sábado, 30 de março de 2013

A educomunicação e suas contribuições na educação integral


Por Daniele Próspero
Daniele PrósperoDiante dos novos desafios da sociedade contemporânea, a educação, cada vez 
mais, precisa ampliar os espaços, tempos 
e oportunidades educativas, o que busca 
justamente a promoção de uma educação 
integral, ou seja, a formação dos alunos 
nas suas multidimensões. Isso passa, 
necessariamente, pela possibilidade de 
converter-se num espaço privilegiado para garantir às novas 
gerações os conhecimentos e as habilidades indispensáveis, 
para que se comuniquem com autonomia e autenticidade.
Sendo assim, não há como não falar em comunicação. Essa 
aproximação entre comunicação e educação se torna essencial. 
É o que chamamos de educomunicação, ou seja, um conjunto 
das ações voltadas ao planejamento e implementação de 
práticas destinadas a criar e desenvolver ecossistemas 
comunicativos abertos e criativos em espaços educativos, 
garantindo, dessa forma, crescentes possibilidades de 
expressão a todos os membros das comunidades educativas.
Diversas experiências e práticas educomunicativas têm 
alcançado resultados importantes no processo de 
aprendizagem das crianças e jovens. Algumas, inclusive, 
avançaram e se tornaram políticas públicas, como o 
projeto Educom.radio, em São Paulo. O governo federal 
percebeu o valor da proposta e sua importância para a 
busca de uma nova educação e inseriu, pela primeira vez, 
como política pública nacional – no Programa Mais 
Educação –, o conceito e pressupostos da 
educomunicação como uma forma de agregar à busca 
constante por uma educação integral.
O programa, criado como parte do Plano de 
Desenvolvimento da Educação (PDE), tem como 
proposta articular diferentes ações, projetos e 
programas nos Estados, e municípios, em consonância 
com o projeto pedagógico da escola, ampliando 
tempo, espaços e oportunidades educativas, 
através da articulação das políticas setoriais 
envolvidas e possibilitando a todos o “direito de 
aprender”.
O programa vem sendo ampliado ao longo destes anos. 
Em 2008, 1378 escolas no país foram contempladas pelo 
Mais Educação; em 2009, foram 5040; e, em 2010, 
foram mais de 10 mil. Em 2011, 15.018 escolas públicas 
passam a oferecer educação integral, por meio do 
programa. Do total, 5.256 participam pela primeira vez. 
Todas as novas escolas são de ensino fundamental. 
A previsão é atingir 3 milhões de alunos, com estimativa 
de recursos aplicados de R$ 574 milhões.
O Mais Educação prevê a implantação de uma jornada 
mínima escolar de sete horas, com a previsão de 
atividades de pelo menos três dos dez macrocampos 
estabelecidos: acompanhamento pedagógico (obrigatório);
meio ambiente; esporte; direitos humanos; cultura 
e arte; inclusão digital; prevenção e promoção da saúde; 
comunicação e uso de mídias; educação científica; e 
educação econômica e cidadania. São mais de 62 
atividades nestes dez macrocampos.
A educomunicação insere-se como proposta no 
macrocampo “Comunicação e Uso de Mídias”. As 
escolas podem optar por atividades de rádio, jornal, 
fotografia, vídeo e histórias em quadrinhos e 
recebem recursos para a compra de equipamentos 
e contratação de monitores.
O direcionamento do MEC para as atividades neste 
macrocampo é que as ações “utilizem os recursos 
da mídia no desenvolvimento de projetos educativos 
dentro dos espaços escolares, com a construção de 
propostas de cidadania engajando os alunos em 
ações de colaboração para a melhoria das relações 
entre as pessoas, além de projetos de aprendizagem 
por meio da reflexão crítica e da possibilidade de 
intervenção na escola e na comunidade”.
Este enfoque apontado pelo programa traz uma série 
de contribuições para a educação integral. Em 
primeiro lugar, trata-se, portanto, de colaborar 
com as relações no próprio ambiente escolar. Ao 
permitir que os alunos, juntamente com professores
ou monitores, discutam no jornal ou na rádio 
questões da escola e da comunidade, um novo 
ambiente pode ser elaborado.
A própria produção destes veículos escolares, que 
necessita uma intensa pesquisa, discussão e 
produção em grupo, abre a possibilidade para 
o estabelecimento de novas relações entre os 
próprios alunos.
Outra contribuição é em relação às novas linguagens. 
De acordo com o caderno orientativo do macrocampo, 
a Comunicação e Uso de Mídias, sobretudo, será 
tratada como o conjunto de processos que promovem 
a formação de cidadãos participativos política e 
socialmente, que interajam na sociedade da informação, 
na condição de emissores e, não apenas, consumidores 
de mensagens, garantindo assim seu Direito à Comunicação.
Sendo assim, os alunos no Mais Educação são envolvidos 
diretamente na produção destes veículos de comunicação, 
permitindo exercerem o seu direito a se expressarem. 
Abrir esse espaço de participação para os alunos se 
configura, portanto, numa possibilidade de despertar 
o interesse por novos conhecimentos, novas práticas, 
novas ações de intervenção social.
É no fazer que os alunos, justamente, encontram sentido 
para muitas questões colocadas pela escola que, até 
então, pareciam desconectadas. Os alunos podem 
utilizar-se da rádio para falar sobre suas propostas e 
ainda praticar a expressão verbal; ao produzirem um 
vídeo, por exemplo, os estudantes conhecerão de 
forma mais clara como é o processo de produção e, 
por isso, terão um olhar mais crítico ao assistirem 
programas televisivos; nos jornais ou quadrinhos, 
os estudantes poderão discutir temas como a sexualidade.
Diversos estudos já têm demonstrado o impacto positivo 
ao permitir que as crianças e jovens participem do 
processo de produção da mídia. De acordo com a 
Unesco (2002), os projetos que atuam nesta 
perspectiva têm demonstrado consequências
interessantes nos envolvidos, como: orgulho, poder e 
auto-estima. Os participantes apontam o desejo de 
encontrar na mídia os sonhos cotidianos e a realidade 
local; compreensão crítica e maior competência de mídia; 
fortalecimento da capacidade e da curiosidade; maior 
justiça social com a mídia audiovisual; e interesse na 
sociedade. Os participantes ainda ampliaram seu 
vocabulário e repertório cultural, aumentaram suas 
habilidades de comunicação, desenvolveram 
competências de trabalho em grupo, fizeram 
negociação de conflitos e planejamento de projetos 
e melhoram o desempenho escolar.
Outro ponto de simbiose entre a educomunicação e 
a proposta da educação integral é a própria 
interdisciplinaridade. Por meio das práticas 
educomunicativas, é possível uma maior flexibilização 
do currículo e da construção de uma proposta 
interdisciplinar. A fotografia pode ser uma ótima maneira
de trabalhar, junto à disciplina de Física, princípios 
básicos de luz. A Matemática e a Geometria, por 
exemplo, são fundamentais na diagramação de um
jornal. Já, a Redação e a Língua Portuguesa serão
utilizadas em qualquer tipo de mídia proposta, pois
estão ligadas à expressão. Além disso, ao produzirem
um jornal, os alunos podem discutir temas dos demais
macrocampos do Programa Mais Educação, como 
educação financeira, por exemplo.
E as escolas vêm, gradativamente, descobrindo o
valor das práticas educomunicativas junto aos seus
alunos. Em 2011, mais de 4.200 instituições escolares,
em 842 cidades, estão desenvolvendo atividades 
educomunicativas com cerca de 825 mil alunos
participantes.
[+] O texto “As contribuições das práticas educomunicativas na
promoção da educação integral” foi escrito pela pesquisadora
do Núcleo de Comunicação e Educação (NCE) da Universidade 
de São Paulo (USP), Daniele Próspero, que é jornalista, especialista
em jornalismo social e em educação comunitária.
Fonte: Portal Aprendiz e Educomunicação UFCG (Texto de 2011)

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