quinta-feira, 8 de agosto de 2013

Comida para o pensamento

Por Ana Maria Machado

A língua inglesa tem a expressão "food for thought", perfeita para definir fatos ou argumentos que, de repente, aparecem e passam a demandar uma análise racional que se alimente deles mesmos para tentar digeri-los.

De certo modo, uma pesquisa recente desempenha agora esse papel no mercado editorial brasileiro. É de responsabilidade da Fipe (Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas), do Sindicato Nacional de Editores de Livros e da Câmara Brasileira do Livro.

Ela aponta queda de 7,36% na venda de livros no país, de 2011 para 2012. Esse foi o pior desempenho da década: o faturamento do setor cresceu abaixo da inflação, mesmo aumentando de R$ 4,8 bilhões para R$ 5 bilhões (dos quais, as publicações digitais representam 0,1%; são desprezíveis).

Já que trouxeram esse prato à mesa, o pensamento quer prová-lo. Degustar seus ingredientes e temperos. Não tem de concordar com quem nele só percebe sabores ácidos ou amargos. Números exigem vagar e combinações para que possam ser apreciados. Há que ir além da primeira sensação.

O número de exemplares vendidos caiu os já citados 7,36%. Mas a derrocada não foi geral. O segmento que engloba ficção e não ficção (ensaios, reportagens, biografia) subiu 7,65%. O de obras técnicas e científicas aumentou 1,16%.

O que despencou mesmo foi a venda de livros religiosos e de autoajuda: 19,18%. É um dado interessante, que faz pensar. Será que indica algum refluxo do setor até aqui em franca expansão? E por quê? Saturação? Migração desse tipo de conteúdo para outros canais?
Só o tempo e a continuidade na análise indicarão a tendência, embora a recente viagem do papa ao Brasil deva influir no surgimento de uma nova onda de publicações e consumo nessa área, o que repercutirá na série.

Outro número que chama a atenção é o que constata a queda de 11,09% na venda de didáticos. É mais fácil de entender esse caso se os dados forem contextualizados. Essas pesquisas costumam misturar dois canais e com isso mascaram a realidade, ao somar livros de literatura infantojuvenil com didáticos. Faz parte do paternalismo vigente, num quadro mais amplo que se repete nos catálogos de editoras, de olho nos termos de editais para compra governamental.

Assim, qualquer obra literária para crianças e jovens, passível de ser adotada por meio de aquisição oficial, vira didática --coisa que não acontece quando se trata da literatura para adultos, mesmo que comprada e distribuída pelo governo. É uma distorção a se levar em conta.

As compras governamentais contemplam alternadamente diferentes séries e segmentos escolares. Quando se destinam a faixas com mais alunos, as quantidades aumentam. Diminuem se o público-alvo é menor. É uma oscilação cíclica, a ser esperada.
Além disso, em termos ideais, seria até desejável que esse número pudesse diminuir, na medida em que grande parte desses livros são de literatura e se destinam a formar e abastecer bibliotecas escolares.

Ao fim de alguns anos de aquisições, as bibliotecas tenderiam a já ter um acervo básico. As compras, então, se destinariam a atualização e reposição, necessariamente menores. Afinal, esses programas existem desde o governo de Fernando Henrique Cardoso. Cobrar números crescentes equivale a querer que o programa Bolsa Família só aumente, sem porta de saída.

Seja como for, é bom ter essas pesquisas. Mastigadas e transformadas em palavras, podem garantir pensamentos bem nutridos sobre o livro no Brasil.

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