sexta-feira, 14 de março de 2014

Digitus infamis

Crédito: Revista Cult
Vejo muitas postagens nos facebooks da vida sobre a capa da revista Cult deste mês (número 188), onde a professora, ensaista, apresentadora de TV e ativista cibercultural Ivana Bentes está mostrando o dedo médio ereto. Creio que grande parte das postagens vêm da Bahia, onde a foto de Ivana “dando dedo“ chamou atenção porque apareceu logo depois de um fato político local relacionado com isso: na abertura do carnaval baiano, e reagindo a uma vaia ao governador Jacques Wagner, a primeira-dama Fátima Mendonça deu dedo aos vaiadores. Muita gente condenou e muita gente aprovou. No meio da polêmica apareceu a capa da revista com o mesmo gesto feito por uma mulher de grande trânsito no mercado brasileiro de ideias e esquentou a discussão.

Antropólogos afirmam que é uma das mais antigas expressões corporais da humanidade, alguns até ousam dizer que se trata de atavismo, uma tradução humana (mais civilizada) da exibição pelos primatas do pênis ereto aos inimigos, para intimidá-los. Historicamente, o primeiro registro é de 423 anos antes de Cristo, na peça As nuvens do poeta grego Aristófanes. O gesto se espalhou pela Antiguidade e chegou a Roma, onde foi batizado “digitus infamis”, dedo infame, também traduzido como obsceno. E ficou em quase todas as culturas, significando ofensa ou desprezo, tipo “não ligo para o que você está dizendo ou fazendo”. É largamente empregado na atual cultura ocidental, com abundante presença na literatura, pintura, teatro e cinema. Tanto nas artes como na realidade da vida, é usado por ambos sexos, sem discriminação. 

A primeira-dama baiana e a doutora amazonense são mulheres brilhantes e provocadoras, caracterizadas por gestar polêmicas, por lançar luzes novas sobre o comportamento da sociedade e dos indivíduos nesta nossa modernidade cambiante. As entrevistas de Fátima Mendonça, que é enfermeira, sacodem a Bahia com sua sinceridade, tocando em assuntos sensíveis “sem papas na língua”. Ela justifica sua atitude como direito à liberdade de expressão para todo mundo, incluindo primeiras-damas. Ivana Bentes já balançou a intelligentsia brasileira várias vezes, bastando lembrar a definição de “cosmética da fome” (a mais importante intervenção teórica do cinema contemporâneo do Brasil) para os filmes dos anos 1990, em contraposição à “estética da fome”, substrato filosófico de Glauber Rocha e do Cinema Novo. 

No facebook Ivana falou sobre a capa da Cult. “Intelectual e professor no Brasil é meio clichê: se apresenta sempre sério e com uma biblioteca atrás nas fotos. Não pode ser nem sorridente e nem irreverente. Se for mulher então, num país machista, mesmo dentro das universidades, tem que se enquadrar nas ‘regras de respeitabilidade’ e da ‘reputação’. (…) Um gesto (mesmo irreverente) é uma forma de comunicação direta e a quente, diante de tantas limitações, constrangimentos e caretice. (…) Às vezes é preciso sair do figurino para falar amplamente e francamente.”
Na entrevista na Cult, intitulada Respeitosamente vândala, ela diz que “as periferias são laboratórios de mundo e a riqueza do Brasil”, e lança os conceitos ciberperiferia e riqueza da pobreza, ”que transforma as favelas, quilombos urbanos conectados, em laboratórios de produção subjetiva”. Os dedos femininos levantados aconteceram durante as celebrações do Dia Internacional da Mulher, inclusive a capa da Cult é referente a isso. Na minha visão subjetiva, as mulheres avançam a todo vapor na sua inclusão abrangente no cenário social do século XXI e mostro a elas o V da vitória (indicador e médio levantados) que, aliás, se originou como pedido de clemência dos gladiadores que perdiam a luta no Coliseu romano e não queriam ser sacrificados. Uma sugestão: leiam A história de nossos gestos, de Luís da Câmara Cascudo. 

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