segunda-feira, 3 de junho de 2013

Como os miúdos portugueses vêem o mundo

O que é que os adultos ouvem quando decidem dar atenção às crianças? Livro reúne declarações dos mais novos sobre temas diversos.




Uma recolha de declarações de crianças de todo o país resultou num livro com o 
título Deus É Amigo do Homem-Aranha. Uma frase de um miúdo de três anos, o 
Gonçalo. Mas há declarações mais interessantes, mais felizes e também mais 
perturbadoras. Como a de João, com nove anos. “O trabalho é a troca do tempo 
que os nossos pais nos roubam pelo dinheiro que recebem.”

A ideia de juntar frases de crianças surgiu depois de Maria Inês de Almeida, 
jornalista e escritora, expor no Facebook o que o seu filho, José (agora com cinco
anos) ia dizendo. “As pessoas reagiam e sugeriam-me que fizesse um livro com 
as frases dele. Depois, com a editora (Esfera dos Livros), pensámos que seria 
interessante fazer um livro com as frases de crianças espalhadas por todo o país 
(incluindo as regiões autónomas)”, conta a autora ao PÚBLICO. E acrescenta: 
“Elas têm muito a dizer sobre os mais variados temas. Nós [os adultos] é que 
temos de parar para as escutar, desafiar e estimular.”

No entanto, a autora não queria “provar” o que quer que fosse: “Este livro não 
é argumento de uma tese. É uma escuta. Nós supomos demasiado que 
conhecemos as crianças e é necessário dar-lhes a palavra. Aprender com elas.”

Sobre a escola e sobre a morte, por exemplo, há declarações muito expressivas. 
“A escola é o lugar onde nos ensinam a escrever, a ler e a magia da Matemática”, 
diz Flávia, com nove anos e a estudar em Arganil. Mas também se diz que, “na 
escola, a sopa não tem cor, é branca” (Rita, quatro anos, Abrantes) ou “a escola 
esmaga o que aprendemos com o computador” (António, sete anos, Lisboa). Para 
a madeirense Inês, de dez anos, “a escola é a nossa vida. Se a destruirmos, 
destruímos também a nossa vida”.

Sobre a morte
Falando da morte, há depoimentos reveladores das posições e contradições dos 
adultos. Frei Bento Domingues, que analisou algumas das reflexões das crianças, 
conclui: “Os pais sentem a morte quando é tragédia familiar. Aliás, a morte só 
passa a ser uma experiência nossa quando morre alguém que amamos muito, a 
quem estamos ligados, que faz parte de nós. Nessa altura, nascem as interrogações. 
A partir daí, já contam as posições culturais, filosóficas e religiosas de cada um.”

Dizem as crianças: “A morte é a última coisa feita por todo o ser vivo (Zenna, 
nove anos, Pêra); “Estive a pensar: as pessoas não vão para o céu quando morrem… 
porque senão caíam” (Francisco, três anos, Lisboa); “A morte é quando vamos ter 
com Jesus” (Tiago, seis anos, Oeiras); “Morrer deve ser muito chato, não quero experimentar” (Joana, oito anos, Lisboa).

Maria Inês de Almeida quis traçar um retrato das diferentes famílias e relações. 
“Não há só uma maneira de ver e acho que o interesse do livro é mesmo esse: 
dar voz a muitas vozes. Esta sabedoria infantil. A minha conclusão é a de que 
devemos sempre valorizar as crianças. E muito nesta idade da vida. A fase da 
infância é breve, sempre a correr, e temos a tentação de passar depressa para 
a idade seguinte, onde já há concepções mais elaboradas.”

A surpresa com as respostas é nítida, segundo a mensagem enviada por email 
pela autora, ao enumerar aleatoriamente as frases das crianças: “Ter amigos é 
ter uma família igual à do Pai Natal”; “O amor é um quebra-cabeças”; “Os 
computadores são miolos”; “Políticos? Eu não sei nada disso, só vejo o Zig Zag!”

A cenoura dos políticos
Fixemo-nos em frases sobre os políticos: “Os políticos podem ser mandões, mas 
apesar disso nós não podemos fazer nada, pois foram as pessoas que os escolheram” (Carolina, nove anos, Armação de Pêra); “Um político é um pássaro com muitas 
cores” (Diogo, cinco anos, Lisboa); “Os políticos mostram-nos a cenoura e 
roubam-nos a alface” (Jorge, nove anos, Armação de Pêra).

Maria Inês Almeida conta como os miúdos aderiram bem ao desafio de escrever 
os seus pensamentos e de como os adultos participaram activamente na recolha 
e dinamização do projecto editorial. “Contei com ajudas preciosas. Foram dois 
anos de actividade de recolha, selecção e de ordenamento das frases. Precisei 
de estabelecer uma rede de apoio, com a ajuda desinteressada e generosa de 
muita gente, e para isso tinha de estabelecer prazos de entrega. Foi 
importantíssima a contribuição de amigos, vizinhos, pais, professores, a Rede 
de Bibliotecas Escolares, as direcções de algumas escolas, amigos de amigos, etc.”

Mas continua a contar com uma fonte indispensável e inesgotável: “Tenho 
comigo uma nascente, uma provocação contínua que é o meu filho José.”

Deus É Amigo do Homem-Aranha
Texto: Maria Inês de Almeida
lustração: Rita Correia
Edição: Esfera dos Livros
296 págs., 16,50€

Fonte: http://www.publico.pt/sociedade/noticia/como-os-miudos-portugueses
-veem-o-mundo-1596129/ Rita Pimenta 01/06/2013
Dica de leitura de Manuel Pinto/ UMinho

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