terça-feira, 30 de julho de 2013

Dilemas sobre a “crise da escola”


Por Monica Fantin
Por ocasião da participação na Programação Adulta da Mostra de Cinema Infantil de Florianópolistive o prazer de ser mediadora do debate com diretor German Doin, após exibição do filme La educacion prohibida.
Filme polêmico, mas com uma história de produção coletiva no contexto da cultura digital muito interessante. E considerando as diversas inquietações que continuaram a fazer parte das conversas e discussões sobre questões que o filme trata, destaco a inadequação da escola nos dias de hoje. Diante de tantas críticas à escola atual, perguntei ao diretor se durante suas entrevistas para fazer o filme alguém havia mencionado algo a respeito da importância da mídia e da tecnologia nessa outra configuração escolar, uma vez que a própria produção do filme só havia sido possível no contexto da cultura digital. E ele respondeu que curiosamente não, nenhum educador entrevistado mencionou tal aspecto, o que também chamou a atenção dele. Mas sendo o filme uma obra aberta, talvez seja possível incluir algum depoimento a esse respeito a partir da rede que está sendo criada.
Atualmente é tão lugar comum afirmar que e escola está distante da realidade dos alunos, que não dialoga com os saberes que estes trazem, que sua estrutura é inadequada, que está obsoleta, que em vez de muros e paredes precisa ser pensada em redes, e por aí afora. No entanto, mais que fazer coro a esse discurso, considero importante pensar na possibilidade de outras narrativas sobre a escola. E isso no sentido de oferecer algumas indicações que podem fazer parte de nossa reflexão, e que já foi objeto de perguntas e respostas de muitos outros estudiosos no campo da educação e comunicação. Afinal, tão importante quanto interrogar sobre a desorientação do sistema formativo escolar e sobre a escola do futuro, é problematizar a escola que temos até agora.
Entre tantos argumentos, sobretudo diante dos projetos de inserção de tecnologias na escola com o objetivo da “inclusão digital”, destaca-se o problema da tecnificação e da mediatização da escola como dois importantes desencadeadores de novas ações/reflexões. Em relação ao tecnicismo e tecnificação da escola, sabemos que faz parte de uma “política de globalização econômica e mundialização da cultura”, ou seja, de um “macro-sistema técnico planetário” que interpreta e atualiza o sentido de racionalização. Em relação à mediatização da escola, podemos questionar o pretenso espaço ético-estético mediador que “limita” e/ou promove diferentes percepções do sujeito sobre a realidade.
A partir de tais aspectos, a escola tem sido cada vez mais identificada como instituição autoritária, subjetiva e neoliberal, em que o valor da liberdade é considerado a partir das possibilidades ou não de escolhas do sujeito. Tal identificação nem sempre considera a dimensão histórica da instituição escolar e de suas relações com outros âmbitos da prática social, as transformações sociais, econômicas e culturais e suas relações com a “construção” do sujeito e do conhecimento. E quando não se considera a complexidade que envolve a relação entre sujeito e cultura e todas suas nuances, a escola entra em crise e seus dilemas se acentuam: a ênfase na dimensão da subjetividade ao lado da frustração a nível social; as demandas dos sujeitos e as demandas do mercado em que desenvolver competências técnicas parece ser apenas exigências do mercado; a pluralidade das culturas e o respeito às singularidades que encontra nos direitos humanos a base de relação, e muitos outros.
Entre tantos dilemas – sem entrar no mérito da importância de reafirmar o papel da escola hoje – conflitos e tensões sobre as políticas públicas, condições de trabalho, formação e tantas outras questões que a escola enfrenta, o que podemos fazer? Retomemos alguns pressupostos da mídia-educação para pensarmos em algumas considerações que possam minimizar certas fronteiras que hoje parecem distanciar ainda mais a escola da cultura e as gerações que ali se configuram, sobretudo em relação às mídias digitais:
- problematizar as representações de infância, juventude e do ser adulto, para além dos estereótipos e clichês ultrapassados, como por exemplo o termo “nativos digitais”, que se refere a uma crença de que crianças e jovens são “mais experts” que os adultos em termos de tecnologia. Afinal, não é isso que as pesquisas revelam e nem o que se observa nas escolas dos mais diferentes níveis de ensino, levando-nos a perguntar: “mais experts” em que? Exatamente de quem estamos falando?
- entender as mídias como espaços de encontro inter-geracional. No âmbito das relações educativas e familiares e suas formas de comunicação, certos usos do celular e das redes sociais também permitem construir espaços de troca, cumplicidade e presença entre pais e filhos e professores e alunos.
- criar e consolidar espaços de diálogo: importância de falar sobre as mídias, sobre os consumos culturais de crianças, jovens e adultos, ajudar crianças e jovens a problematizar suas leituras de mundo e a refletir sobre suas formas de consumo e de participação na cultura digital em uma perspectiva crítica.
-(des)naturalizar a presença das mídias e discutir formas de uso nos espaços públicos e privados, reconceitualizando as mídias e tecnologias como cultura, instrumento/ferramenta de estudo e/ou trabalho na vida cotidiana, na vida escolar e na construção de nossa subjetividade, que por sua vez cria novas demandas sociais.
Enfim, pressupostos e perspectivas da mídia-educação que não são novos, mas que podem ajudar a tratar de outra forma os novos/velhos problemas e os dilemas que a escola enfrenta. E para isso, a perspectiva de educar para a liberdade implica educar para a responsabilidade e isso diz respeito à cidadania. E parece difícil falar em cidadania sem reafirmar o direito à escola e ao ensino de qualidade.

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