sexta-feira, 31 de maio de 2013

Ilusões perdidas

Uma repórter narra a sua trajetória, da glória à agonia dos grandes jornais, e vê sua espécie ameaçada de extinção com a asfixia da imprensa crítica e independente




Por Graciela Mochkofsky - Revista Piauí (Maio de 2013/ Nº 80)


Quando, aos 8 anos de idade, no remoto povoado patagônico de Planicie Banderita, descubro minha vocação de jornalista, mal sei o que é isso.
Muitos anos depois, tentarei entender de onde ela veio. Então vou me deparar com a perplexidade de meu pai engenheiro e minha mãe bioquímica: eles não sabem explicar.
Não há mesmo explicação. Só algumas lembranças.
Publico minha própria revistinha, El Club de los Castores. É um apanhado de textos e imagens que recorto das revistas infantis Anteojito Billikene colo em folhas de papel. Também inclui artigos escritos por mim: minha avó sempre lembrará que um dia pedi permissão à minha mãe para entrevistar os bombeiros.
Deixo uma cópia em cada uma das 400 portas de Planicie Banderita. Invento de vender números de uma rifa. Todos os compradores ganham uma “assinatura” da revista, e o premiado, um bolo feito por minha mãe.
Meu pai me dá um microgravador com microcassetes, que cabe no bolso, e com ele começo a gravar conversas. Também ganho dele uma Olivetti portátil azul-celeste e tábuas de compensado, com as quais construímos uma redação no jardim.
Peço emprestada sua Polaroid e componho meu primeiro trabalho jornalístico em forma de livro. Título: “Minha família”. Cada página traz um texto biográfico de um de nós – meu pai, minha mãe, meus três irmãos e eu mesma – e, no final, uma galeria de fotos. Ainda não associo minha vocação com uma profissão de gente grande, tanto que na minha página consta: “Não sei o que quero ser quando crescer.”
Nos fins de semana, entramos no nosso Ford Falcon e viajamos 65 quilômetros por uma estrada de cascalho até a cidade de Neuquén. A primeira parada é na livraria Siringa. Compramos dicionários, livros de ciências e enciclopédias: do universo, do corpo humano, do centro da Terra. É toda a não ficção que está ao meu alcance.
Dez anos e quatro províncias depois, estou em Córdoba. Toda manhã atravesso a cidade para entrar num mundo desconhecido: a escola de jornalismo da Universidade Nacional.
Todo dia deixo para trás o rico subúrbio que bem poderia ser uma ilha; a discoteca, a obsessão pela roupa, os jogadores de rúgbi. Depois de cinco anos morando lá, quase não conheço o resto da cidade.
Na Universidade Nacional falam uma nova língua, que eu decifro a duras penas. Fala-se, por exemplo, de política: de não pagar a dívida externa, da nova ordem mundial das comunicações, dos planos contra a hiperinflação e da queda de Raúl Alfonsín. Leem-se alguns xérox: de Adorno, Horkheimer,Benjamin, Van Dijk, McLuhan. Leem-se livros: de Cortázar, Oliverio Girondo, Tomás Eloy Martínez. Contam-se lendas sobre jornalistas que, no passado, fizeram presidentes tremer. Afeta-se certo cinismo – parece que os jornalistas que fazem os presidentes tremerem são assim. Conta-se uma piada: um editor pede a um jornalista uma coluna sobre Deus, e ouve dele a pergunta: “Contra ou a favor?” Temos que achar graça.
Venera-se o Página/12 – o jornal que faz os presidentes do momento tremerem. Todos me explicam que é independente e crítico, que é de esquerda, que está comprometido com a democracia e com os movimentos de defesa dos direitos humanos fundados por familiares das vítimas da ditadura militar. Que tem o caráter narrativo do Novo Jornalismo americano e a opinião política dos jornais europeus. Que nele trabalham os jornalistas importantes. Nos corredores, lemos com devoção suas colunas, suas investigações sobre a corrupção no governo Carlos Menem. Reverenciamos sua primeira página em branco para anunciar os indultos que Menem deu aos militares condenados alguns anos antes por crimes que mais tarde serão chamados de lesa-humanidade.
Não há profissão mais fascinante que a de jornalista, e não há personagens mais românticos que os jornalistas. O jornalista é boêmio, fumante, notívago, talvez alcoólatra, leitor e escritor, um tanto aventureiro, engajado, disposto a arriscar a própria vida, cético, cínico, imensamente idealista. Passa as tardes soltando frases espirituosas, falando de assuntos importantes, tomando café com as pessoas mais interessantes ou derrubando ministros instalado em sua trincheira.
Tem coisa melhor?
Lá vou eu.
Entro no Página/12 em abril de 1991, aos 21 anos. O jornalismo argentino, diremos depois, vive uma idade de ouro que se estenderá por quase uma década.
Os argentinos, nessa época, amam os jornalistas. Acreditam neles mais do que em ninguém: mais do que no presidente, mas isso é fácil, porque ele mesmo disse que mentiu para ganhar as eleições; mais do que nos magistrados, mas isso também não é difícil, pois houve um ministro que entregou a outro, escrita num guardanapo, a lista dos juízes comprados pelo governo; mais do que nos sindicalistas, mas quem a essa altura ainda acredita nos sindicalistas?; mais do que nos bispos, que antes foram cúmplices dos militares e agora são cúmplices de Menem; mais do que nos professores, porque a educação está em crise e afundando por causa das políticas neoliberais.
Todas as pesquisas de opinião confirmam: os jornalistas são heróis. Todos querem ser jornalistas. Eu já sou – e no Página/12!
Em público me vanglorio disso, mas em segredo não consigo acreditar na minha sorte. É verdade que ganhamos pouco, passamos horas trancados numa redação horrível e sem janelas, e frequentemente não temos dinheiro para ir até o local dos fatos. Mas e daí?
Por exemplo. Mataram seis pessoas numa fazenda no interior da província de Buenos Aires: a proprietária, seu namorado e seu filho, um andarilho e dois peões. Confiam o caso a mim! É uma oportunidade extraordinária – e apavorante. De um caso parecido, Truman Capote extraiu A Sangue Frio. Agora é minha vez.
Passo a noite relendo A Sangue Frio. De madrugada já estou na rodoviária de Retiro, pronta para percorrer os 466 quilômetros até o município de General Villegas. Levo comigo uma sacola com roupa, uma escova de dente e uns poucos pesos. Subo com o fotógrafo no ônibus escolhido por uma secretária do jornal. Pergunto impaciente ao motorista qual o horário previsto de chegada. Calculo estar no destino ao meio-dia, a tempo de descobrir o assassino e escrever meu primeiro grande artigo. O motorista me explica que esse ônibus para em cada cidadezinha e cada vilarejo que existe no pampa entre Buenos Aires e Villegas. Com sorte, diz ele, chegaremos no meio da tarde.
Com sorte? Que sorte? O jornal escolheu as passagens mais baratas. Vou perder a corrida com os outros jornais antes mesmo de começar.
O ônibus já deixou a rodoviária. Ainda não há celulares – ou melhor, não para qualquer um, como alguns anos depois. Não posso consultar ninguém, tenho que decidir sozinha. Que é que eu faço? O que Truman Capote faria?
O ônibus avança pela estrada. Faço contas com o fotógrafo: quanto dinheiro temos, juntando o que cada um carrega? Descemos no primeiro vilarejo. Vemos uns táxis brancos numa travessa. Quanto cobram por uma corrida até Villegas? Só ida, e em tempo recorde. Mostramos o que temos, o que podemos pagar.
Um dos taxistas aceita. Sem pensar duas vezes, liberamos o ônibus e entramos no Peugeot 504, que faz uma curva, entra na rodovia, avança 300 metros, começa a se sacudir com uma tosse de cachorro, a soltar fumaça pelo capô – e para.
O taxista desce para examinar o motor e volta com o diagnóstico: fundido.
Não vamos chegar nunca.
Lá se foi minha primeira cobertura como enviada especial – e tudo por problemas de logística. Já prevejo um fracasso maior, definitivo: sou mais uma de muitas promessas do jornalismo que nunca chegaram a se realizar, acabou-se meu futuro na profissão. Sem dúvida os repórteres do Clarín já estão em Villegas, com carro de aluguel, resolvendo o crime que eu estava destinada – ou não! – a resolver.
Não, não pode ser, não pode acabar assim. Penduro minha bolsa no ombro, cruzo um olhar com o fotógrafo e me instalo no acostamento. Peço carona. Pouco depois, para uma picape azul.
Estão indo para onde?, pergunta o sitiante.
Jornalistas do Página/12, múltiplo assassinato, mistério, urgência, General Villegas, táxi fundido, jornal de amanhã.
Vamos!, ele responde.
E nos deixa no portão da fazenda.
Entramos na cena do crime com o sol ainda alto. Apreciamos a cara contrariada do repórter do Clarín, que chegou horas antes em seu carro alugado e imaginou que tivesse os policiais à disposição dele e mais ninguém. Consigo as informações; o fotógrafo, as imagens. Depois, como já podemos qualquer coisa, também conseguimos que uma pessoa nos leve até a cidade, que numa pensão barata nos aluguem dois quartos, que outra pessoa nos empreste papel e uma máquina de escrever, e que uma terceira pessoa me deixe usar seu telefone para ditar, palavra por palavra, o artigo que chega em cima da hora do fechamento.
Passados alguns dias, voltarei a Buenos Aires triunfante – sem ter resolvido o caso, como também a polícia não resolveu, nem ninguém até hoje, 21 anos depois.
Temos orgulho de ser do Página/12. Gostamos de ouvir a voz dos funcionários vacilar quando dizemos de onde falamos. Por toda parte proclamamos o que somos: jornalistas do Página/12. Sentimos quando alguém não comenta conosco nosso texto do dia e pensamos que só pode ser um reacionário ou alguém que vive de costas para a realidade, conformado com a paridade artificial do peso com o dólar e com seus eletrodomésticos pagos em prestações.
Aqui não importam as hierarquias nem a antiguidade. Trazendo informação, o principiante tem as mesmas chances que os veteranos de ir parar na primeira página e ser tratado como estrela – pelo menos até a próxima edição.
Se todos os jornalistas foram, somos e seremos filhos do meio e do momento em que nascemos para a profissão, eu sou filha do Página/12 e desses anos 90.
São os anos do surgimento da CNN, o primeiro canal internacional de notícias 24 horas, que transmitiu ao vivo para o mundo a queda do Muro do Berlim. À sua imagem, nascem pouco depois, na Argentina e por toda parte, os canais de notícias a cabo. Tem início a era multimídia; os jornais se transformam em grandes corporações, ou as grandes corporações começam a comprar também os jornais e a faturar cifras multimilionárias nunca vistas na história do jornalismo. Fala-se dos “meios” como parte do poder econômico e político – como nunca antes se falou.
Na Argentina, o jornal Clarín compra canais de televisão aberta e a cabo, compra empresas de telefonia celular e seguradoras de previdência privada, produz espetáculos e investe em quase tudo, conquistando enorme poder.
As redações se modernizam. Surgem os primeiros faxes – montar o do Página/12 leva um dia inteiro de árduas provas. Para inveja dos demais, os repórteres de rádio começam a aparecer nas coletivas armados de celulares. Logo cada um de nós terá o seu.
Os primeiros computadores chegam às redações. Os velhos jornalistas se negam a entregar suas máquinas de escrever. Nós, jovens, vivemos o frenesi de uma epopeia.
Em pouco tempo nos equiparamos com colegas do Primeiro Mundo na cobertura de guerras, cúpulas, catástrofes, copas, olimpíadas. Jornalistas italianos comparam seus salários com o de um argentino. O do argentino é mais alto.
Mas alguma coisa estranha acontece.
Estamos em 1995. É meu quinto ano no jornal. Na seção Sociedade, cubro casos policiais, judiciais, desastres naturais, violência e pobreza. Já nem me lembro quem fui nas vidas passadas, só sei desta: de sol a sol na rua, falando com testemunhas, vítimas, criminosos, funcionários, personagens comuns e estranhos, no vasto território da Grande Buenos Aires, às vezes mais além. Fumo, leio, bebo uísque, escrevo, estou entre gente interessante. Cheguei lá.
Então, circula um boato terrível: dizem que, em segredo, o Clarín comprou o Página/12. Isso significa que o Página/12 vai deixar de ser independente, que a concorrência o absorveu para… para quê?
Ambas as partes desmentem o boato, mas ele coincide com a entrada de um novo administrador e de um diretor-financeiro que antes trabalhava no Clarín – e com um enorme corte de gastos e de pessoal. Numa redação pequena, que era como uma família, um dia nos comunicam a demissão de quase 100 colegas.
Parece impossível, insuportável. Fazemos uma greve de quarenta dias. O jornal é publicado numa versão empobrecida, sustentada pelos chefes.
No sábado anterior à reeleição do presidente Menem, que na redação (e em muitas outras partes do país, mas decerto não tantas assim) é sentida como uma derrota pessoal, a empresa consegue que o governo declare a greve abusiva e somos obrigados a suspendê-la – ou entrar na ilegalidade.
Na véspera da volta ao trabalho, como fecho do protesto, um grupo faz um piquete na entrada do prédio para impedir que os chefes entrem – e que o jornal saia. Há um empurra-empurra. Os chefes, prudentes, se recolhem no café da esquina. Nós nos espalhamos por outros bares, bebemos, discutimos. Sabemos que é o fim.
Na manhã seguinte, um subeditor que faz questão de ser detestado dribla os piqueteiros, distribui uns empurrões e consegue atravessar o bloqueio. Passa o dia inteiro sozinho na redação deserta, onde tocam telefones que só ele atende e aonde chegam faxes que só ele lê.
Na segunda-feira começará tudo de novo. A redação voltará a encher, os telefones serão atendidos. Paira, no entanto, um vazio, do qual alguns falarão e outros nem isso, mas que todos sentem.
No meio do conflito, me avisam que consegui uma vaga no mestrado em jornalismo da Universidade Columbia, em Nova York. Talvez seja um bom momento para ficar um ano fora. Convenço meus pais a venderem o pequeno apartamento onde moro em Buenos Aires e uso o dinheiro para pagar a viagem.
Columbia, pelo que me disseram, tem a melhor escola de jornalismo do mundo. Para mim é o berço do jornalismo rigoroso, honesto, independente, crítico e vigilante do poder que tentava se impor nas redações argentinas nos meus anos de formação. No Página/12, nós, jovens, dividíamos a admiração entre a geração de jornalistas argentinos dos anos 60 e 70 (alguns sobreviventes trabalhavam conosco) e americanos como Bob Woodward e Carl Bernstein, que tinham derrubado o presidente Nixon (há maior feito para um jornalista do que forçar a renúncia de um presidente que enganava seu país?). Citávamos Primera Plana La Opinión como nossos grandes modelos nacionais, mas o New York Times, o Washington Post, o Wall Street Journal ou a New Yorker – mesmo que não os lêssemos – como os melhores do mundo. Líamos a geração do Novo Jornalismo, Capote, Talese, Mailer, que, misturados com as tradições locais (de inspiração europeia), ajudaram a moldar o estilo singular do Página/12, que eu tinha adotado até onde podia: um jornalismo narrativo de espírito crítico e mordaz.
Lá vou eu.
É meu primeiro dia em Columbia. A decana nos reúne num grande salão e diz que somos especiais, representantes de uma elite, os melhores da nossa geração, herdeiros de uma honorável tradição; que o sucesso do nosso investimento (muitos assumiram grandes dívidas para poder estar aqui) é garantido.
Aprendo muitas coisas nesse ano de pouco sono, pressão permanente e feroz competição. Num dos primeiros exercícios, o professor nos fornece alguns dados sobre um caso: um prefeito foi detido como suspeito de um crime. Temos que escrever um texto enxuto e informativo como um redator de agência de notícias e num prazo curtíssimo. Corremos para as máquinas.
Enquanto teclamos desesperadamente os laptops – comprei o meu assim que cheguei –, o professor espia sobre nossos ombros. Ao passar na minha mesa, se detém. Para impressioná-lo, resolvi inserir detalhes narrativos, como fazia em Buenos Aires: acrescentei, por exemplo, que o prefeito passou a noite em claro na cadeia.
O professor se escandaliza: como é que eu posso saber se o prefeito dormiu ou não? Ninguém citou esse detalhe, não tem fonte. Devo deixar a imaginação fora da sala!
Começo a duvidar de tudo o que havia feito até então – e do que meus pares fizeram, de como trabalhamos. Do que eu entendia por jornalismo.
Em Columbia, os estudantes sonham em desafiar o poder, ou publicar grandes matérias sobre temas importantes, ou ser correspondentes de guerra. As figuras em destaque no momento vêm falar conosco: os últimos ganhadores do Pulitzer, correspondentes no Burundi e em Sarajevo, especialistas em ciência e em educação. Quando minha classe de Reporting and Writing recebe a visita de David Remnick, ganhador de um Pulitzer por sua cobertura da queda da União Soviética e recém-nomeado diretor de redação da New Yorker (“a melhor revista do mundo”), há um instante de temor reverencial, como se acabasse de entrar um deus – mas um deus que todos ali aspiram substituir num futuro não muito distante.
E quando os deuses não vêm até nós, nós vamos até eles. Um dia nos convidam para tomar o café da manhã no Wall Street Journal com Paul Steiger, diretor do jornal. Logo vejo que até então não tinha uma percepção clara sobre o poder de um grande veículo. Steiger não é como os editores de jornal que conheci na Argentina, que afinal eram jornalistas assalariados com anos de experiência: não, ele parece um aristocrata, um presidente, uma figura poderosa e distante. E o prédio, o salão, é próprio de uma corporação multimilionária – não aquele galpão do Página/12 iluminado com luzes fluorescentes que chamamos de “submarino”. Ser jornalista será, então, fazer parte desse novo poder?
No final do encontro, Steiger vem falar comigo, porque lhe disseram que eu era argentina, para me dar um exemplar do Wall Street Journal Americas, uma seleção de artigos em espanhol que o jornal está lançando.
Estou no topo do mundo. Eu, todos nós podemos ficar aqui se trabalharmos duro e entendermos as regras.
Mas há exceções. Vez por outra chegam a nós, como ecos distantes, histórias de fracassos, de jornalistas do New York Times que vivem amargurados porque mal e mal conseguem publicar um artigo insignificante por mês e passam o resto dos dias afogando sua frustração em uísque.
Só merecem nosso desprezo. Não, conosco nunca vai acontecer uma coisa dessas.
Na última semana do programa, a universidade monta uma feira de emprego: editores de todo o país vêm nos entrevistar. Meus colegas sonham em trabalhar em Nova York, mas sabem que deverão aceitar ofertas em cidades menores, Saratoga ou Charlotte, e ir subindo na escala, com muito esforço (ou muita sorte), até chegar ao destino. Eu falto às minhas entrevistas. Decidi voltar para a Argentina, ainda tenho meu cargo no Página/12 e muito a aplicar por lá. Quero contar grandes histórias, no estilo que os americanos chamam features, e penso que estando em Buenos Aires posso imaginar uma obra com projeção internacional, talvez um livro.
Imagino que Buenos Aires será Nova York.
O Página/12 já não é mais o mesmo. Muitos editores e redatores se foram; outros logo irão. Mas o que desapareceu com aquelas primeiras demissões, mais do que nada, foi uma coisa indefinível, algo que dava sentido a tudo, que dava um sentido a nós mesmos.
Dedico-me a cobrir casos policiais, quando posso – continuo na seção Sociedade –, mas já imagino outra coisa. Começo a escrever meu segundo livro, uma investigação sobre um retumbante escândalo que mistura drogas e política, a quatro mãos com Gabriel Pasquini, com quem moro desde a greve de 1995 e que daí em diante será meu editor e meu marido. É a história de como um juiz e um grupo de policiais armaram uma cilada para o empresário de Diego Maradona, Guillermo Coppola, incriminando-o por tráfico de drogas, para ganhar fama e dividendos políticos. O que a história de fato mostra é como é possível manipular os rumos da Justiça com o respaldo da classe política… e da mídia.
A sociedade condenou Coppola de antemão, decidiu culpá-lo pelos desastres pessoais de seu representado, o ídolo popular, e não quer ouvir nenhum argumento que possa provar sua inocência. Muitos veículos e jornalistas dão à sociedade o que ela quer. Eu mesma escuto perguntas tensas dos editores quando minha cobertura do caso insiste em mostrar que o inquérito contra Coppola é uma grande armação. Descubro que, quando a verdade não é a que o público espera, quando ela é inconveniente, também os jornais não têm interesse em dizer a verdade.
Essa também é uma verdade inconveniente. Por enquanto.
Procuro uma válvula de escape para minha insatisfação com o jornal, uma transição até descobrir como sair de vez. Encontro um novo projeto: investigar a vida de Jacobo Timerman, um mítico e polêmico editor dos anos 60 e 70 que ajudou a modernizar a imprensa argentina da época, transformado em protagonista de infinitos casos que cansei de ouvir da boca dos veteranos.
Pouco depois, surge a chance de mudar para o La Nación, que em muitos sentidos é o exato oposto do Página/12: um jornal de mais de 100 anos, fundado por um ex-presidente, porta-voz da elite e das grandes empresas tradicionais do país, por sua origem, constituição acionária e vocação. Um veículo conservador que também se diz liberal, ainda que só o seja de fato em economia, e que apoiou a última ditadura militar e ainda manifesta simpatia ou apoio aos militares – embora comece a reconhecer seus crimes, a contragosto, e a modernizar uma linguagem e um modus operandi rígido e antigo, que seus praticantes resumiam em lemas como: “Sabemos tudo, mas não publicamos nada.”
La Nación pretende mudar, modernizar-se conforme o ideal norte-americano. O controle acionário foi assumido por uma das famílias descendentes do fundador Bartolomé Mitre. São os Saguier, a mãe e quatro filhos. Fernán, que foi correspondente em Washington, assume a secretaria-geral. Os Saguier procuram jornalistas formados no Página/12, e muitos de nós – chegamos a ser dezenove – vamos para as seções “quentes”: política, economia, informação geral. Forma-se até uma equipe de investigação, que é incentivada a se imaginar como parte do Washington Post.
Essas pretensões de renovação convivem com os velhos editores e com o velho público, que não compartilham os mesmos valores. E isso exige de nós mais rigor: nossa informação deve ser irrepreensível, todo dia devemos lutar para que ela conquiste algum destaque. Já não há lugar para os subentendidos nem as licenças do Página/12. É um bom desafio, que pode até resultar em melhor jornalismo.
Além disso, o La Nación tem todos os recursos de um grande jornal. Quando telefonamos de lá, quase sempre somos atendidos.
Consigo a melhor função possível: cobrir a chegada ao poder da Aliança e do presidente Fernando de la Rúa. Se alguém me pergunta o que mais eu gostaria de fazer, respondo: nada. Não concebo minha vida fora de uma redação. Meu futuro já está todo planejado: vou ser a principal colunista política do país e morrer fazendo isso, feliz.
Mas não é tão fácil assim.
– Isso que você escreveu – escuto certa noite do meu editor, que tem meu artigo do dia sobre a mesa, todo anotado – é impecável. Confirmei pessoalmente a informação com todas as fontes. – E acrescenta, terminante: – Nunca mais faça isso.
Em outra ocasião, para me convencer de que minha voz crítica já está incomodando:
– Você tem que ser capaz de olhar um pássaro e descrever sua beleza.
De início sem me dar conta, vou aprendendo como as coisas funcionam na realidade. Como cronista do jornal, todo dia investigo os principais jogadores da vida política e da imprensa, meus contemporâneos, enquanto, como biógrafa de Timerman, reconstruo a história do mesmo jogo nos cinquenta anos precedentes. Em certos momentos de sorte, consigo ter uma clareza que poucas vezes se consegue estando imerso na pura prática: a de ligar o passado, o presente e o futuro do jornalismo e do país.
Nesses momentos de lucidez, vejo meu erro: o que eu penso que é, ou devia ser o jornalismo, não condiz com a realidade de todos os dias. Boa parte do meu trabalho cotidiano consiste numa queda de braço, não mais com aqueles que, instalados no poder, querem impedir a publicação de certas ações e planos que esperam manter ocultos, e sim com meus editores, que esperam que meus artigos sigam a visão menos crítica do jornal e que avaliam a informação conforme os interesses editoriais do momento.
Entendo que meu trabalho consiste numa dupla batalha: com as fontes, para conseguir a informação mais verdadeira possível, e com os editores, para conseguir que seja publicada sem distorções.
Ganho muitas batalhas, perco outras.No meu balanço pessoal, conto mais vitórias do que derrotas, por isso acho que vale a pena. Sinto nessa dupla batalha uma espécie de façanha profissional.
A crise que desemboca neste dezembro de 2001 devasta a classe política, o modelo econômico, boa parte da classe média e muito mais – e também cobra a fatura da mídia e dos jornalistas. Os jornais sofrem uma drástica perda de anunciantes. Enquanto as dívidas milionárias acumuladas durante a expansão da década anterior permanecem em dólares, em 2002, com a desvalorização da moeda, seus ganhos em pesos são reduzidos a um terço. Quem devia 100 milhões de dólares pela compra de um moderno parque gráfico nos anos de prosperidade continua devendo 100 milhões de dólares; mas cada peso-dólar ganho anteriormente com publicidade e vendas agora se reduz a 30 centavos.
Os donos dos meios de comunicação entram em pânico. Na iminência de quebrar ou de entregar tudo aos credores, recorrem ao governo, aos bancos, a outros empresários, fazem negociações para “salvar” suas empresas. Naturalmente, não se deve incomodar aqueles a quem se pede ajuda. Nas redações, cancela-se toda investigação, toda crítica, exceto contra quem não tem poder algum.
Durante uma passeata de desempregados, a polícia mata dois jovens, Darío Santillán e Maximiliano Kosteki. Os fotógrafos dos jornais conseguem as fotos que podem provar o que aconteceu. Mas o governo de Eduardo Duhalde, que chegou à Presidência sem legitimidade popular, por um acordo entre políticos para sair da crise, pede aos jornais que não se fale em “repressão”. Os jornais – exceto o Página/12 – decidem não publicar as fotos.
Para os jornalistas que não nos tornamos cínicos é uma época deprimente.
Por outro lado, não posso me iludir achando que esse cenário é uma exceção na história do jornalismo argentino. É um ciclo que já ocorreu antes, muitas vezes. Embora pareça existir um abismo separando os anos de Timerman deste meu presente – a época dele foi a da dominação militar do espaço político; esta é a segunda década de democracia estável –, certos mecanismos e reações continuam funcionando do mesmo modo. Até certos protagonistas continuam os mesmos.
Talvez não exista nada além disso.
Talvez seja simplesmente assim, tenha sido sempre assim.
Talvez eu tenha vivido enganada, iludida.
Talvez seja hora de largar tudo.
O país parece fazer eco a meus pensamentos. Duhalde renuncia e, por uma insólita série de circunstâncias, chega à Presidência o quase desconhecido Néstor Kirchner, que pensa que a mídia molda seu conteúdo sempre de acordo com seus próprios interesses econômicos e políticos; que não existe nenhum espaço para um jornalismo “independente” ou até verdadeiro. Para ele não existe jornalismo, somente “meios”.
Assim como outros políticos, Kirchner divide a imprensa entre amiga e inimiga, mas diferentemente daqueles, não tem medo de declarar isso em público. Seu principal inimigo é o jornal La Nación, ao qual só fornece informação em determinadas ocasiões, tachando-o de oposicionista e porta-voz de grandes interesses econômicos. No campo aliado, situa o Grupo Clarín, dando-lhe absoluta prioridade nos furos de reportagem, nas entrevistas e em toda informação que lhe interessa difundir. Mantém contato permanente com Héctor Magnetto, CEO do grupo e um dos seus principais acionistas, com quem negocia acordos que beneficiam o jornal e discute a situação do país e os rumos do governo.
Os jornalistas percebem que houve uma mudança nas regras do jogo. Nos anos 90, os funcionários do governo se sentiam na obrigação de recebê-los, de dar explicações (mesmo que falsas), de proclamar seu respeito pela liberdade de imprensa, enquanto por baixo do pano tratavam de reduzir o estrago: quer dizer, mostravam respeito pelo que consideravam ser o poder dos jornalistas e da mídia. Agora o governo fala com certas empresas e com outras não, desprezando publicamente os jornalistas que são das empresas inimigas. Estes não são recebidos – nem sequer atendidos ao telefone.
Desapontada com os jornais, peço demissão do La Nación em 2003. Pouco depois, é publicado Timerman, no qual levei quase seis anos trabalhando. Busco refúgio nos meus livros – começo a trabalhar, quase que simultaneamente, nos dois seguintes –, enquanto tento descobrir como continuar a exercer o jornalismo.
Durante os cinco anos seguintes, Gabriel e eu levamos uma vida de escritores – ele se demitiu do La Nación alguns meses antes de mim –, mas começamos a sonhar em fundar um meio de comunicação próprio: o meio onde queremos trabalhar.
Elaboramos projetos, mantemos reuniões, levantamos custos, traçamos planos de negócios. E sempre nos chocamos contra o mesmo muro: é necessário um grande investimento em dinheiro, o dinheiro exige um financiador, e o financiador vem com uma agenda, condições e propósitos que limitam a possibilidade de fazer jornalismo, que não pode ser feito sem dinheiro…
Como fazer jornalismo sem um meio? Como fazer jornalismo em um meio?
Estamos nesse dilema quando surge a possibilidade de eu voltar para os Estados Unidos: ganho uma fellowship para jornalistas da Nieman Foundation, na Universidade Harvard. A bolsa Nieman, que todos os anos é concedida a 24 jornalistas com experiência, metade dos Estados Unidos e metade do resto do mundo, foi criada em 1937. A viúva de um jornalista doou uma fortuna a Harvard para que lá fosse criada uma escola de jornalismo, mas a universidade – que queria o dinheiro – não considerava o jornalismo merecedor de curso algum. A solução foi criar um programa que receberia os jornalistas para desasná-los, pondo-os lado a lado, por um ano, com uma das mais importantes elites acadêmicas do mundo.
Ano após ano, os selecionados se inscrevem reverentemente nos mais diversos cursos: filosofia, literatura, ciência, música, religião, oratória, leis, arte, saúde pública, negócios, política, história, arquitetura, design, urbanismo… a fascinante oferta de Harvard. Espera-se que, voltando ao trabalho, utilizem o que aprenderam.
Mas, pouco depois do início do ciclo, fica evidente que minha turma será diferente das anteriores.
Meus colegas americanos começam animados, mas logo sucumbem à ansiedade e à depressão. Todo dia se anuncia uma nova leva de demissões em suas redações. Desta vez são 400, não, 500 jornalistas; alguém telefona: fala-se em mais demissões, até em fechar as portas. Minha amiga Dorothy fica sabendo que seu jornal, o centenário Seattle Post-Intelligencer, do qual era colunista, cancelou sua edição em papel para se transformar numa pequena redação online, sem lugar para ela. David é informado de que o Chicago Tribune pediu falência. Alguns recebem ofertas de demissão “voluntária”, em troca de uma indenização, ou a advertência de que na volta os espera, com sorte, a incerteza.
Toda semana assistimos a palestras de colegas, empresários, especialistas e variados gurus que concordam no mesmo diagnóstico: a gratuidade, a velocidade, a infinita possibilidade de reprodução e distribuição e o acesso maciço à internet destruíram o monopólio dos meios de comunicação, por isso seu “modelo de negócios” (nos anos seguintes ouviremos tantas vezes essas três palavras que elas parecerão encerrar a chave do jornalismo) acabou, e não há substituto. Um artigo sobre moda, uma importante cobertura internacional ou uma crônica de guerra podem custar fortunas, mas, uma vez publicadas na internet, seu preço tende a zero e compete, às vezes com desvantagem, com vídeos ou posts publicados por gente de todo o mundo que nunca nem sonhou em ser jornalista, que nunca teve um Club de los Castores nem pediu carona na estrada para viajar 500 quilômetros e apurar quem matou uma família em General Villegas.
Já em 1995, em Columbia, tivemos um primeiro sinal disso, mas nenhum de nós o entendeu. A universidade deu a cada um dos mestrandos uma conta de e-mail, que para a maioria de nós foi a primeira. Todos passamos pelo curso de Reportagem Assistida por Computador, que não considerávamos, nem de longe, o mais interessante do programa.
Sem saber, nossa geração estava sendo preparada em nível olímpico para uma competição cuja natureza e cujas regras mudariam por completo quando chegássemos à idade de lutar pelas primeiras colocações. Como se, depois de sermos treinados durante anos para quebrar o recorde dos 100 metros rasos, de repente nos avisassem que iríamos competir numa corrida de saco aberta a qualquer pessoa que resolvesse participar.
A terrível notícia: não precisam mais de nós.
Eric Alterman escreve na New Yorker outra frase que logo também será um bordão: há uma “mudança de paradigma”. Antigamente, uma elite preparada detinha a missão e o poder de obter e processar a informação e de distribuí-la entre um público predominantemente passivo; agora, amplos coletivos desejam se informar por meio de uma contínua “conversa” entre seus membros. Ele também alerta para o risco de que essas conversas se deem em comunidades isoladas, que falam consigo mesmas, e nunca além dos limites da sua bolha.
Recebemos uma avalanche de estatísticas. Segundo uma pesquisa da Universidade Columbia, o total de jornalistas contratados nos jornais americanos, que entre 1971 e 1992 passou de 40 mil a mais de 60 mil, voltou a 40 mil em 2009. Os anúncios em jornais de papel caíram 23% em dois anos, segundo relatório sobre o estado da mídia 2009 do Pew Project for Excellence in Journalism. “Alguns jornais estão em bancarrota”, diz o relatório, “outros perderam três quartos de seu valor de mercado. Quase um de cada cinco jornalistas que trabalhavam em jornais em 2001 perdeu seu emprego, e é possível que 2009 seja ainda pior.” Nos canais de televisão, as equipes de notícias foram reduzidas “a níveis sem precedente” e o faturamento caiu 7% em um ano eleitoral, “coisa nunca vista”. Doze jornais metropolitanos foram fechados e dez passaram a ser publicados exclusivamente online, ou reduziram ao mínimo sua existência em papel desde março de 2007, segundo o site Newspaper Death Watch.
A migração para a internet é cada vez maior. Segundo o relatório do Pew Project, o número de visitantes habituais de sites de notícias nos Estados Unidos aumentou 19% entre 2007 e 2008. Nesse último ano, o tráfego dos cinquenta sites de notícias mais populares cresceu 27%. Mas seu faturamento com publicidade, que naquele último biênio havia aumentado à razão de um terço ao ano, estagnou. Calcula-se que em 2008 a recessão no mínimo duplicou as perdas da indústria jornalística americana.
Os números parecem frios e distantes, até que eu possa perceber algo nas mensagens que recebo de meus ex-colegas de Columbia. Durante anos nos mantivemos informados sobre promoções, correspondências, livros publicados, prêmios ganhos – Paul foi contratado pelo New York Times para cobrir o Sudeste Asiático, como queria; Susan escreve do México para uma grande agência de notícias; Julia produz documentários em Nova York; outros escrevem de Serra Leoa, Afeganistão, China, Madagascar –, além de receber as ofertas de trabalho de quem atingiu posições executivas. Mas 2009 é diferente.
Amy anuncia que deixou seu cargo de jornalista de investigação televisiva para montar seu negócio em Connecticut, que já está rendendo um bom dinheiro. Por acaso um veículo próprio? Não. Ela é gerente regional de uma marca suíça de cosméticos – uma versão sofisticada da Avon. Trabalha em casa e é feliz. Avisa que, se estamos procurando um “plano B”, os cosméticos são uma boa opção.
Sua mensagem provoca uma avalanche de respostas. Condoídas? Reprovadoras? Muito pelo contrário. Deena, de Nova Jersey, fala de si mesma como “uma das últimas egressas da escola de jornalismo ingênuas o bastante para continuar trabalhando num jornal”. Amy não está sozinha, afirma Deena: “Um número cada vez maior de jornalistas talentosos está largando a profissão para abraçar oportunidades mais estimulantes e bem remuneradas. Devo admitir que uma parte de mim se sente fortemente tentada a fazer o mesmo.”
Norman anuncia que está prestes a criar uma ONG, assim como Paul. Outra colega, Temima, confessa que levou muito tempo para perceber que “não havia problema em fazer outra coisa” que não fosse jornalismo, mas que agora é feliz dando aulas de literatura inglesa e oratória no ensino médio. Ana Lisa conta que foi editora de grandes revistas de Nova York e Los Angeles durante doze anos e ajudou a lançar novas publicações, mas que só duas dessas revistas ainda sobrevivem e, reconhece, “são uma porcaria”. Os colegas que continuam trabalhando nelas, afirma, “estão deprimidos e odeiam seu trabalho mais do que imaginavam ser possível”. Ela mesma passou mais de um ano desempregada. Agora está estudando biblioteconomia, uma carreira com um futuro que – tem certeza disso – o jornalismo já não oferece.
Josh chegou a editor sênior na revista Entertainment Weekly, na qual fez carreira ao longo de doze anos. Depois de publicar seu primeiro livro, no entanto, percebeu qual seria o plano ideal para sua vida: escrever mais livros e dar aulas. “Na manhã seguinte a essa epifania”, conta, “a economia foi para o buraco, e agora me agarro com unhas e dentes ao meu trabalho e ao meu salário na revista.”
Adam nos lembra que, pouco depois da graduação, foi contratado como assistente de produção pela Fox News. Estamos lembrados, claro: fazia inveja em muita gente. Em cinco anos, chegou a produtor sênior. Depois foi contratado por outra cadeia como produtor de um programa de notícias em horário nobre. Mas a cada dia se sentia mais infeliz no trabalho, até que “se tornou dolorosamente claro que não queria mais produzir notícias”. De um dia para o outro, desistiu do jornalismo e iniciou uma nova carreira como… comediante de stand-up.
Em outra geração, esses relatos seriam uma expressão da crise dos 40. Na minha, são os ecos do estouro de uma manada – o estouro final, cego, desesperado de uma espécie em risco de extinção.
Nos anos seguintes ficaria claro que o problema não afeta só os Estados Unidos. Ainda que em diferentes proporções e velocidades, o jornalismo e a mídia entraram em crise em (quase) todo o mundo. Os barões do velho modelo vão tombando fragorosamente; Rupert Murdoch é o que faz mais barulho ao cair. Durante décadas um magnata todo-poderoso que compartilhava a mesa do poder com presidentes e reis e decidia sobre atos de governo, grandes e pequenos, Murdoch sucumbe ante a revelação de que um de seus jornais na Grã-Bretanha vinha fazendo escutas ilegais para conseguir as informações que publicava. Fez-se vista grossa enquanto se tratava de grampear só celebridades, mas quando se comprovou que o jornal também espionava a vítima de um crime, a sociedade não tolerou. Na esteira do escândalo, vem a público o que muitos sabiam, mas não divulgavam: as ligações de Murdoch com o poder. São instaurados inquéritos judiciais sobre suborno e corrupção, importantes editores são presos. O império balança.
Assim como o de Murdoch, outros grandes conglomerados dos anos 90 começarão a se esfacelar ou vão simplesmente desabar de uma vez. Os grandes jornais não voltarão a ver aquela quantidade inusitada de zeros em suas planilhas de lucros.
A realidade parece sugerir uma solução para a contradição entre a estrutura empresarial da mídia e a aspiração do jornalismo à verdade: a morte dos meios.
Claro que ela não ocorrerá, ou não ocorre, da mesma forma para todos. Depois de uma rodada de lamúrias na Nieman Foundation em que os fellows americanos choram suas mágoas com particular autocomiseração, Thabo, o colega sul-africano, levanta-se muito animado e sugere uma alternativa: por que eles não se mudam para a África? Lá há diversos países de língua inglesa, como o seu próprio, cujas revistas e jornais de tiragem crescente poderiam aproveitar editores e redatores experientes.
Silêncio.
Passaram-se cinco anos desde que Thabo fez aquele convite. Que eu saiba, ninguém até agora se mudou.
Também na Argentina o sistema parece ruir.
Em meados de 2008, o Clarín rompeu sua aliança com o governo e perdeu as vantagens que ela lhe proporcionava. Governa Cristina Fernández de Kirchner, que sucedeu o marido. O Clarín decidiu, por razões táticas e políticas, apoiar o setor que se opôs ao governo num conflito motivado pelo aumento dos impostos sobre as exportações de soja, e o governo considera isso uma traição. Os Kirchner se dedicam a atacar a credibilidade de seu antigo aliado, enquanto, nos bastidores, tentam negociar uma reconciliação. Nos atos públicos governistas veem-se cartazes, balões, camisetas, bonés e até meias que proclamam: “O Clarín mente.”
Volto a Buenos Aires a tempo de acompanhar as eleições legislativas em que o governo de Cristina Kirchner é derrotado. Uma das primeiras imagens que vejo ao chegar é o rosto transtornado de Néstor Kirchner na televisão, às tantas da madrugada de 29 de junho de 2009, aceitando a derrota com espetacular reticência.
Mas em vez de recuar, os Kirchner decidem partir para o ataque, encontrar os culpados e golpear seus inimigos. Atingem o Clarín onde mais lhe dói: no bolso. Cancelam negócios milionários, perseguem o Grupo na Justiça e conseguem aprovar uma lei que o obrigará a se desmembrar.
Ao radicalizar o confronto, por momentos com uma retórica velha e sempre com fins políticos mais do que imediatos, os Kirchner se tornam, de repente, muito modernos: começam a falar com a sociedade de forma direta, descartando aberta e militantemente a intervenção da mídia – desqualificando com palavras e gestos a mediação dessa elite a que se referia Eric Alterman na  New Yorker.
E falam muito: em certos períodos, Cristina poderá ser vista todos os dias na televisão, fazendo longos discursos em cadeia nacional. E depois no Twitter. E depois nos espaços de publicidade oficial.
Ela não está sozinha. No mundo inteiro, os políticos fizeram a mesma descoberta. Presidentes tão diferentes como Barack Obama, nos Estados Unidos, e Hugo Chávez, na Venezuela, arrasam no Twitter. Na América Latina, o fenômeno ganha coloração política e faz parte de uma polarização ideológica, uma divisão em comunidades com valores diferentes que não se ouvem entre si – como advertiu Alterman. Em países como Venezuela, Equador, Brasil, Bolívia e, claro, Argentina, com matizes bem diversos e combinando processos específicos, o confronto entre governo e mídia é uma guerra declarada.
No fundo, os políticos fazem o que sempre fizeram: tentar domesticar a mídia. Antes isso era feito nos bastidores; agora, com a desvalorização do nosso papel histórico, ousam fazer tudo abertamente.
E nós? O que fazemos?
Bom, também a mídia argentina faz o que sempre fez: o que a mandam fazer.Alguns meios são acusados de integrar a oposição política e de ser porta-vozes de grupos econômicos, outros são convocados a integrar a grande causa nacional e popular – e todos cumprem sua tarefa. Distorcem os fatos, forçam as manchetes, omitem ou exageram para mostrar que o governo é um demônio ou um deus, que a Argentina é o inferno ou o paraíso, que vivemos em situação de emergência ou na maior prosperidade. Sua versão do país já não é apenas irreal, mas por momentos resvala no absurdo. Pelo jeito, ninguém mais teme cair no ridículo.
Os opositores se intitulam “independentes”. Os oficialistas se dizem “militantes”. Tenho colegas doPágina/12 em ambos os lados. Alguns viraram estrelas da televisão oficial; outros, da televisão antigovernista. Muitos jornalistas se alinham à empresa em que trabalham como se ela representasse uma causa sagrada.
Aqueles que observam o estado das coisas com o velho ceticismo que era comum aos dois campos preferem, em sua maioria, o silêncio. Temem que suas vozes se percam na gritaria. E também que por baixo de tanto barulho alguma coisa esteja realmente mudando, que tenhamos perdido algo que não vai voltar nunca mais: aquilo que fomos ou que acreditávamos ser – ou melhor, aquilo que sonhávamos e nunca conseguimos ser.
Muitos vão trabalhar em outra coisa.
Isso é tudo?
É o fim?
Não. Por algum motivo, algo de novo começa a surgir em toda parte. Inclusive em países da América Latina que não parecem os mais óbvios. A jornalista Juanita León lança em Bogotá um site dedicado a informar e debater sobre o poder político na Colômbia, sem as amarras e compromissos dos meios tradicionais nos quais se formou. O conhecido jornalista investigativo peruano Gustavo Gorriti lança um site de investigação onde é possível publicar o que é impublicável nos jornais limenhos. Em El Salvador, o jornal digital El Faro, fundado por um grupo de jornalistas jovens que também não encontravam espaço para contar o que viam, há mais de uma década, quando no país quase não existiam conexões com a internet, começa a ganhar notoriedade por suas importantes investigações e grandes crônicas sobre a violência.
São jornalistas que, como eu, chegaram à profissão décadas atrás, passaram pela experiência de trabalhar nos grandes meios e se decepcionaram; viveram todas as crises e ainda querem algo, ainda esperam conseguir algo que não se conseguiu.
Lá vou eu.
Em março de 2010 lançamos uma revista digital sobre cultura e política que chamamos el puercoespín. Ainda não sabemos o que vai ser. Mas sabemos o que queremos que seja: um meio no qual possamos nos reconhecer.
Já estamos há três anos nisso. La Silla Vacía, na Colômbia, completou quatro; o mesmo tempo que IDL-Reporteros, no Peru; Animal Político, no México, três; CIPER, no Chile, seis... São todos fruto da frágil esperança de que desta vez vai, desta vez será diferente.
Pouco antes de voltar à Argentina, em 2009, reencontrei Paul Steiger, aquele editor do Wall Street Journal cuja aura de poder tanto me impressionara fazia mais de uma década.
Continuava impressionando: destacava-se como um membro de outra espécie em meio à multidão de jornalistas e editores convidados ao congresso de jornalismo digital que ele ia abrir. Deixara o WSJ quando este havia sido vendido ao Grupo Murdoch e agora era presidente de um dos novos meios digitais, ProPublica, dedicado exclusivamente à investigação do poder.
Steiger traçou um diagnóstico da indústria em colapso e falou sobre o desespero dos jornalistas veteranos, que não encontram um lugar no “novo paradigma”. Mas enumerou também experiências fascinantes que surgiram da crise: espaços em que se pratica o melhor jornalismo, sem deformações; nos quais as melhores aspirações da profissão estão intactas.
“É um momento ideal para se ter 20 anos”, concluiu.
Eu não tenho mais 20 anos.
Mas comecei de novo. 

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