Reflexões do livro "O espectador emancipado"


Seguem abaixo apenas algumas linhas do livro de Jacques Rancière para nos fazer refletir sobre ser mestre e ser aluno...sobre ignorância e saber, sobre estar lado a lado ou estar distante...sobre oportunidades que alguns mestres proporcionam, outros não. Sobre a vida, a educação, o embrutecimento, a emancipação. Boas reflexões!

"Na lógica pedagógica, o ignorante não é apenas aquele que ignora ainda o que mestre sabe. É antes aquele que não sabe o que ignora nem como chegar a saber isso que ignora. O mestre, esse, não é apenas o indivíduo que detém o saber ignorado pelo ignorante. É também aquele que sabe como fazer da coisa ignorada um objecto de saber, em que momento e segundo que protocolo (...)(p.16)

O que lhe falta, o que sempre faltará ao aluno, a não ser que se torne ele próprio mestre, é o saber relativo à ignorância, o conhecimento da distância exata que separa o saber da ignorância. (p.17)

Essa medida escapa precisamente à aritmética dos ignorantes. O que o mestre sabe, o que o protocolo de transmissão de saber começa por ensinar ao aluno, é que a ignorância não é um menor saber. A ignorância é o oposto do saber; porque o saber não é um conjunto de conhecimentos, mas sim uma posição. A distância exata é a distância que nenhuma regra mede, a distância que se prova pelo simples jogo das posições ocupadas, que se exerce pela interminável prática do “passo mais à frente” que separa o mestre do indivíduo que supostamente o mestre deve trazer até junto de si. 

A distância é a metáfora do abismo radical que separa o modo de estar do mestre do do ignorante, porque separa duas inteligências: a que sabe em que consiste a ignorância e a que o desconhece. É antes de mais este afastamento radical que é ensinado ao aluno pela ordenação própria do ensino progressivo. Este ensina-lhe a antes de mais a respectiva incapacidade. E, assim sendo, trata de verificar constantemente no seu agir o seu próprio pressuposto, a desigualdade das inteligências. Esta interminável verificação é aquilo a que Jacotot chama embrutecimento. (p.18)

A essa prática do embrutecimento opunha Jacotot* a prática da emancipação intelectual. A emancipação intelectual é a verificação da igualdade das inteligências.(...) (p.18)"

Fonte: O espectador emancipado, de Jacques Rancière, Lisboa: Orfeur Negro, 2010

 *Jacotot é um personagem do livro "Mestre Ignorante", de Jacques Rancière
Fonte da Imagem: http://khunwufan.tumblr.com/page/5042

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