domingo, 10 de fevereiro de 2013

Omissões marcam livros usados em escolas militares

Livros didáticos usados para ensinar a história do Brasil nas escolas militares do país omitem informações essenciais para a compreensão de alguns episódios da ditadura militar (1964-1985).

Ao narrar a "revolução de 1964", um dos volumes da coleção Marechal Trompowsky afirma que o golpe foi promovido por "grupos moderados e respeitadores da lei".

O livro diz que o Congresso declarou a Presidência da República vaga antes de eleger o general Castello Branco presidente, logo após o golpe, mas omite o fato de que o presidente deposto João Goulart ainda estava no país.

Outro livro, "500 anos de História do Brasil", diz que a Guerrilha do Araguaia (1972-1975) terminou após "a fuga dos líderes", sem fazer referência às mortes e ao desaparecimento dos guerrilheiros encontrados pelo Exército.

Existem 12 escolas militares no país. Elas oferecem vagas do 6º ano do ensino fundamental ao 3º ano do ensino médio e têm hoje 14 mil alunos matriculados, muitos deles filhos de militares.

O coordenador da Comissão Nacional da Verdade, Cláudio Fonteles, afirmou que os livros poderão ser alvo de recomendações da comissão, criada para investigar violações contra direitos humanos ocorridas especialmente durante a ditadura.

"Esse é um tema propício a ser tratado nas recomendações", disse. "É preciso respeitar a autonomia [das escolas militares], mas não se pode fugir completamente ao programa adotado nas outras escolas públicas e privadas."

Para o professor de história da UFRJ Carlos Fico, o governo deveria promover uma reforma geral nos currículos militares. "Não sabemos como funcionam as escolas para oficiais", diz. "Não é uma questão militar. Diz respeito à segurança da sociedade."

A Associação Nacional de História pretende pedir ao Ministério da Educação e ao Ministério da Defesa que avaliem os livros adotados nas escolas militares.

OUTRO LADO
Em nota, o Ministério da Educação afirmou que não pode interferir no currículo das escolas militares. O Ministério da Defesa informou, por sua vez, que só acompanha o conteúdo pedagógico das instituições destinadas à formação de oficiais e praças das Forças Armadas.

Responsável pelas publicações da coleção Marechal Trompowsky, o general José Carlos dos Santos, comandante da Diretoria de Ensino Preparatório Assistencial do Exército (DEPA), não quis se manifestar sobre o tema e sugeriu que eventuais questionamentos fossem dirigidos à assessoria do Exército.

Em nota, o Exército informou que foram necessários três anos de pesquisas para produzir a coleção e disse que ela é atualizada anualmente pelos autores, mas evitou discutir questões específicas.

Fonte: Folha de S.Paulo/ Juliana Dal Piva e Leonardo Vieira 10/02/2013


ANÁLISE
Relato do período histórico envolve disputa explosiva
Por Ricardo Bonalume NetoDe São Paulo
"Assim, não apenas as Forças Armadas estão perdendo a batalha pelo presente, mas estão em perigo de serem roubadas do seu passado -esse passado quase mitológico que é essencial ao moral de qualquer Exército, novo ou velho".

Essa frase é perfeita para definir o atual embate ideológico envolvendo a história recente das Forças Armadas brasileiras e o seu papel no regime de 1964 -e vale igualmente para o passado mais distante.

Mas, curiosamente, ela foi escrita pelo historiador israelense Martin van Creveld sobre as Forças de Defesa de Israel.

Que algo assim seja dito sobre alguns dos militares mais competentes do planeta -e 
fundamentais para um país cercado de inimigos reais- mostra o grau de ressentimento que a sociedade civil está desenvolvendo em relação aos militares em boa parte do mundo.

No caso israelense, foram as desastradas intervenções no Líbano e o constante embate com os palestinos dos territórios ocupados que criaram uma atmosfera de desencantamento com as Forças Armadas, que anos antes eram vistas como o grande "escudo" de um país supostamente pacifista, mas rodeado por vizinhos hostis.

Historiadores israelenses revisionistas estão atacando essa visão "quase mitológica" do passado.

No Brasil, as esquerdas e seus historiadores também revisionistas começaram durante o regime militar atacando o passado mais distante -procurando minimizar os feitos das Forças Armadas durante a Guerra do Paraguai (1865-1870) e a participação brasileira na Segunda Guerra Mundial (de 1942 a 1945).

Não era então possível atacar diretamente os militares no poder.

EMBATE IDEOLÓGICO
Com a volta da democracia, em 1985, o embate ideológico voltou com força. Os militares insistem na sua versão do passado recente, de que impediram o país de virar uma ditadura comunista e salvaram a democracia.

Já a esquerda, tanto a armada com fuzis ou a com laptops, insiste que lutava também pela democracia, apesar de seus patronos serem notórias ditaduras totalitárias -União Soviética, China, Cuba.

O Exército já reconheceu erros no passado, como a campanha de Canudos, no final do século 19. Mas patronos como o Duque de Caxias são inatacáveis. Um antigo diretor da Biblioteca do Exército censurou certa vez um livro de um acadêmico por que continham críticas ao patrono da força -só que as críticas vinham de outro militar, Benjamin Constant...

Caxias morreu faz tempo e não tem como reclamar. Já a atual disputa pela memória, pelo conteúdo de livros didáticos e livros de história, é mais explosiva porque muitos dos protagonistas da "luta armada" e da sua repressão estão vivos. E atuantes.

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