada brasileira com olhos bem atentos no gigantesco mercado de redes municipais.
    O modelo foi desenvolvido no Brasil, mas adotado antes em outros países da região. Neste primeiro ano, estarão envolvidos 75 mil alunos de 150 escolas. Três prefeituras estão com a negociação avançada. "Temos um objetivo forte de chegar à rede pública. O antecedente em escolas particulares é importante", diz o diretor global da Uno Internacional, Pablo Doberti.
    No México, o Uno Internacional envolve 130 mil alunos de 420 escolas. E a ideia é chegar a 1 milhão na América Latina em 4 anos. Para começar a operar no Brasil, o Santillana investiu 22 milhões. O sistema tem parcerias com Apple, Discovery, Animal Planet e Unesco.
    Disputa
    Em um País com 5.565 municípios, a rede pública é vista com muito interesse pelas empresas de sistemas de ensino. Gigante no setor, a Pearson já trabalha com 150 municípios. "No Brasil, a área pública é um dos nossos vieses mais importantes. Além da competição, inovação e profissionalização serão as batalhas", diz o superintendente de Educação Básica da Pearson, Mekler Nunes.
    Pesquisa realizada pelo setor em 2011 mostrou que 44% das prefeituras paulistas adotavam algum sistema de ensino - os primeiros contratos de municípios com sistemas privados foram feitos em 1999 pelo Grupo COC, em cerca de 90 cidades.
    Cada município adota um sistema diferente. Alguns abandonam totalmente o uso dos livros didáticos distribuídos pelo governo federal. Outros usam as apostilas, mas mantêm os livros como complemento.
    Além disso, compras e aquisições impulsionaram a disputa. Há dois anos, numa batalha com a própria Santillana, a Abril Educação comprou o Grupo Anglo. Dias depois, a Pearson Education comprou parte do controle acionário do Sistema Educacional Brasileiro (SEB), controlador do COC, Pueri Domus, Dom Bosco e Name, numa operação de R$ 888 milhões.
    O Kroton, dono da Rede Pitágoras, com 226 mil alunos no ensino básico, também teve 50% do controle acionário vendido para o Advent, fundo financeiro internacional. Nesta área, restam dois grandes grupos brasileiros, o Positivo e o Objetivo.

    Experiência

    O Uno Internacional é estruturado para o uso de projetores em vez de lousa, além dos tablets, com aplicativos, vídeos, jogos e textos. Todo o material didático é desenhado em cima das matrizes de habilidades e competências. Os coordenadores do Uno insistem que não é só colocar o tablet nas carteiras. A escola decide quantos aparelhos compra e se os utiliza em todas as aulas.
    A proposta é transformar a gestão para que se chegue a um estágio cada vez mais avançado de digitalização. Uma tentativa de diminuir a distância entre a escola e a imersão tecnológica na qual os jovens vivem.
    Como a maioria dos sistemas de ensino, não está prevista alteração no currículo. O sistema também não prevê um modelo de ensino integral, que fica a cargo de cada escola. "Não adianta impor uma mudança e chegar a uma escola de forma experimental. O importante é ganhar escala", argumenta Doberti.
    Nas salas de aula, a presença do equipamento e sua aplicabilidade parece conquistar os alunos. "Com o iPad é muito mais fácil. Acho que aprendo mais, é mais divertido", explica o estudante mexicano Isaac Garrido Morales, de 10 anos. Isaac é um dos 400 alunos da escola Green Valley, em Puebla, a 130 quilômetros da Cidade do México.
    Na escola Green Hills, no bairro San Jerónimo, na Cidade do México, o professor de espanhol Hector Avila propôs que os alunos escrevessem um poema baseado em uma música. Depois deviam, no iPad, buscar imagens na internet que melhor representassem cada verso, musicar a composição e transformar tudo em um vídeo.
    O material seria encaminhado depois por e-mail para todos os colegas. "Todas as aulas mudaram, mas espanhol foi a que ficou melhor", diz Tamara Junqueira, de 14, já acostumada a usar seu tablet em casa.
    Avila afirma que o caminho da tecnologia na sala de aula é inevitável. "É um instrumento dessa geração. Nós, professores, temos de nos adaptar a ele."
    O educador Paulo André Cia, diretor do Colégio Arbos, no ABC Paulista, decidiu pela adoção do sistema por conta desse avanço tecnológico. "Com a possibilidade de usar iPad, a escola consegue desenvolver uma sala com ambiente digitalizado que permite o uso de aplicativo, e essa é a grande revolução", diz.

    Capacitação

    Romper a resistência e o receio dos docentes com novas tecnologias e com a própria mudança faz parte do projeto. Professores e diretores são capacitados antes de começarem a usar o sistema e coordenadores regionais mantêm contato com a rede. Em janeiro, acontece a capacitação dos docentes em Brasília. "O treinamento é intensificado na implementação, mas o contato é permanente", explica a coordenadora do Uno, Teresa Álvarez Garcillán, espanhola que vive no México.
    A professora Irma Orozco, de 45 anos, da escola Fundação Imka, no pobre bairro Tlahuac, também na capital mexicana, afirma que a preparação é o ponto-chave para ter sucesso na sala. "O principal é planejar a aula. Senão a gente perde o controle", diz ela.
    Na sala de aula, Irma explicava aos alunos de 12 anos a linguagem do rádio e sua função. No próprio tablet, eles encontravam o exercício e digitavam as respostas.
    "No começo deu uma insegurança, porque eles são muito mais rápidos com essas coisas que a gente." As informações são do jornal O Estado de S.Paulo.
    Fonte: O Estado de S. Paulo 17/12/2012

    “Abrojos”, una experiencia de formación en comunicación comunitaria.



    Ong argentina Abrojos (Coletivo de Educação Popular) junto com a agência de notícias Anita, realizam trabalho de comunicação e educação em Tucumán na perspectiva dos direitos humanos.

    Formação de pessoas críticas e felizes




    Em toda a sua vida como religioso, adepto da Teologia da Libertação, e como assessor de diversos movimentos sociais, Carlos Alberto Libânio Christo, ou simplesmente Frei Betto, enfatizou a ética e os valores humanos como imprescindíveis na formação de uma sociedade solidária. Autor de mais de 50 livros e criador do Programa Fome Zero, que chefiou por dois anos no primeiro mandato do ex-presidente Lula, o frade dominicano defende que a escola tem que incutir esperança, o que será realizado apenas se for trabalhada a subjetividade do aluno. “É no coração que encontramos as razões para imprimir um sentido na vida. Quando não encontramos dentro, vamos procurar de alguma outra forma, e aí os jovens encontram as drogas”, afirma.

    Frei Betto idealiza uma escola que forme cidadãos felizes, com consciência da sua finalidade. “Temos que admitir algo muito simples: a escola é um núcleo de formação política de cidadania e tem que se assumir como tal. Não existe escola neutra e apolítica. Ou você está de acordo com o que existe e nada faz ou você se revolta com a desigualdade e age para de alguma forma erradicá-la”, acredita.

    Nesta entrevista para a Profissão Mestre, ele apresenta essa proposta de escola para formar cidadãos e não poupa críticas aos caminhos mercadológicos de mera formação de consumidores e mão de obra qualificada que a educação brasileira trilha atualmente. 

    Também justifica sua atitude constante de posicionar-se politicamente mesmo sendo um religioso: “Sou discípulo de um homem que foi preso, condenado por dois poderes e morto na cruz por razões políticas, não religiosas”.

    Profissão Mestre: Qual é o conceito de cidadania que o senhor considera para fundamentar a sua proposta de formação cidadã?
    Frei Betto: A escola tende cada vez mais a entrar no paradigma pós-moderno de mercantilização de todas as relações sociais e, portanto, transformar-se numa usina de produção de mão de obra qualificada para o mercado de trabalho. Não é essa a finalidade da escola. Ela deve formar pessoas felizes e cidadãs. Por cidadão entendo a pessoa com a consciência de que é um ser político, no sentido de que falava Aristóteles, ou seja, alguém dotado de direitos, que devem ser assegurados e respeitados por seus semelhantes, e deveres para com esses mesmos semelhantes, no sentido de cada vez mais participar do processo de construção de uma civilização marcada pela solidariedade.

    Profissão Mestre: O senhor acredita que algumas pessoas tomam posicionamento político pela omissão. As escolas e os sistemas de ensino têm adotado essa postura?
    Frei Betto: Eu diria que a escola não tem assumido o seu papel político. Muitas não incentivam seus alunos a formar grêmios, associações, academias de letras e diretórios estudantis, o que é uma grave falha. A escola não pode ignorar o contexto social no qual se insere. Formar cidadãos é formar pessoas conscientes e críticas frente a esse mesmo contexto social. Muitas escolas sacramentam a desigualdade social, os tabus, os preconceitos e as discriminações por omissão, por não abordarem essas questões, por não levarem para dentro da sala de aula os fatos importantes e urgentes da sociedade atual como eles são, tais como a guerra, o terrorismo, a homofobia, o machismo, a questão ecológica, enfim, uma infinidade de temas.

    Profissão Mestre: O professor, nesse cenário, pode acabar sem respaldo. Como tomar um posicionamento que não seja o da omissão?
    Frei Betto: De fato, o docente é um grande sacrificado porque trabalha em péssimas condições, é mal remunerado, não tem suficiente condição de pesquisa, [ou como]  reciclar-se, etc. Portanto, acho que os professores têm que se organizar nas suas associações e sindicatos para pressionar os sistemas de ensino e, sobretudo, o poder público, para conquistar e assegurar direitos.

    Profissão Mestre: O papel do professor está contextualizado dentro de um projeto de escola, que deve atender um determinado estado e nação. Existe um projeto de nação e de escola claro no Brasil?
    Frei Betto: Na minha cabeça existe um projeto de Brasil, que seria uma nação saudável, digna, livre e pacífica, mas não sei se esse “projeto-Brasil” está claro nas escolas. Defendo há muitos anos que toda escola deveria ter o seu próprio planejamento estratégico, de tal maneira que só deveria incorporar professores sintonizados com isso. Exemplo: seremos uma escola para formar homens e mulheres que lutem contra a desigualdade social, destituídos de preconceitos vigentes em relação a, por exemplo, homossexualismo, que não façam discriminação religiosa, com espírito ecumênico e solidário, sensíveis aos movimentos sociais e populares. Isso já seria um projeto estratégico para uma escola.

    Profissão Mestre: Mas as escolas já não admitem apenas professores que comunguem os mesmos valores?
    Frei Betto: Toda escola tem os seus valores, seu esquema, seu projeto, às vezes um projeto meramente capitalista, uma escola que simplesmente forma o maior número de alunos aprovados no vestibular. Apenas mão de obra qualificada para o mercado e sem incutir valores como ética, ideais e sentido de vida.

    Profissão Mestre: Uma das coisas que mais se ouve de professores é a desconexão entre família e escola. A família entrega seu filho na escola e espera que volte uma pessoa diferente, mas dentro de suas próprias expectativas. Como o senhor avalia essa questão?
    Frei Betto: Culpa da escola, que deveria exigir da família um compromisso mínimo para sua presença durante o ano. A escola é um quadrilátero formado por professores, alunos, família e funcionários. O ideal seria que todos estivessem abertos à comunidade circundante, mas a escola não consegue promover essa conexão. Assim como ela exige a presença diária do aluno em sala de aula, deveria exigir lá, no ato da matrícula, a presença dos pais nas reuniões às quais são convocados.

    Profissão Mestre: Nas escolas de periferia é comum a falta de identificação do aluno com a escola. O professor é visto como preposto de um Estado distante da sua realidade. O que a escola pode fazer para se aproximar?
    Frei Betto: Está faltando pedagogia da escola em relação à comunidade circundante. A coisa mais simples na periferia seria a escola abrir aos sábados e domingos para esportes, música, churrasco, eventos de poesia, dança, etc. A escola deveria se abrir para que pais e professores dessem pequenas instruções a pessoas que têm disponibilidade somente no final de semana para frequentar esse ambiente e aprender a cozinhar, cortar cabelo, um pouco mais de aritmética, língua portuguesa para saber escrever uma carta simples sem graves erros. É muito simples! Basta ter vontade.

    Profissão Mestre: Essa falta de vontade é de quem?
    Frei Betto: As secretarias de educação deveriam ter políticas de entrosamento das escolas com as comunidades.

    Profissão Mestre: O senhor tem alguma sugestão para conseguir o engajamento discente sem deixar de cumprir os conteúdos básicos propostos pelo MEC?
    Frei Betto: Evidente que devemos ter conteúdos básicos, mas aí também entram temas transversais. É uma questão de criatividade pedagógica da escola para lidar com as peculiaridades do seu contexto. Não se pode ter uma escola na Amazônia que não leve em conta, na questão ambiental, os rios, a floresta e o gás carbônico, assim como não se pode ter em São Paulo uma escola que não trate com maior atenção sobre superpopulação, migração e violência urbana.

    Profissão Mestre: Essa solução não se daria individualmente.
    Frei Betto: É uma questão de política nacional de educação, e não temos uma clara. Qual é o objetivo da escola no Brasil? Na verdade, hoje, é formar mão de obra qualificada, com uma progressiva mercantilização e sem conteúdo ético e humanístico. Os níveis de violência e bullying são muito grandes, com esgarçamento dos valores e da subjetividade. É preciso rever que tipo de escola temos e que tipo de cidadãos estamos produzindo nela. Os alunos saem cidadãos ou consumistas? Cidadãos ou oportunistas? Cidadãos ou alpinistas sociais? O sujeito fica anos na escola e sai pensando em passar os outros para trás, tornar-se milionário em dez anos. Que educação é essa? Sem nenhum valor espiritual, nada preocupada com a ética! O cidadão só não quer ser preso, mas não necessariamente está preocupado com a ética. Se puder passar o outro para trás no silêncio sem ser surpreendido, ele o faz. Não teria problemas em cometer crimes, desde que não seja preso.

    Profissão Mestre: Como os meios de comunicação influenciam na formação desse senso?
    Frei Betto: Hoje há um esvaziamento da subjetividade, causado pelo vício da televisão. Todo produto cultural é dialógico, e a TV é uma ditadura monológica. Ela cativa e hipnotiza com o entretenimento, aquilo que mexe com os cinco sentidos e com as nossas carências. Durante muito tempo a publicidade enfrentou o desafio de entrar no universo infantil porque a criança tem um mundo onírico, a sua fantasia. A publicidade descobriu como transformá-la em consumista com uma fórmula óbvia e perversa: a erotização precoce da criança. Quando se prende a atenção de uma criança de 4 ou 5 anos ela se torna consumista, e depois se tornará esquizofrênica, pois terá vocabulário, trejeitos e desejos de adulto. Os pais acham que são superdotadas, e não sabem que a criança está transferindo seu universo onírico para aquilo que ela vê na TV. É um ser biologicamente infantil e psicologicamente “adulto”. Quando chega à puberdade tem mais medo do real do que a minha geração teve, pois tem débito de sonhos. A infância não foi vivida satisfatoriamente e/ou seus sonhos foram vividos pela mídia, ou a criança entrou muito cedo no mundo dos adultos, na condição de consumista.

    Profissão Mestre: Como a escola pode contribuir para que a criança não tenha os seus sonhos furtados ou terceirizados?
    Frei Betto: É muito importante levar para dentro da sala de aula a imagem, não somente o livro, para debater a publicidade, para os alunos deglutirem a imagem e decifrá-la. Quando se faz isso gera-se um distanciamento do consumismo proposto na publicidade. O professor de Física, por exemplo, deve levar a Fórmula 1 para a sala de aula. Uma obra literária tem texto, contexto e pretexto. A escola tem que se contextualizar, e gerar o pretexto, a razão de ser das coisas, o sentido da vida. Tem que trabalhar com a atualidade, com o que está fazendo sucesso na TV, o que os alunos estão consumindo.

    Fonte: Matéria publicada na edição de setembro da revista Profissão Mestre/ Entrevista e texto de Fábio Venturini (http://www.profissaomestre.com.br/view/action/mostrarEntrevista.php?cod=142)