quinta-feira, 3 de outubro de 2013

Educomunicação é estratégia para melhorar aprendizagem dos estudantes

child heads with symbols/crédito:vladgrin-FotoliaDe acordo com pesquisa realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em 2011, quase 70% dos estudantes do sistema público brasileiro se conectou à Internet por meio de computadores pessoais (PCs) ou notebooks. Na rede particular, quase todos os estudantes acessaram a rede. Ainda de acordo com a pesquisa, o país tem mais 13 milhões de alunos conectados.
E é nesse mundo permeado por diversas tecnologias da informação e comunicação (TICs), que a escola é convidada a se reinventar e repensar seu papel. Entre seus maiores desafios, está o de de trazer para a sala de aula conteúdos que façam sentido à vida dos estudante, já que, diariamente, ele está conectado a uma gama de ferramentas e possibilidades da vida virtual, acessando conteúdos de seu interesse e grupos e comunidades onde se reconhece e acessa outros jovens.
Porém, mesmo com esse convite, ainda são frequentes as cenas de professores proibindo o uso de celulares em sala, ou, então, do acesso a smartphones ou tablets, já que a muitos ainda enxergam essas ferramentas como um empecilho à aprendizagem e à relação estudante-docente.
Cunhado pelo pesquisador Ismar de Oliveira Soares, da Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP), em 1997, o conceito de Educomunicação traz algumas pistas de como o uso dos meios, linguagens e instrumentos de comunicação podem estar presentes no espaço escolar, garantindo não só o direito universal à comunicação, mas também criando novos caminhos de diálogo e de ensino-aprendizagem.
E foi nessa perspectiva, – da educomunicação e da crescente presença dos meios de comunicação na sociedade contemporânea -, que o Ministério da Educação, ao propor o programa Mais Educação, assumiu como dois dos dez macrocampos possíveis para a atuação da escola, o de Cultura Digital e o de Comunicação e Uso de Mídias.
Para a pesquisadora e mestre em Educomunicação pela Universidade de São Paulo (USP), Daniele Próspero, o uso das TICs e da Educomunicação  na escola apresentam novas possibilidades educativas às instituições de ensino, uma vez que passam a integrar o projeto pedagógico da escola. “Não basta apenas ter um computador,  mas sim entender como seu uso vai transformar o estudante em sujeito de seu próprio processo de aprendizagem”, aponta.
Os efeitos da Educomunicação: Mais de 40% das escolas apontam que a educomunicação colaborou na interdisciplinaridade do conteúdo escolar. 80% mostram que os houve grande participação dos estudantes durante o processo de aprendizagem.
Em sua dissertação de mestrado Educomunicação e políticas públicas: os desafios e as contribuições para o Programa Mais Educação, Próspero constatou que a Educomunicação pode ser uma grande aliada da Educação Integral, pois traz a possibilidade de se criar transversalidade entre as várias disciplinas curriculares, além de aproximar a escola da comunidade onde se insere.
A pesquisa mostra como foi o processo de implementação de práticas educomunicativas ocorridas entre 2008 e 2011, em 67 escolas contempladas pelo programa que adotaram os macrocampos da comunicação, em dez grandes cidades de todo o território nacional. “A Educomunicação e a Educação Integral se aproximam por diversos fatores, já que ambos conceitos fomentam a valorização e protagonismo  do estudante, estreitam o relacionamento com a comunidade e promovem um novo diálogo entre professores e alunos”, afirma.
participacaoestadosenumerodeescolas/Crédito: DanielePróspero
Participação dos Estados x número de escolas (2011). Crédito: Daniele Próspero
O estudo aponta que, a cada ano, cresce o número de escolas que optam pelo campo da comunicação e uso de mídias em seu projeto de educação integral. Das 92%  escolas pesquisadas, foi possível verificar melhoria no nível de aprendizagem dos estudantes que participaram de atividades de comunicação, tanto nas áreas cognitivas quanto nas não cognitivas.
Segundo Próspero, ao trabalhar um jornal escolar, por exemplo, a escola pode perceber a contribuição dessa prática no aperfeiçoamento da escrita, do trabalho em equipe e também do comprometimento do estudante, que tem um incentivo a mais ao realizar o produto, já que outras pessoas irão ver seu trabalho.
“Quando você transfere as disciplinas para algo que faz sentido ao estudante, ele aprende muito mais, pois pesquisa assuntos de seu interesse”,  aponta Próspero.
Conquistas da Educomunicação:  Segundo a pesquisadora, atividades em Educomunicação possibilitam maior participação em sala de aula, maior interesse para o aprendizado, mais autonomia, mais responsabilidade, diminuição na timidez, mudança de comportamento, mais autonomia, mais responsabilidade, diminuição na timidez, mudança de comportamento, desenvolvimento da habilidade de escuta, vocabulário mais fluente.
Para Carlos Lima, coordenador do projeto Ondas do Rádio, desenvolvido pela secretaria de educação da capital de SP, a Educomunicação pode transformar a vida das pessoas que participam do projeto, que passam a ver que a produção de conhecimento acontece na troca de saberes entre os atores envolvidos. “A Educomunicação como ferramenta utiliza a bagagem cultural dos estudantes  e oferece oportunidades para o acesso a investigações que vão além dos oferecidos nas disciplinas do currículo tradicional. Abre-se um mundo de possibilidades que pode ser acessado pela web, na biblioteca e até em um bate-papo com pessoas da comunidade”, aponta.
Das escolas pesquisadas por Próspero, 40% mostraram que houve um fortalecimento de laços escola e comunidade. Para a pesquisadora, isso se deve ao fato da própria atividade exigir dos estudantes contato constante com outras pessoas – jovens, funcionários, pais e docentes -, seja por meio de pesquisas ou entrevistas.
Políticas públicas
Segundo Próspero, com programas como o Mais Educação, vem se abrindo espaço para que a Educomunicação esteja mais presente nas escolas. “A Educomunicação faz mais sentido quando você entra em uma escola que já possui um currículo integrado”, afirma Próspero, salientando a importância de normativas e diretrizes governamentais que diversificam e ampliam as possibilidades do currículo nas unidades de ensino.
Em cidades que possuem algum tipo de política pública que incentiva a a produção de comunicação em escolas, – como é o caso de Fortaleza (CE), onde as diretrizes curriculares trazem a utilização do rádio como instrumento pedagógico -, foi  possível notar um número maior de escolas interessadas em utilizar as práticas educomunicativas em seu currículo. “Quando o gestor do município está disposto e aberto a pensar outras formas de olhar a educação, isso faz toda a diferença”, aponta.
Para a pesquisadora, outro ponto ainda a ser enfrentado é a  resistência por parte de escolas e professores em lidar com a inserção da comunicação no currículo escolar, principalmente pela insegurança e até falta de conhecimento que muitos têm das novas tecnologias.
Nessa perspectiva, tanto o Ministério da Educação (MEC) quanto as secretarias de educação, vêm oferecendo diversos cursos de formação em Educomunicação e uso das TICs em sala de aula. Porém, para Próspero, apenas a formação teórica não resolve o problema, que deve ser discutido na prática escolar. “A grande diferença é o professor mudar esse seu olhar enquanto mediador de processo de ensino-aprendizagem. Se o professor perceber que ele é o grande mediador, as coisas podem mudar e ele sair da postura de quem não sabe lidar com as demandas dos estudantes”.

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